FOGO PURIFICADOR O Paraíso em prestações

Fogo purificador

O Paraíso em prestações

Se vocês pensam que o artigo da semana passada foi um exercício de publicidade, bem, num certo sentido, foi. De uma certa maneira, nós padres, somos os agentes imobiliários para vós conseguirem a vossa casa dos sonhos, no Paraíso. Não foi Jesus quem disse que no Paraíso há muitas mansões (não disse apartamentos)? Nós padres fazemos o trabalho de “marketing” e venda. Também conseguimos o financiamento, de forma que através dos Sacramentos vós podereis fazer uso dos vastos recursos que Jesus conseguiu para nós, com o seu sacrifício.

Mas Jesus deixou bem claro que a tal mansão no Paraíso não seria grátis. Sim, mesmo que tenha aceite custear 99% do preço, ainda assim teremos que pagar prestações sobre o restante 1%. S. Paulo disse aos Colossenses (1:24): «Completarei na minha carne o que faltar das aflições de Cristo». Se Jesus não tivesse pago a “entrada”, nós nunca teríamos qualquer possibilidade de adquirir essa casa. Os preços do imobiliário aqui nesta terra não são nada em comparação com os das habitações celestiais, que estão cotadas para além de “do outro mundo” ou “astronómicas”. Mas nós só teremos que suportar parte do preço, que mesmo assim não é barato.

Então, como é poderemos fazer essas prestações? Muito simples. S. Paulo ensina-nos: «Quando comeres ou beberes, ou em tudo o que fizerdes, fá-lo para Glória de Deus» (I Coríntios 10:31). E o que é que ir para o Paraíso tem a ver com a Glória de Deus? Sempre que alguém chega ao Paraíso cumpre-se o plano de Deus para a Salvação, e Ele fica com a Glória do facto. Santo Ireneu disse: «Gloria Dei, vivens homo» – a Glória de Deus é o preenchimento total do ser humano, vivo, e estar vivo consiste em “estar” em Deus. Assim, pagamos as nossas pequenas prestações de cada vez que oferecemos a Deus algo bom que fazemos ou algo que nos cause sofrimento (se estivermos em estado de Graça). Pagamos prestações quando oferecemos sacrifícios. Jejuar é um desses sacrifícios, mas não o podemos fazer todos os dias. Mas temos muitas outras oportunidades de oferecer pequenas mortificações a Deus, quando actuamos com prontidão, diligência, competência, e alegria nas nossas tarefas diárias no trabalho ou na vida familiar. Ninguém precisa de procurar formas invulgares de se purificar. A nossa vida ordinária oferece-nos incontáveis oportunidades de o fazermos.

S. Josemaría ensinou-nos que muitas vezes um sorriso tem mais valor do que o jejum, porque é mais difícil de o fazer.

Ainda existe uma outra forma de pagar as nossas prestações, que é através das indulgências. Mas falaremos deste assunto numa outra oportunidade.

Mas o que acontece se, no fim da nossa vida terrena, ainda não tivermos acabado de pagar as nossas prestações? Assim não poderemos ocupar a nossa casa imediatamente. Teremos que pagar esse remanescente com a dor, naquilo que chamamos “Purgatório”.

Deixem-me usar outra analogia. Suponhamos que fui convidado para ir a um jantar formal, precisamente no momento em que acabava um jogo de ténis. Iria eu directamente para o jantar com os meus calções de ténis? Lógico que não! Provavelmente iria tomar um banho rápido e vestir-me de acordo com a ocasião. Bem, isso é o que o Purgatório nos concede. É-nos aplicada um grande limpeza, para entrarmos na Grande Festa. O “Compêndio do Catecismo da Igreja Católica” (n.º 210) ensina-nos que «o Purgatório é a condição daqueles que morrem na amizade de Deus, assegurando a sua salvação eterna, mas que ainda precisam de mais purificação para poderem entrar na Felicidade do Paraíso».

Algumas pessoas poderão discordar, pois o Purgatório não consta da Bíblia. O que até está correcto, a palavra “Purgatório” não consta da Bíblia (assim como também não consta o termo “Santíssima Trindade”). Mas a Bíblia explica o que é o Purgatório.

Na sua encíclica “Spe Salvi” (n.º 46) o Papa Bento XVI refere S. Paulo para explicar o Purgatório: «Paulo começa por dizer que a Vida Cristã se constrói sobre um fundamento comum, Jesus Cristo. Este fundamento é constante. Se nos mantivermos firmes nesse fundamento, e construirmos as nossas vidas nele, sabemos que não nos poderá ser tirado, mesmo na morte. E Paulo continua: “Agora, se alguém construir sobre esse fundamento, com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, capim, palha, etc…, o trabalho de cada homem tornar-se-á aparente, e no Dia tudo será conhecido, porque será revelado pelo fogo, e o fogo testará a qualidade do trabalho que cada um fez. Se o trabalho que cada homem produziu sobre o fundamento sobreviver, ele receberá uma recompensa. Se algum trabalho do homem for queimado, ele terá perdas, se bem que ele se salve, mas apenas através do fogo” (Coríntios 3:12-15)». A pessoa salva-se, mas mesmo assim terá de passar pelo fogo que purifica e purga. Pensem apenas num dentista a brocar os vossos dentes… Auchh, dói!

O Papa Bento XVI também relembrou a parábola do homem rico e Lázaro (Lucas 16:19-31) e explicou que o “inferno” mencionado nesta parábola não será o mesmo lugar dos condenados, mas algo mais parecido com o Purgatório.

Podemos citar duas razões que apoiam essa teoria. A primeira é que o homem rico ainda tinha a possibilidade de poder falar com Abraão. Esse tipo de comunicação com outros não seria possível no inferno, como já verificámos há duas semanas atrás. A segunda é que o Homem rico mostrou compaixão para com os seus irmãos. No inferno essa compaixão seria impossível, pois no inferno não existe Amor, apenas ódio.

Quando uma pessoa enfrenta Deus, sem se ter limpo completamente dos seus pecados, ou sem se ter desligado dos seus erros anteriores, a Estonteante Glória de Deus fá-lo compreender que não merece estar na Sua presença.

Assim, a carta aos Hebreus (12:14) ensina-nos: «Dêem o vosso melhor… para conseguirem a santidão sem a qual ninguém verá o Senhor». Num mesmo sentido, o Livro da Revelação (21:27) diz-nos: «Mas nada impuro poderá ali entrar». A Purificação total é absolutamente necessária para que alguém desfrute do Paraíso. Sem isso ficaremos deslocados no Paraíso.

Para acabar. No Credo dizemos que acreditamos na Comunhão dos Santos. Nos tempos modernos será como ter uma rede de amigos na Internet. O Antigo Testamento fala-nos sobre «fazermos penitência pelos mortos, para que sejam perdoados dos seus pecados» (II Macabeus 12:45). E isso deverá confortar-nos, porque uma alma que se encontre no Purgatório sabe que pode contar com as orações, mesmo de pessoas que poderá nem conhecer, que rezam por ela. O Papa estava certo ao dizer, em Abril de 2005: «Aqueles que crêem nunca estão sós – nem na vida, nem na morte».

Pe. José Mario Mandía

jmomandia@gmail.com

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