Naum: Deus como Guerreiro Divino
CONTEXTO HISTÓRICO
O Livro de Naum não menciona reis reinantes, portanto, o seu contexto histórico deve ser reconstruído a partir dos eventos referidos no texto. Dois momentos decisivos fornecem a estrutura: primeiro, o cerco brutal da cidade egípcia de Tebas em 663 a.C., realizado pelo rei Assurbanípal da Assíria; segundo, a profecia sobre a destruição de Nínive, a capital assíria, que se cumpriu em 612 a.C. O ministério de Naum situa-se entre estes dois eventos, muito provavelmente nos anos que antecederam a queda de Nínive.
A severidade da linguagem de Naum ao descrever a ira de Deus deve ser entendida tendo como pano de fundo a crueldade assíria. Os assírios eram famosos pelas suas campanhas impiedosas, isto é, não mostravam piedade pelas nações que invadiam. A destruição de Tebas exemplifica essa violência, marcada por pilhagens, devastação e massacre de inocentes:
«No entanto, ela se tornou exilada; foi levada em cativeiro; até mesmo os seus bebés foram despedaçados na cabeceira de cada rua; sorteios foram feitos para os seus nobres; todos os seus dignitários foram acorrentados» (Naum 3, 10).
Para as nações conquistadas, restavam apenas duas opções: submissão por meio de vassalagem e tributos esmagadores – humilhações consideradas piores do que a morte numa cultura centrada na honra – ou destruição, massacre e exílio. Este foi o destino que se abateu sobre o Reino do Norte quando Samaria caiu em 722 a.C., dispersando as tribos de Israel. Apenas aqueles que fugiram para Judá sobreviveram; os demais nunca mais voltaram à sua terra.
A própria Judá sofreu a agressão assíria. Em 701 a.C., o rei Senaqueribe a invadiu durante o reinado de Ezequias, destruindo cidades fortificadas e sitiando Jerusalém. Embora Jerusalém tenha sido milagrosamente poupada, Ezequias foi forçado a pagar pesados tributos. Esta humilhação marcou a subjugação de Judá e deixou o povo na miséria e no desespero. Neste contexto, a profecia de Naum sobre a vingança contra Nínive torna-se compreensível: é o clamor de um povo que sofreu sob o jugo do império.
A TEOFANIA DA JUSTIÇA DE DEUS
A teofania inicial de Naum (1, 2–14) canta a grandeza de Deus e a Sua justiça em forma poética. Em contraste com o poder absoluto que o rei da Assíria reivindicava sobre as nações e os povos, o profeta proclama que somente o Senhor é o mestre da história. Deus é soberano sobre todas as nações e o Senhor da história, e o Seu domínio relativiza a suposta omnipotência dos governantes terrenos.
Deus é paciente, mas não deixa a crueldade impune: quando o julgamento chega, aqueles que confiam Nele encontram protecção, enquanto que os opressores são destruídos. A força dos fenómenos naturais reflecte o Seu poder e julgamento implacável, preparando o leitor para a visão da queda de Nínive:
«O Senhor é um Deus zeloso e vingativo; o Senhor vinga-se e se enche de ira. O Senhor vinga-se dos seus inimigos e descarrega a sua ira contra os seus adversários. O Senhor é lento a irar-se, mas grande em poder; o Senhor não deixará o culpado impune» (Naum 1, 2-3).
A QUEDA DE NÍNIVE
Em Naum 2, 1–3, o profeta anuncia uma festa em Jerusalém, um sinal de transição do julgamento contra Nínive para a salvação de Judá. A queda iminente da capital assíria é proclamada como uma boa notícia, um motivo de celebração e uma fonte de esperança para a paz e a prosperidade em Israel.
O restante capítulo (Naum 2, 2–14) descreve vividamente o ataque e a conquista de Nínive em 612 a.C., quando os medos e babilónios sitiaram a cidade. O texto evoca o estrondo dos cavalos e carruagens, os gritos dos defensores, o terror nos seus corações e o desvio dos canais do rio Tigre para derrubar as muralhas.
O “leão”, símbolo do rei assírio que devorou nações inteiras com violência e crueldade, é finalmente derrubado. Ele saqueou e matou para alimentar o povo de Nínive:
«O leão rasgou o suficiente para os seus filhotes e estrangulou presas para as suas leoas; encheu as suas cavernas com presas e as suas tocas com carne rasgada» (Naum 2, 12).
Em contraste com a violência exercida por estes reis vorazes, o poder político deve servir aos pobres e vulneráveis, protegendo-os e defendendo-os contra todas as formas de abuso ou injustiça.
A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA DE DEUS
De acordo com o profeta Isaías, Deus usou os assírios como um instrumento para punir e purificar o seu povo:
«Ai da Assíria, o bastão da minha ira; o cajado nas suas mãos é a minha fúria. Contra uma nação ímpia eu o envio, e contra o povo da minha ira eu o ordeno…» (Is., 10, 5).
No entanto, a sua crueldade era repugnante à justiça divina e o Senhor declarou que os julgaria pela sua arrogância e violência (cf. Is., 10, 12).
A justiça de Deus exige a conversão ou o castigo do pecador, a reparação do mal feito e o conforto dos oprimidos. A Sua justiça não se opõe à Sua misericórdia, mas está nela incluída. É uma manifestação da Sua compaixão, porque só a verdade liberta e reconstrói o nosso verdadeiro eu em Deus e na comunhão dos santos.
O coração de Deus não se inclina para a morte dos ímpios, mas para a sua salvação:
«Teria Eu alguma alegria na morte do ímpio? Palavra do Senhor, o Soberano Deus. Ao contrário, porventura não me dá muito prazer ver o ímpio converter-se dos seus maus caminhos e viver?» (Ez., 18, 23).
Esta tensão entre a justiça divina e a misericórdia divina revela a profundidade do amor de Deus. Ele castiga o mal, mas anseia pela conversão do pecador. A Sua intervenção é tanto um aviso como um convite – para abandonar a injustiça e abraçar a vida.
Conclusão:
O Livro de Naum apresenta Deus como o Guerreiro Divino que governa a história e afirma a Sua soberania sobre as nações. O profeta proclama que a justiça de Deus é inseparável da Sua misericórdia: ela exige conversão, reparação e conforto para os oprimidos, ao mesmo tempo que oferece salvação àqueles que Nele confiam.
A espiral de violência que marcou a História de Israel e de todos os povos encontra a sua resolução definitiva na cruz de Cristo. O Inocente sofreu uma morte injusta e vergonhosa e, por meio desse acto redentor, toda a história é curada. O rei assírio, símbolo de opressão e crueldade, não é apenas uma figura do passado, mas também uma realidade dentro de nós, travando guerras por meio do nosso orgulho, do nosso egocentrismo, da nossa sensualidade e do nosso desejo de poder e influência. A verdadeira luta é derrotar esta tirania interior.
Somente a graça de Deus, alcançada através do sacrifício de Cristo e da sua gloriosa ressurreição, nos pode conceder paz duradoura. Nele, a justiça e a misericórdia divinas convergem, oferecendo a libertação do pecado e a reconciliação com Deus. Então, à semelhança do profeta Naum, também nós podemos exclamar:
«Olhai para as montanhas, os pés daquele que traz boas novas, que proclama a paz!» (Naum 1, 15).
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Leia o primeiro capítulo de Naum com um coração orante, colocando-se diante da justiça e da misericórdia de Deus. Com coragem, peça ao Senhor que revele a verdade sobre si mesmo – as suas inconsistências, os seus fracassos e a maneira como trata os outros, especialmente aqueles que lhe foram confiados aos seus cuidados e responsabilidade. Peça coragem para lutar contra os assírios dentro de si com a ajuda da Sua Graça.
Contemple a cruz de Cristo e interceda por todos os que sofrem a injustiça da guerra, da destruição e da perseguição em todo o mundo. Reconheça Nele o único Inocente que suportou o sofrimento injusto e una-se ao Seu sacrifício redentor.
Por fim, reconheça Deus como o Senhor da história e renda-se humildemente à Sua vontade, confiando que a Sua justiça e misericórdia abrangem todos os povos e conduzem à verdadeira paz.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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