O Evolucionismo Teísta – 2

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XCI

O Evolucionismo Teísta – 2

O evolucionismo (ou evolução) teísta tem dois grandes objectos de análise. No primeiro objecto, procura definir se existe um Deus. Neste sentido, procura também determinar se Ele esteve ou não directamente envolvido no processo de origem da vida. Segundo esta visão, Deus pode ter estado na origem, na “construção”, na criação das leis naturais, talvez mesmo Ele tenha criado essas coisas com a ideia da vida em mente, questionam os adeptos desta tendência. Mas, nesses alvores da Criação, Deus afastou-se e deixou o processo seguir o seu próprio rumo e assumir a direcção. Deus deixou o mundo entregue a si próprio, fazer como tem feito, pelo que a vida surgiu, eventualmente, de matéria morta. Esta corrente é em tudo semelhante à evolução ateísta, pois ambas defendem, ou pressupõem, uma origem natural da vida.

Com efeito, a evolução ateísta defende, sumariamente, que Deus não existe. Neste sentido, a vida pode ter surgido, naturalmente, de “estruturas” preexistentes, sem vida, tendo esse surgimento ocorrido sob a influência de leis naturais (como a gravidade, por exemplo). É importante recordar aqui um aspecto interessante: a origem dessas leis naturais ainda não foi explicada, até hoje, ou definida em termos de causa e efeito. Considerando a teoria da Criação Especial, que já anteriormente referimos, esta afirma que Deus criou a vida de forma directa, do nada ou de matéria preexistente. Há, assim, uma grande variedade de hipóteses sobre a Criação Especial que reflectem uma variedade de tradições teístas.

Quanto ao segundo objecto de análise do evolucionismo teísta, ou em alternativa, enuncia-se que Deus não terá executado apenas um ou dois milagres para dar origem à vida como a conhecemos, mas antes uma série deles. Deus, nesta perspectiva, guiou a vida, a criação, passo a passo, de forma tutelar. Conduziu tudo num percurso que transformou a Criação de uma simplicidade primitiva até uma complexidade superior, semelhante à “Árvore da Vida Evolucionária” de Darwin – ou seja, peixes que deram origem aos anfíbios, os quais deram origem aos répteis, que por sua vez originaram os pássaros, os mamíferos, etc. Onde ou quando a vida não podia evoluir naturalmente, Deus teve que intervir. Esta corrente é semelhante à Criação Especial, pois presume que Deus agiu de forma supranatural de alguma forma para dar origem à vida como a conhecemos.

As várias perspectivas

Há, no entanto, diferenças entre a perspectiva da Criação Especial, marcadamente bíblica, e a da evolução teísta. Uma das diferenças mais relevantes diz respeito à questão da morte ou extinção dos seres vivos. Os evolucionistas teístas tendem a acreditar que a terra existe há biliões de anos e que a sua história geológica, onde estão os registos fósseis, representa longos períodos de tempo. O homem só muito tardiamente surgiu nesse registo fóssil e geológico, ou melhor, muito recentemente. Por isso, os evolucionistas teístas acreditam que muitas criaturas viveram, morreram ou se extinguiram – como os dinossauros – muito antes do surgimento do homem. Ora, tal significa que a morte já existia na Criação antes de Adão e Eva do pecado original.

Por seu turno, os criacionistas bíblicos, denominação que recebem os criacionistas que defendem a Criação Especial bíblica, acreditam que a terra é relativamente jovem e que o registo fóssil surgiu apenas durante o Dilúvio de Noé. Ou seja, a estratificação das camadas geológicas da Terra ocorreu devido à liquidificação, por processos hidrológicos. Esta teoria coloca o registo dos fósseis, a morte e as extinções de espécies de seres vivos como um processo que ocorreu séculos depois de Adão e Eva.

Depois temos diferenças na interpretação do Génesis, o pomo bíblico da discórdia. Os evolucionistas teístas tendem a defender interpretações alegóricas da semana de criação de Génesis. Por sua vez, os criacionistas bíblicos defendem uma interpretação literal das 24 horas da Criação no Génesis. Ora, ambos os pontos de vista carecem de fiabilidade se examinados na perspectiva cristã, pois ambos se afastam da linha narrativa da Criação tal como a encontramos no livro do Génesis. Senão vejamos.

Os evolucionistas teístas imaginam tudo num cenário “darwiniano”, isto é, no qual as estrelas evoluíram, como o nosso sistema solar, e na Terra, por sua vez, também as plantas e os animais evoluíram, e, eventualmente, o homem. Os dois pontos de vista de evolução teístas discordam quanto ao papel que Deus assumiu no processo de todos estes eventos, mas concordam quanto à ordem cronológica dos mesmos. Todavia, a ordem que ambos defendem não é concordante com a narrativa da Criação no livro do Génesis. Por exemplo, em Génesis 1 refere-se que a terra foi criada no primeiro dia e que o Sol, a Lua e as estrelas só foram criados no quarto dia. Alguns “criacionistas progressistas”, chamemos-lhes assim, argumentam que a linguagem do Génesis sugere que o Sol, a Lua e as estrelas, por exemplo, foram criados no primeiro dia, mas não podiam ser observados até ao quarto dia, a partir de quando puderam passar a ser mencionados. Esta concepção parece-nos uma distorção, no sentido de que na narrativa do Génesis, tal como está no livro, está bem claro que não exista na Terra uma atmosfera, algo que só aconteceu no segundo dia. De facto, o Sol, a Lua e as estrelas, o firmamento, só surgiram no segundo dia.

As aves, segundo o Génesis, foram criadas juntamente com as criaturas marinhas no quinto dia, enquanto que os animais terrestres só terão sido ao sexto dia. Também aqui há falta de sintonia daquelas correntes com o Génesis, cujo texto parece chocar também com a teoria de Darwin, que advogou que as aves evoluíram dos animais terrestres, enquanto que a narrativa bíblica recorda que as aves, animais do céu, enfim, antecederam os animais terrestres.

O Cristianismo pós-moderno, em muto aspectos, influenciado pelo evolucionismo, assume a reinterpretação do Génesis, o que abre caminho e espaço para as teorias de que temos vindo a falar, que se misturam paulatinamente nas concepções teológicas de muitos crentes. Muitos teólogos e apologistas bíblicos têm de facto refutado a interpretação literal do Génesis, o livro em causa nestas questões fundamentais. Alguns sectores mais tradicionalistas da Igreja vêem aqui uma cedência aos evolucionistas, aos críticos do Cristianismo, aludindo à perda de credibilidade da Igreja se ceder mais a esta visão pós-moderna. Os criacionistas são, ao mesmo tempo, cada vez menos no mundo académico, embora haja um apreciável número de teólogos e cientistas que afirmam que a Bíblia não só é compatível com a Ciência, mas lembram também que nem uma só palavra na Bíblia tenha sido empiricamente demonstrada como falsa pela Ciência. Mas os debates não ficam por aqui….

Vítor Teixeira 

 Universidade Católica Portuguesa

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