GUARDIÕES DAS CHAVES – 46

GUARDIÕES DAS CHAVES – 46

Relações com um imperador amigo: Bento II e João V

SANTO BENTO II

(26.VI.684 – 8.V.685)

Bento II, o 81.º Pontífice Romano, teve também de esperar algum tempo após a sua eleição pela confirmação do imperador Constantino IV (668-685). Recordemos que Constantino IV convocou o Terceiro Concílio de Constantinopla (Sexto Concílio Ecuménico, 680-681, durante o Pontificado do Papa Agatão), que condenou a heresia do monotelismo.

O imperador também repeliu o primeiro cerco árabe a Constantinopla (674-678). A vitória de Constantino IV sobre os árabes estabilizou temporariamente o Império Bizantino após cinquenta anos de expansão árabe.

O Santo Padre conseguiu obter de Constantino IV uma mudança no protocolo, dando ao exarca de Ravena o poder de confirmar a eleição do Papa. Lembremos que no Império Romano Oriental (Bizantino) um exarca (em Latim “exarchus”) era originalmente um oficial militar ou general que também actuava como governador de alto escalão, essencialmente um vice-rei, governando províncias distantes e cruciais como Itália (Exarcado de Ravena) ou África (Cartago). Assim, exercia tanto o poder militar quanto o civil e actuava como representante directo do imperador. (Eventualmente, o termo foi adoptado pela Igreja para se referir aos bispos que lideravam grandes regiões ou representavam patriarcas). A mudança no protocolo encurtou o tempo entre a eleição do Papa e a confirmação desta.

O acordo com o imperador também revela as relações cordiais entre a Igreja e o Império. “De facto, Constantino pediu ao Papa que adoptasse os seus dois filhos, Justiniano e Heráclio. Como sinal dessa adopção, enviou ao Papa Bento mechas do cabelo dos príncipes” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 162).

“Bento era um homem ricamente dotado de qualidades nobres. Estava ao serviço da Igreja desde a sua juventude. Humilde, paciente e generoso, era bem instruído nas Escrituras e na música sacra. O seu Pontificado, no entanto, foi demasiado curto para lhe permitir muitas realizações” (idem). Bento II também demonstrou o amor pelos pobres de muitas maneiras.

O Papa foi um grande defensor da ortodoxia. Continuou os esforços dos antecessores para suprimir o monotelismo, ao exortar os bispos espanhóis a subscreverem os decretos do Terceiro Concílio de Constantinopla e ao tentar trazer o deposto Macário de Antioquia de volta ao ensino ortodoxo. Infelizmente, o ex-Patriarca de Antioquia persistiu no erro e morreu como herege.

O Papa São Bento II tratava muito bem o clero. O seu último grande acto foi distribuir-lhes presentes no Domingo de Páscoa, a 26 de Março de 685. Após a cerimónia, adoeceu e morreu pouco tempo depois.

JOÃO V

(23.VII.685 – 2.VIII.686)

João nasceu em Antioquia “O Papa Santo Agatão enviou-o como legado ao Sexto Concílio Ecuménico [Terceiro Concílio de Constantinopla]. De Constantinopla, trouxe de volta o relato dos trabalhos do concílio e também alguns decretos imperiais” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 164). Este facto revela a reputação de João em Roma. Após a morte do Papa São Bento II, o clero e os leigos de Roma elegeram João para o Papado na Basílica de Latrão. Graças ao novo regulamento que o seu predecessor, São Bento II, havia estabelecido, permitindo que a eleição fosse confirmada pelo exarca em Ravena, João V pôde assumir o cargo em pouco tempo. No entanto, apesar da sua erudição e zelo, a saúde de João não aguentou o peso do cargo; adoeceu e não conseguiu realizar muito.

O Papa João II “restaurou a ordem nas dioceses da Sardenha e da Córsega, insistindo no direito da Santa Sé de nomear bispos para as ilhas” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”).

Em 10 de Julho de 685, o imperador Constantino IV faleceu. Como vimos no Pontificado de Bento II, havia sido um grande amigo da Igreja em muitos aspectos.

“Enquanto ainda era legado, João conseguiu deste imperador amigo um decreto que reduzia os impostos pagos sobre as propriedades do património de Pedro. Constantino deixou o Império mais unido religiosamente e mais forte politicamente do que o tinha recebido do pai, Constâncio II” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 164).

Constantino IV é venerado como santo na Igreja Ortodoxa Oriental.

Pe. José Mario Mandía

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