As religiões causam guerras?

Filosofia, uma dentada de cada vez (77)

As religiões causam guerras?

Tenho um amigo que diariamente lê a Bíblia, mas que diz que não está interessado em juntar-se a nenhuma religião. Disse-me: «As religiões causam guerras».

O autor americano Sam Harris, no seu livro “The End of Faith” (O Fim da Fé ou A Finalidade da Fé?), afirma que a religião organizada é “a mais prolífica fonte de violência na nossa História”.

Biólogo evolucionário e ateu inglês, Richard Dawkins afirmou que se deve culpar a Religião por muitas das violências e guerras através da História. John Lennon parecia partilhar da mesma crença. Na sua famosa canção “Imagine”, escreveu: “Imaginem que não há paraíso / é simples se quiserem tentar. / Não existe o inferno por baixo de nós. / Por cima de nós, apenas o céu. / Imaginem todas as pessoas a viverem só para o dia de hoje. / Imaginem que não há países. / Não é difícil de o fazer. / Nada por quem matar ou morrer. / E nenhuma religião também. / Imaginem todas as pessoas a viver a vida em paz”.

Mas a paz é aquilo que todos querem. Paz. A resposta será a abolição da Religião?

Por outro lado, Jimmy Akin, um conhecido autor e orador/conferencista (ver “O Mito de Que a Religião Causa Guerras”), sustenta: “Se a Religião predispõe as pessoas para a violência, tal deve ser visto numa pequena escala, e além disso os criminosos violentos, normalmente, não aparentam ser fiéis devotos”.

Akin ainda defende que não podemos olhar para todas as religiões do mesmo modo: “Tal como os pontos de vista não-religiosos, as religiões têm diferentes atitudes no que respeita à violência, desde advogar a violência numa variedade de causas, a advogar apenas em defesa própria a um profundo pacifismo”. E junta uma observação: “Frequentemente as guerras são travadas quando não existem diferenças religiosas. Numa das mais sangrentas guerras da história dos Estados Unidos da América, a Guerra Civil, o Norte e o Sul, tinham a mesma religião”.

Deixem-nos examinar alguns factos. Há um documento de Alan Axelrod e Charles Phillips, intitulado “Encyclopedia of Wars” (Enciclopédia das Guerras), publicado em Novembro de 2004, que de acordo com a empresa Amazon “aborda cada uma das principais guerras, rebeliões e revoluções – desde três mil e 500 anos antes de Cristo até aos dias de hoje –, a causas dos conflitos, uma compilação de batalhas e um resumo dos resultados, para além dos contextos sociais e políticos no qual as guerras ocorreram”.

A Enciclopédia refere que são conhecidos ou estão historicamente registados mil 763 conflitos, sendo que destes, 123 (6,98 por cento) tiveram a Religião como causa principal. E dos 123, 66 (isto é, metade das “guerras religiosas”) estavam relacionados com o Islão. Por outro lado, a maioria das guerras mais atrozes foram iniciadas por não-crentes.

No livro “Death by Government” (Morte pelo Governo), RJ Rummel escreve que Estaline conseguiu eliminou – pelo menos – 42 milhões 627 mil pessoas, Mao, 37 milhões 828 mil, e Hitler, 20 milhões 946 mil.

Vimos antes (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, Nº 5) que cada homem tem uma dignidade, porque é um ser racional dotado da capacidade de autodeterminação. A Religião (pelo menos a Cristã) acrescenta um outro dado importante: o Homem foi feito à imagem de Deus; é o reflexo da Divindade. A partir daí podemos ver que um crente tem uma razão mais profunda para respeitar os outros. Assim, não é surpresa que um dos pioneiros da Lei Internacional tenha sido o filosofo, teólogo e jurista romano católico da Renascença Espanhola, padre Francisco de Vitória OP (1483-1546). Este sacerdote levantou-se em defesa dos índios americanos, cuja dignidade estava a ser violada pelas políticas espanholas nas Américas.

Em 2004, apenas um ano antes de D. Joseph Ratzinger se tornar Papa Bento XVI, a Academia Católica da Baviera patrocinou um debate entre o cardeal Ratzinger e o filósofo e critico social neo-marxista Jürgen Habermas. Quem seguiu o debate ficou surpreendidos no final, quando Habermas concluiu que a Religião, se bem que não seja essencial, pode vir a ser uma ferramenta útil para se preservar a democracia secular. Mesmo para um ateu, afinal parece que há espaço para Deus.

Pe. José Mario Mandía

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