Paradoxo da abundância

Há alimento para todos mas nem todos comem

Paradoxo da abundância

Há alimento para todos, mas nem todos podem comer, enquanto persiste o desperdício alimentar: trata-se do «paradoxo da abundância», denunciado pelo Papa Francisco com uma mensagem transmitida aos participantes no dia de trabalho sobre o tema “Alimentar o planeta, energia para a vida”, que teve lugar em Milão (Itália). Publicamos o conteúdo da mensagem pontifícia.

Boa tarde a todos vós, mulheres e homens, que estais reunidos hoje para meditar sobre o tema: Alimentar o Planeta, Energia para a Vida.

Por ocasião da minha visita à FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, com sede em Roma] recordei como, além do interesse «pela produção, a disponibilidade de alimentos e o acesso a eles, a mudança climática e o comércio agrícola», que constituem questões inspiradoras fundamentais, «a primeira preocupação deve ser a própria pessoa, quantos não têm o alimento diário e deixaram de pensar na vida, nas relações, familiares e sociais, e lutam unicamente pela sobrevivência» (Discurso à FAO, 20 de Novembro de 2014).

Hoje, com efeito, não obstante o multiplicar-se das organizações e as diferentes intervenções da comunidade internacional sobre a alimentação, vivemos aquilo que o Santo Papa João Paulo II indicava como «paradoxo da abundância». Efectivamente, «há alimento para todos, mas nem todos podem comer, enquanto o desperdício, o descarte, o consumo excessivo e o uso de alimentos para outros fins estão diante dos nossos olhos. Eis o paradoxo! Infelizmente, este ‘paradoxo’ continua a ser actual. Há poucos temas sobre os quais se exibem tantos sofismas como a fome; e poucos argumentos tão susceptíveis de ser manipulados pelos dados, pelas estatísticas, pelas exigências de segurança nacional, pela corrupção ou por uma chamada dolorosa à crise económica» (ibidem).

Para superar a tentação dos sofismas – aquele nominalismo do pensamento que vai muito além, mas nunca toca a realidade – para vencer esta tentação, sugiro-vos três atitudes concretas.

 

1) Passar das urgências para as prioridades

Tende um olhar e um coração propensos não tanto a um pragmatismo que se revela como proposta sempre provisória, mas a uma orientação decidida na resolução das causas estruturais da pobreza. Recordemos que a raiz de todos os males sociais é a desigualdade (cf. Evangelii gaudium, 202). Desejo repetir-vos aquilo que já escrevi na Evangelii gaudium: «Não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata. Não é possível que a morte por congelamento de um idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na bolsa de valores» (ibid., n. 55). Este é o fruto da lei de competitividade, pelo qual o mais forte predomina sobre o mais frágil. Atenção: aqui não estamos só diante da lógica da exploração, mas também do descarte; com efeito, «os excluídos não são apenas ‘explorados’, mas também resíduos, ‘sobras’» (ibid., n. 53).

Por conseguinte, se realmente quisermos resolver os problemas sem nos perdermos em sofismas, é necessário extirpar a raiz de todos os males, que consiste na desigualdade. Para isto é preciso fazer algumas escolhas prioritárias: renunciar à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, e agir acima de tudo sobre as causas estruturais da desigualdade.

 

2) Sede testemunhas da caridade

«A política, tão denegrida, é uma vocação sublime, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum». Devemos convencer-nos de que a caridade «é o principio não só das micro-relações, estabelecidas entre amigos, na família e no pequeno grupo, mas também das macro-relações, como relacionamentos sociais, económicos e políticos» (ibid., n. 205).

Portanto, onde deve começar uma sadia política económica? No que se compromete um autêntico político? Quais são os pilares de quem é chamado a governar? A resposta é específica: a dignidade da pessoa humana e o bem comum. No entanto, infelizmente estes dois pilares, que deveriam estruturar a política da economia, muitas vezes «parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político, sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral» (ibid., n. 203). Por favor, sede corajosos e não tenhais medo de vos deixar interrogar, nos programas de política e de economia, por um significado mais amplo da vida; porque isto vos ajudara a «servir verdadeiramente o bem comum» e vos fortalecerá ao «multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos» (ibidem).

 

3) Administradores e não senhores da terra

Recordo novamente, como já fiz na FAO, uma frase que ouvi de um idoso camponês, há muitos anos: «“Deus perdoa sempre as ofensas, os abusos; Deus perdoa sempre. Os homens perdoam de vez em quando. A terra nunca perdoa!”. Preservemos a irmã terra, a mãe terra, para que ela não responda com a destruição» (Discurso à FAO, 20 de Novembro de 2014).

Diante dos bens da terra somos chamados a «nunca perder de vista a origem e a finalidade de tais bens, de modo a realizar um mundo equitativo e solidário», assim afirma a doutrina social da Igreja (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 174). A terra foi-nos confiada a fim de que possa ser para nós uma mãe, capaz de oferecer a cada um o que é necessário para viver. Certa vez, ouvi uma frase bonita: a Terra não é uma herança que nós recebemos dos nossos pais, mas um empréstimo que nos foi concedido pelos nossos filhos, para que nós a conservemos e a façamos progredir, e que depois lhes devemos restituir. A terra é generosa e nada faz faltar a quantos a preservam. A terra, que é mãe para todos, exige respeito e não violência ou, pior ainda, arrogância de senhores. Devemos restituí-la aos nossos filhos melhorada, preservada, porque se trata de um empréstimo que eles nos concederam. A atitude de preservação não é um compromisso exclusivo dos cristãos, mas diz respeito a todos. Confio-vos aquilo que já disse durante a Missa de início do meu ministério de Bispo de Roma: «Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos ‘guardiões’ da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para ‘guardar’, devemos também cuidar de nós mesmos! […] Não devemos ter medo da bondade, aliás, da ternura!». É preciso preservar a terra não somente com a bondade, mas também com a ternura.

Eis, portanto, três atitudes que vos proponho para vencer as tentações dos sofismas, dos nominalismos, daqueles que procuram fazer algo, mas fora da realidade da vida. É preciso fazer escolhas a partir da prioridade: a dignidade da pessoa; ser homens e mulheres testemunhas da caridade; e não ter medo de preservar a terra, que é mãe de todos!

A todos vós peço que rezeis por mim: preciso disto. E invoco sobre vós a Bênção de Deus. Obrigado!

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