O Futuro já

Ciberguerra

O Futuro já

É muitas vezes qualificada como a arma dos pobres, mas são os Estados mais poderosos que a usam com mais perícia. Os ciberataques vão muito além da simples pirataria dos primórdios da Internet, em que jovens atrevidos penetravam, só pelo desafio, em redes informáticas que lhes estavam vedadas. Hoje, o ciberespaço é um domínio essencial da guerra moderna – e com isso tornou-a permanente, tanto mais que é quase sempre travada nas sombras.

Imagine que a rede eléctrica de um país inteiro vem abaixo e demora horas a ser restabelecida. Ou que as bolsas de valores e os bancos deixam de conseguir fazer as suas transacções de um momento para o outro, sem aviso prévio. Ou ainda que uma central nuclear sofre um colapso inexplicável, causando uma enorme libertação de radioactividade para a atmosfera.

Estas hipóteses podem parecer catastrofistas e dignas de um filme de Hollywood, mas a verdade é que são apenas algumas das que são contempladas pelos serviços de ciberdefesa de muitos países. Qualquer uma delas pode ser provocada por um ataque informático lançado através da Internet, ou até mesmo através de uma simples pen USB.

Que se saiba – e friso que se saiba, porque há um hábito enraizado de não divulgar a existência de um ciberataque quando é possível escondê-lo – não houve nenhuma grande falha de serviços ou infra-estruturas por causa de um ataque informático.

Com uma excepção. Crucial.

Apesar de toda a retórica – indiscutivelmente justificada – sobre a ameaça, para o Ocidente, dos exércitos de piratas informáticos ao serviço da Rússia e da China, a verdade é que o ataque mais bem-sucedido de que há registo teve origem nos Estados Unidos e, muito provavelmente, em Israel. Falamos do vírus Stuxnet, que foi criado especificamente para destruir as máquinas centrifugadoras que enriqueciam o urânio do programa nuclear iraniano. Em 2010, o Stuxnet entrou na rede informática alvo através de uma pen USB e acabou por causar a destruição de cerca de um quinto de todas as centrifugadoras do Irão, atrasando assim o desenvolvimento do seu programa nuclear. Especialistas que analisaram o vírus dizem que o seu grau de sofisticação é tal que só os Governos têm os recursos necessários para o produzir.

É claro que esta não foi a primeira acção ofensiva por parte de um Estado. A estreia, pelo menos em termos públicos, coube à Rússia, em 2007. O alvo foi a Estónia. A mudança de uma estátua comemorativa do Exército Vermelho gerou uma onda de indignação entre os russos, que serviu de pretexto para um ciberataque de grande escala que cortou o acesso às páginas de Internet de um grande número de instituições e empresas daquele país báltico.

As opiniões dividem-se sobre o grau de comando que o Kremlin teve sobre esta acção, mas parece indiscutível que ela teve, pelo menos, a bênção do Governo russo. Isto levou a NATO a assumir uma posição relativamente a esta nova realidade. O secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, disse, em 2017, que «um ciberataque grave pode ser classificado como um caso para a aliança. Nesse caso, a NATO pode e deve reagir».

E não admira.

É que, em 2013, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia assumiu publicamente que «as regras da guerra mudaram. O papel dos meios não-militares para alcançar objectivos políticos e estratégicos aumentou e, em muitos casos, excede o poder da força das armas». A doutrina Gerasimov – porque é esse o nome do general russo – mostra que a guerra moderna é travada em muitos outros planos além do puramente militar, como o político, informativo, propagandístico e tecnológico, entre muitos outros.

Sob a óptica da doutrina Gerasimov, a ciberguerra é essencial, mas acções ofensivas puras, como a que visou a Estónia, são apenas uma das suas componentes. Há ainda a espionagem e a propaganda, que tendem até a ser muito mais eficazes do que os ciberataques.

Veja-se o papel que a Rússia desempenhou nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016. Tendo determinado que Donald Trump era o candidato mais favorável aos seus interesses e que Hillary Clinton era a que menos lhe convinha, o Kremlin tratou de ajudar um e prejudicar a outra tanto quanto pôde. Só a investigação em curso nos Estados Unidos poderá determinar com total clareza os contornos dessa interferência, mas é já possível dizer que o Governo de Moscovo lançou uma grande campanha de desinformação e propaganda através das redes sociais (as tão famosas “fake news”), e que forneceu à campanha de Trump (ou pelo menos tentou) informação prejudicial sobre Hillary Clinton.

A própria divulgação das suspeitas do envolvimento russo na campanha eleitoral acabou, por paradoxal que pareça, por beneficiar os interesses do Kremlin. As polémicas e as divisões geradas nos Estados Unidos fragilizam o Governo de Washington e reduzem a sua capacidade de acção nas grandes questões internacionais.

No caso da ciberespionagem, a China tem-se mostrado a potência mais proficiente. Calcula-se que o Governo de Pequim tenha ao seu serviço entre cinquenta a cem mil piratas informáticos e sabe-se que, pelo menos desde 2003, tem havido um esforço concertado por parte destes para entrar nos sistemas informáticos mais delicados dos Estados Unidos e da Europa.

Há muito pouca informação fiável sobre o grau de sucesso das intrusões chinesas, mas há alguns sinais potencialmente significativos. Um deles é a rapidez com que a indústria aeronáutica local conseguiu desenvolver aviões de combate alegadamente indetectáveis pelo radar. Apenas alguns anos depois de os Estados Unidos apresentarem os seus F-22 e F-35, já os chineses começavam a desenvolver as suas próprias aeronaves do mesmo tipo, sendo que as semelhanças exteriores entre os modelos dos dois países são mais do que notórias. Em 2009, foi noticiado que piratas informáticos chineses teriam conseguido obter acesso a informação confidencial sobre o F-35, o que teria ajudado ao desenvolvimento do J-20 chinês.

Isto é o que se tornou publico. Nas sombras, muito mais já aconteceu e irá acontecer, especialmente no que diz respeito à desinformação e à propaganda. É que se a mentira tem pernas curtas, também é verdade que é barata e engana muita gente durante o tempo estritamente necessário. E não há melhor ferramenta para espalhar a mentira do que a Internet.

ROLANDO SANTOS 

Família Cristã

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