Sofonias: O Dia do Senhor (1,7–2,3)
1. Contexto histórico e a reforma de Josias
Sofonias diz-nos, no versículo inicial do seu livro, que profetizou durante o reinado do rei Josias (640-609 a.C.). O final do Século VII e o início do Século VI foram anos turbulentos para Judá, que ainda vivia sob a sombra do domínio assírio.
Antes de Josias, o seu bisavô, o rei Ezequias, suportou o cerco de Jerusalém liderado pelo rei assírio Senaqueribe em 701 a.C., durante o tempo do Primeiro Isaías. Depois de Ezequias veio Manassés, o monarca com o reinado mais longo de Judá, que governou por 49 anos; o seu reinado foi marcado por intenso sincretismo religioso e idolatria: promoveu cultos cananeus, fenícios e assírios, incluindo a adoração de Baal e Aserá – os mesmos ídolos aos quais o profeta Elias se opunha.
O pai de Josias, Amom, foi assassinado após apenas dois anos no trono, deixando Josias para iniciar o seu reinado ainda criança. Quando atingiu a idade adulta, Josias iniciou uma renovação do Templo. Durante este projecto, o sacerdote Hilquias descobriu “o livro da Lei” – o livro de Deuteronómio (cf. 2 Reis 22, 8). Josias imediatamente consultou a profetisa Hulda, que confirmou a autenticidade e autoridade do texto. Profundamente comovido, o rei lançou uma reforma religiosa abrangente, destruindo centros cultuais rivais, como o santuário em Betel, onde o profeta Amós havia denunciado a falsa adoração. Embora Betel fosse um local sagrado desde o tempo de Jacob, ele havia sido corrompido pelos reis do Reino do Norte, que ali introduziram práticas pagãs.
Sofonias, juntamente com os seus contemporâneos Jeremias, Naum e Habacuque, apoiou a reforma de Josias. No entanto, a morte do rei, no ano de 609 a.C., em Megido, na batalha contra as forças do faraó Neco, foi um duro golpe para o movimento de reforma e tornou-se uma fonte de profunda tristeza para o povo de Judá. Sofonias confirma com a sua profecia a reforma do rei Josias, que se esforçou muito para reverter os males causados pelo seu avô, o rei Manassés.
2. O anúncio do julgamento
Em Sofonias 1,7–2,3, o profeta anuncia solenemente a iminência do «dia do Senhor», um tempo de julgamento que cairá não apenas sobre Jerusalém (cf. 1, 8–13), mas sobre todas as nações (cf. 1, 14–18). Diante da gravidade desse dia, a primeira resposta deve ser o silêncio reverente, como se tudo estivesse preparado para um acto litúrgico:
«Silêncio na presença do Senhor Deus! Pois está próximo o dia do Senhor, sim, o Senhor preparou um sacrifício, Ele consagrou os seus convidados» (1, 7).
No entanto, não se trata de um “banquete” de celebração, mas de julgamento. Trata-se de um oráculo irónico, em que os convidados são aqueles que serão sacrificados pelas tropas invasoras, em resultado dos seus pecados.
Os primeiros a serem convocados são os príncipes e aqueles que desviaram e contaminaram o povo com costumes estrangeiros:
«No dia do sacrifício do Senhor, castigarei os oficiais e os filhos do rei, e todos os que se vestem com roupas estrangeiras».
O próximo grupo a ser convidado é aquele que profana a casa do Senhor através da idolatria e do comércio marcado pela corrupção, pelo engano e pela violência:
«Castigarei, naquele dia, todos os que saltam sobre o limiar, que enchem a casa do seu senhor com violência e engano» (cf. 1, 8-9).
A expressão “saltar sobre o limiar” pode referir-se a um ritual filisteu dedicado ao seu deus Dagom (cf. 1 Sm., 5, 5). Depois que a Arca da Aliança foi colocada no templo de Dagom, o ídolo caiu diante da Arca, quebrando-se no limiar. A partir de então, os sacerdotes filisteus abstiveram-se de pisar no limiar, considerando-o sagrado. “Saltar sobre o limiar” tornou-se, assim, uma forma abreviada de participar em práticas rituais pagãs, especialmente às ligadas à idolatria.
Outra razão para o julgamento é a passividade indolente daqueles que persistem teimosamente no seu pecado e se enganam a si mesmos pensando que Deus não irá intervir:
«Naquele tempo, eu procurarei Jerusalém com lâmpadas, castigarei o povo que se instala como borra no vinho, que diz no seu coração: “O Senhor não fará o bem, nem fará o mal”» (1, 12).
“Instalar como borra no vinho” significa que aqueles que são excessivamente confiantes, como o sedimento que se deposita no fundo de uma garrafa de vinho, permanecem em paz e imperturbáveis, em vidas de complacência e conforto, longe de Deus, insensíveis para com os pobres. Por esta razão, o Senhor vasculhará todos os cantos de Jerusalém para erradicar todos aqueles que se rebelaram contra Ele.
A partir de 1, 14, o profeta descreve com intensidade crescente como será esse dia terrível: um tempo de angústia, devastação e escuridão:
«Esse dia será um dia de ira, um dia de angústia e aflição, um dia de ruína e desolação, um dia de trevas e escuridão, um dia de nuvens negras e densas, um dia de trombetas e gritos de guerra contra cidades fortificadas e muralhas elevadas. Nem a prata nem o ouro os poderão salvar» (cf. 1, 15–18).
Estes versículos transmitem a experiência de total impotência, sem direcção ou fuga da angústia. No dia do Juízo, as nossas próprias seguranças (“cidades fortificadas”) e as nossas economias serão inúteis.
3. Um apelo à conversão e à esperança
No entanto, no meio deste anúncio de ira, Sofonias abre uma porta para a esperança. Embora o dia do Senhor esteja próximo, ainda há tempo para a conversão. Por esta razão, ele faz um apelo urgente aos humildes da terra, convidando-os a não se deixarem levar pela impiedade e corrupção predominantes, mas a buscarem o Senhor, a justiça e a humildade. Só assim encontrarão refúgio no amor misericordioso de Deus quando chegar o dia do Seu julgamento:
«Buscai o Senhor, todos vós, humildes da terra, que observastes a sua lei; buscai a justiça, buscai a humildade; talvez sejam protegidos no dia da ira do Senhor» (2, 3).
O Dia do Senhor é um evento com dois lados: julgamento e punição dos ímpios e, ao mesmo tempo, justificação dos justos. O esmagamento dos opressores é a libertação dos oprimidos.
REZAR
COM A PALAVRA DE DEUS
Leia o texto abaixo com espírito de oração. Considere os seguintes pontos:
Idolatria e falsa segurança
A imagem de “saltar sobre o limiar” lembra-nos como um novo tipo de idolatria secular pode facilmente infiltrar-se nas nossas vidas. Que limiares atravessamos hoje – hábitos, compromissos ou práticas culturais – que substituem subtilmente a confiança em Deus por falsas sensações de segurança?
Complacência e indiferença espiritual
Considere se também tem tendência a se “instalar como borra no vinho”, vivendo tranquilamente na complacência. Isto desafia-nos a examinarmos se nos tornámos indiferentes ao sofrimento e à opressão daqueles que são excluídos da sociedade, assumindo que Deus não agirá nem intervirá, e a reacendermos a vigilância da nossa vida espiritual.
Julgamento e esperança
A justiça de Deus é a salvação dos pobres de espírito, não um motivo para nos preocuparmos e temermos. Sofonias convida-nos à conversão e a crescer nas virtudes da humildade e da justiça.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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