Vila do Conde

Rio Ave, Capela do Socorro e Nau Quinhentista

Rio Ave, Capela do Socorro e Nau Quinhentista

No fim-de-semana estaremos, pela terceira vez este ano, em Vila do Conde. Uma cidade, no Norte de Portugal, que muito nos atrai. Não só pela simpatia das pessoas, mas também pela beleza e localização privilegiada na foz do rio Ave.

Vila do Conde, além de outros atractivos, tem o rio e toda a sua vivência. Apesar de viverem nas costas da cidade do Porto, as gentes estão viradas para o rio Ave e isso sente-se no dia-a-dia. A dependência à apelidada Capital do Norte é quase inexistente. Tem das zonas ribeirinhas mais movimentadas do País e, nos últimos anos, com a subida de popularidade do Caminho Português de Santiago, tem registado uma explosão no número de turistas, uma vez que é a primeira paragem da Rota do Caminho da Costa, que começa na Cidade Invicta.

Durante anos, Vila do Conde viveu voltada para si mesma, mas nas duas últimas décadas, fruto de uma grande e boa aposta do poder local na dinamização do tecido empresarial, foi capaz de se reinventar e surgir como um dos polos mais desenvolvidos, tanto a nível empresarial como de oferta turística, no litoral português. Os visitantes, especialmente estrangeiros, contam-se às centenas de milhar anualmente e mantêm a cidade viva durante todo o ano.

Uma visita à cidade da foz do Ave dá para confirmar que o trabalho tem sido bem feito, sendo que quem a visita não passa muito tempo sem nada para fazer. Tudo à distância de uma pequena caminhada, há igrejas, jardins, cafés, restaurantes e… praia!

Na cidade, tanto o centro como as zonas limítrofes estão bem organizadas e é possível circular em toda a sua extensão de bicicleta. No entanto, peca por uma deficiente oferta de transportes públicos, que possa levar as pessoas a todos os pontos de forma rápida. O poder local está a par da situação e tem procurado encontrar soluções. Claro está que sendo o centro da cidade pequeno é mais fácil visitá-lo a pé. Daí também que a população local não pareça sentir a falta de autocarros ou táxis.

Vila do Conde tem uma forte história religiosa. Há locais de culto um pouco por toda a cidade. Uns mais imponentes do que outros, havendo um que para nós merece especial destaque. Trata-se da pequena capela do Socorro, na zona mais antiga da cidade, junto ao rio, onde se encontra uma pequena marina e uma das novas atracções da cidade: a réplica de uma nau quinhentista.

Lembramos que Vila do Conde foi um dos maiores polos de construção naval de Portugal, tendo desempenhado um papel preponderante na Epopeia dos Descobrimentos. A construção naval foi a sua maior indústria durante séculos, sendo que ainda hoje tem algum peso, nomeadamente na reconversão e reparação de navios.

A capela do Socorro, como se pode depreender pelo nome, está intimamente ligada às gentes do mar – ao constante sobressalto em que as famílias viviam – e também ao Oriente.

O pequeno templo foi erguido em 1559, a mando de um “piloto-mor da carreira da Índia, China e Japão que custeou as obras”, de seu nome Gaspar Manuel. É uma capela de pequenas dimensões, mas singular pelo seu formato e cobertura, semelhante à de templos orientais, possivelmente influenciada pelas vivências do piloto-mor. Outra das singularidades é o facto de um dos dois corpos da sua planta circular estar orientado para Meca! O interior está revestido por painéis de azulejos com cenas bíblicas.

A subida à capela justifica-se não apenas pela sua visita, mas também pela privilegiada vista que se pode apreciar sobre toda a zona ribeirinha. Dali há a um caminho que conduz à réplica da nau quinhentista. Tenho uma colega de curso que é autora do blogue “Viaje Comigo” e que faz a seguinte descrição: “(…) está fundeada no rio Ave, desde 2007, uma réplica da Nau Quinhentista que pode ser visitada pelo público em geral. Foi construída pelos estaleiros Samuel & Filhos, Lda, empresa de Vila do Conde, e é uma extensão do núcleo museológico Alfândega Régia – Museu de Construção Naval, que fica ali mesmo ao lado. Ainda agora se admira a construção destas embarcações para o tempo que se vivia. As viagens para a Índia eram muito longas, ou seja, deviam transportar maior quantidade de alimentos e água potável para que se conseguisse fazer toda a viagem sem ir a terra. A nau portuguesa, do século XVI, era um navio redondo com três ou quatro cobertas, castelos de popa e de proa, com três e dois pavimentos, respectivamente. Tinha três mastros: o grande, o traquete com pano redondo e o da mezena com pano latino. A construção das naus surgiu de forma a ter mais espaço para mais gente e para mais mercadoria, de forma a acomodar o transporte das especiarias, que eram consideradas uma carga valiosa. No interior, a Nau Quinhentista mostra os aposentos dos tripulantes, assim como elementos da tripulação, através de esculturas humanas. Na visita pode ficar a conhecer vários instrumentos de navegação, material cartográfico, mercadorias, uma botica, etc.”

A realidade é que já passámos pela nau por diversas vezes nas nossas deslocações a Vila do Conde, mas nunca tivemos tempo para visitar o seu interior. Até a própria capela do Socorro visitámos a correr. Desta vez, se houver oportunidade, iremos então ver, com os próprios olhos, como viviam os nossos antigos navegadores.

Afinal, foi nas naus que Portugal deu novos mundos ao mundo, levando a fé cristã aos confins dos mares.

João Santos Gomes

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