Jeremias (1): Um profeta rejeitado
CONTEXTO HISTÓRICO
O Livro de Jeremias é o mais longo dos escritos proféticos do Antigo Testamento, relatando o ministério de um homem chamado a servir Deus durante quarenta anos, num dos períodos mais turbulentos da História de Israel. Jeremias era proveniente da família sacerdotal de Anatote, uma cidade a norte de Jerusalém. Os seus antepassados eram descendentes de Aarão, mas a sua influência havia diminuído quando o rei Salomão os destituiu da liderança. Neste contexto, Jeremias foi escolhido por Deus para ser profeta no décimo terceiro ano do reinado do rei Josias, por volta de 627 a.C. Testemunhou a reforma religiosa iniciada por Josias. Esta reforma restaurou brevemente a fidelidade à aliança, mas rapidamente entrou em colapso sob os sucessores de Josias, que preferiram manobras políticas e alianças com nações poderosas, ao invés de obedecerem ao Senhor.
Jeremias advertiu consistentemente sobre a destruição de Jerusalém e do seu templo pelos babilónios, se não houvesse uma mudança genuína no coração dos líderes e do povo de Israel. A sua voz foi ignorada e ele viveu para testemunhar o terrível cumprimento da sua profecia em 587 a.C., quando Jerusalém foi destruída e o Templo incendiado. Apesar de proferir uma mensagem impopular, Jeremias era respeitado pelos invasores babilónios, que nomearam Gedalias como governador sobre o remanescente do povo que não foi levado para o exílio. No entanto, Gedalias foi assassinado em 582 a.C., tendo mergulhado a comunidade num caos ainda maior. Consequentemente, Jeremias foi levado contra a vontade para o Egipto, onde, segundo a tradição, acabou sendo apedrejado até à morte.
O sofrimento e a morte dos profetas tornaram-se um tema recorrente na História da Salvação, e o próprio Jesus a isso se referiu ao confrontar a dureza do coração dos líderes religiosos do seu tempo: «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes desejei reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!» (Mt., 23, 37). Desta forma, a vida e o destino de Jeremias prenunciaram a rejeição enfrentada por Cristo e sublinharam o custo da fidelidade à palavra de Deus.
MINISTÉRIO, ESTRUTURA E ACÇÕES SIMBÓLICAS
Desde o início, a missão de Jeremias foi definida por Deus em termos severos: «Eis que hoje te constituo sobre nações e reinos, para arrancar e derrubar, para destruir e derrubar, para edificar e plantar» (Jr., 1, 10). O seu ministério era, portanto, um ministério de julgamento, confrontando a corrupção e a infidelidade de Judá, mas também continha uma semente de esperança. Os verbos finais, “edificar” e “plantar”, apontavam para a possibilidade de renovação, mesmo quando a nação estava à beira da destruição e do exílio.
O livro em si não segue uma ordem cronológica. Grande parte do material parece ter sido recolhido sem uma lógica rigorosa, excepto algumas narrativas da vida de Jeremias, provavelmente escritas pelo seu discípulo e escriba Baruch, que aparecem nos capítulos 26–45. Dentro do livro há também uma secção distinta, conhecida como o Livro da Consolação (Jeremias 30–33), que oferece promessas de restauração e esperança. Além disso, as lamentações ou confissões pessoais de Jeremias são encontradas em Jeremias 15, 10–21; 18, 18–23; e 20, 7–18. Nestas passagens, o profeta abre o coração a Deus em momentos de grande sofrimento, confiando-Lhe todas as suas preocupações e revelando a profundidade da sua angústia e fé.
O papel de Jeremias não era apenas falar a palavra de Deus, mas incorporá-la na sua própria vida. Recebeu ordem para não se casar – «Não tomarás mulher, nem terás filhos ou filhas neste lugar» (Jeremias 16, 2) – um sinal da devastação que estava por vir, quando famílias pereceriam na guerra e no cativeiro. Assim como Ezequiel, Jeremias realizou acções simbólicas para dramatizar a mensagem de Deus. Numa ocasião, enterrou um cinto de linho até que se estragasse, simbolizando o orgulho de Judá e a sua inutilidade diante de Deus (Jeremias 13, 1–11). Noutra vez, quebrou um jarro de barro para mostrar que Deus destruiria Jerusalém pelos seus pecados (Jeremias 19, 1–12).
UM PROFETA COMO MOISÉS
A vida e a missão de Jeremias convidam à comparação com Moisés. Ambos serviram durante quarenta anos, ambos resistiram ao seu chamamento e ambos sofreram por causa da teimosia do povo. Moisés alegou que não sabia falar, enquanto Jeremias protestou: «Ai, Senhor Deus! Não sei falar; sou muito jovem» (Jeremias 1, 6). Em Deuteronómio, Deus prometeu levantar «um profeta como tu» (Dt., 18, 18), e Jeremias cumpriu esse papel, suportando a rejeição e a culpa como Moisés havia feito. A obediência à ordem de Deus – «Aonde eu te enviar, irás, e o que eu te ordenar, falarás» (Jr., 1, 7) – fez dele o protótipo do verdadeiro profeta, cuja fidelidade era medida não pelo sucesso, mas pela fidelidade à palavra divina.
Jeremias identificava-se tão plenamente com a palavra de Deus que ficava profundamente comovido com o sofrimento do seu povo e a teimosia dos seus corações. A sua mensagem revelava tanto a severidade do julgamento divino como a possibilidade duradoura da esperança. Através das suas acções simbólicas, da vida celibatária e da proclamação inabalável da vontade de Deus, lembrou a Judá que o Senhor age na história e exige fidelidade.
Embora as suas palavras tenham sido rejeitadas, o legado de Jeremias continua a ser um testemunho poderoso do custo da profecia e da promessa de renovação. Ele não foi apenas um profeta que falou a palavra de Deus, mas alguém que a viveu, oferecendo toda a sua vida como um sinal da justiça e misericórdia divinas. No meio do julgamento, Jeremias também anunciou a inauguração de uma nova aliança: «Vêm os dias», declarou o Senhor, «em que farei uma nova aliança com o povo de Israel e com o povo de Judá» (Jr., 31, 31). Esta promessa abriu um horizonte de esperança, apontando para a fidelidade duradoura de Deus e para a renovação da Sua relação com o Seu povo.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
«Bem-aventurado aquele que confia no Senhor, cuja confiança está nele. Será como uma árvore plantada junto à água, que estende as suas raízes junto ao ribeiro. Não teme quando chega o calor; as suas folhas estão sempre verdes. Não se preocupa num ano de seca e nunca deixa de dar fruto» (Jr., 17, 7-8).
Reflexão: Considere a imagem da árvore plantada junto à água: as raízes afundam-se profundamente, retirando vida e força do ribeiro oculto. Da mesma forma, enraíze a sua vida mais firmemente na Palavra de Deus, permitindo que ela o nutra e sustente em todas as estações.
Oração: Peça ao Senhor para fortalecer a sua confiança Nele e despertar a esperança, mesmo quando a fidelidade à Sua Palavra leva à rejeição ou à frustração.
Rendição: Abra o seu coração diante do Senhor com total sinceridade. Ofereça-Lhe os seus desejos mais profundos, as suas decepções e o seu coração partido, confiando que Ele os transformará numa nova vida.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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