Um farol de esperança, pelos séculos dos séculos
Uma ocasião para comemorar, mas também para reflectir sobre o papel e a missão da Igreja Católica “local”, num mundo em acelerada mudança. As celebrações dos 450 anos da diocese de Macau arrancam hoje e são para os católicos motivo de júbilo e orgulho. A mais antiga diocese moderna do Extremo Oriente, acreditam, irá manter-se como farol de esperança numa Ásia que ajudou, incontornavelmente, a transformar.
Erguida a 23 de Janeiro de 1576 pelo Papa Gregório XIII, por meio da bula Super specula militantis Ecclesiae, a diocese de Macau foi a primeira circunscrição episcopal moderna do Extremo Oriente. Com jurisdição inicial sobre China, Japão, Coreia e demais partes orientais do continente asiático, a Diocese, recorda José Basto da Silva, teve um papel pioneiro na evangelização de diferentes povos e na afirmação da Igreja Católica na Ásia Oriental. «Olhando para os 450 anos passados, parece-me inegável que a Igreja acabou por transformar o mundo, de certa forma, a partir de Macau. Tivemos aqui muito trabalho feito, muitas actividades desenvolvidas, em domínios como a caridade, a formação e até a edificação de novas perspectivas ao longo destes 450 anos, graças ao voluntarismo da Igreja Católica que se fixou em Macau com o intuito de expandir a fé», sublinha o engenheiro informático. «Se Macau hoje é o que é, deve-o, em grande medida, à diocese de Macau», argumenta o coralista, voz incontornável das celebrações litúrgicas em língua portuguesa na Catedral da Natividade de Nossa Senhora.
O pioneirismo da diocese de Macau não se restringe, porém, aos esforços de evangelização da Ásia Oriental. A Igreja foi vanguardista também em domínios como a Educação e a Assistência Social e terá sido, sustenta Basto da Silva, um dos principais motores do desenvolvimento urbano de Macau entre final do Século XVI e início do Século XVII. «Graças à Diocese, a cidade começou a crescer e em poucos anos já tinha centenas de casas. Antes da fundação da Diocese, só havia autorização para construir barracas e tendas. A criação da Santa Casa da Misericórdia e, mais tarde, a criação da primeira Universidade da Ásia, o Colégio de São Paulo, indiciam a intenção de consolidar uma presença permanente em Macau», assinala o Mestre em Ciências Informáticas pela Universidade de Coimbra e filho da historiadora Beatriz Basto da Silva.
«Diria que a importância da diocese de Macau hoje em dia não é tão grande como terá sido há 450 anos, mas continua a ser um farol de esperança, na medida em que a Igreja, apesar de tudo, não abandonou a sua forma de estar e os seus princípios de caridade e de apoio aos mais necessitados. Veja-se, por exemplo, o trabalho que a Santa Casa desenvolve», exemplifica.
A “ENTIDADE IRMÔ
Fundada a 2 de Julho de 1569, quase sete anos antes da bula Super specula militantis Ecclesiae ter sido promulgada, a Santa Casa da Misericórdia continua hoje, como há 450 anos, a ter na diocese de Macau a sua principal referência espiritual e moral. As duas instituições, explica António José de Freitas, são pilares incontornáveis da identidade histórica de Macau. «Mesmo depois da transferência da soberania para a China, em 1999, a Diocese mantém-se como uma referência espiritual e moral, enquanto que a Santa Casa é uma instituição multisecular de utilidade pública, autónoma, de forma associativa, vocacionada para o serviço de assistência social junto dos mais vulneráveis. Ambas estão unidas por uma causa nobre e por um legado cultural e humanitário, inseparável da identidade de Macau», defende o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau. «A diocese de Macau reconhece a Santa Casa como uma expressão viva do Cristianismo na sociedade. A Santa Casa, por seu lado, mantém uma relação fraterna com a Diocese e reconhece nela a fonte de inspiração para as suas catorze Obras de Misericórdia. Ainda hoje, a condição sine qua non para que alguém seja irmão ou irmã da Santa Casa é ser católico. Essa é a condição sine qua non», acrescenta António José de Freitas.
JESUÍTAS: O INÍCIO
Se em Macau a vivência da fé é indissociável da obra desenvolvida por instituições como a Santa Casa da Misericórdia, a Cáritas ou o Centro do Bom Pastor, fora das fronteiras do território, o papel da diocese de Macau é recordado sobretudo pela sua relevância histórica. A cátedra episcopal da Cidade do Nome de Deus ainda hoje é recordada como “a mãe das missões no Extremo Oriente”, mas a evocação histórica, considera o padre Luís Sequeira, SJ, pouca relevância tem se não for acompanhada de uma reflexão sobre o futuro. «Entendo que esta celebração do centenário deve dar o mote a uma reflexão não só sobre um passado, onde as histórias são muitas e são belas, mas também sobre o futuro. Num sentido muito concreto, a diocese de Macau foi, ao princípio, mãe de centenas de dioceses e esta perspectiva deve ser, para nós, animadora, porque da mesma forma que fomos outrora luz, devemos continuar a ser luz e fonte de esperança», afirma o missionário jesuíta, especificando: «Um centenário que não se faça acompanhar por uma reflexão que perspective também o futuro é uma oportunidade perdida. Pensar sobre o passado é importante, é bem verdade, mas tendo em conta a região onde estamos é também importante fomentar uma perspectivação do futuro. A experiência humana oferece sempre aberturas para o futuro e para linhas de actuação que podem ser dimensionadas».
Para o antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau, o pioneirismo da cidade no domínio da evangelização não se esgota na sua dimensão histórica. O padre Sequeira acredita que a diocese de Macau pode voltar a ter um papel de relevo na divulgação da fé católica junto do povo chinês: «Historicamente, essa dimensão evangelizadora é uma realidade. Mas com ela chega também a responsabilidade de compreendermos o mundo actual e as circunstâncias em que nos encontramos. Diria que, hoje em dia, já não é preciso ir pela Ásia inteira, mas basta o continente chinês, onde a propagação da mensagem cristã é necessária. Assim como na altura, Macau assumiu essa missão e preparou missionários para essa missão, hoje também o pode fazer, ajudando à redescoberta da dimensão espiritual e transcendental da pessoa humana».
Marco Carvalho

Follow