Vila de Minde

Brass It, Santo António e Minderico

Brass It, Santo António e Minderico

Quando em trabalho nos deslocamos a um local novo temos sempre receio que algo possa correr mal ou não esteja previsto. Confesso, na minha ignorância, que nunca tinha ouvido falar de Minde. Agora sei que em Macau há pessoas desta pequena vila do distrito de Santarém, concelho de Alcanena.

Minde fica mais perto de Fátima do que de Santarém, mesmo na fronteira do concelho de Ourém. Ali se realiza, anualmente, um evento denominado “Brass It”. Trata-se de um espectáculo de música e performance de rua. É um evento muito interessante e muito diferente do que normalmente oferecem as vilas e aldeias de Portugal no Verão. Este ano teve a participação de diversas bandas de metais e de música de rua. Durante dois dias foram actuando em diversos locais da vila. No sábado concentraram as actuações no Largo do Coreto, pela primeira vez na curta história do festival. Na noite anterior haviam actuado numa antiga fábrica.

Estávamos pois apreensivos, mas como nos tinham convidado há mais de três meses decidimos apostar e manter o nosso compromisso com a jovem organização. Embora nas primeiras horas tenhamos pensado que havia sido um erro e que poderíamos ter desmarcado e ido para um outro evento onde tivéssemos mais condições de retorno financeiro, no final do dia ficámos positivamente surpreendidos. Foi, efectivamente, uma festa diferente e toda a gente participou. Apesar da hora adiantada, as nossas vendas ficaram muito acima daquilo que imagináramos.

Aproveitámos o facto de estarmos perto de Leiria para convidar um casal de portugueses que conhecemos há uns anos em Nova Iorque para irem ter connosco. Assim o fizeram e finalmente tivemos a oportunidade de falar um pouco. É que durante a nossa passagem por Nova Iorque, em 2014, quando lá estivemos no Natal para renovar passaportes, fomos convidados por uma associação portuguesa para participar no Jantar de Natal, e faltou tempo para falar com todos aqueles que quiseram saber mais sobre a nossa aventura no veleiro.

Estivemos então a conversar com a Vera e o Marco, e ficou combinado que irão uns dias a Mira antes de eu embarcar rumo a Curaçao. A Vera e o Marco têm também eles uma história interessante. Recentemente retornaram dos Estados Unidos, onde viveram treze anos sem nunca voltarem a Portugal. Em terras do Tio Sam visitaram e fizeram caminhadas em todos os Estados da América. Deve ser um dos poucos casais de portugueses que se podem gabar de tal feito. Como referimos aquando da nossa estadia em Nova Iorque, este casal tem amigos em Macau, que também partilhamos.

 

Uma interessante descoberta

Para além destas surpresas positivas, durante os momentos de menos trabalho tivemos a chance de passear em redor do local onde nos instalámos, o Largo do Coreto, e descobrimos uma interessante capela. Infelizmente estava fechada. Apenas a janela das esmolas para o Santo António das Eiras estava aberta para as almas mais caridosas. Chama-se capela de Santo António e data de 1475, tendo sido alvo de variadas reconstruções até à sua actual estrutura, segundo nos explicou um membro da organização do “Brass It”.

Como é natural, a capela passou por algumas reformas ao longo dos seus muitos anos de existência, uma das quais em 1691, cuja data ficou gravada numa das pedras da janela do frontispício. A ser verdade o que refere Francisco Santos Serra Frazão, em “Ribatejo Histórico e Monumental”, de Francisco Câncio, deve esta reforma sido promovida por um militar de Minde no cumprimento de uma promessa feita durante a Batalha de Valência de Alcântara, em 1664. Como é usual em muitas construções religiosas de pequenas vilas e aldeias de Portugal, não há registos escritos que possam refutar este tipo de estórias.

Num pequeno texto que o referido membro do “Brass It” nos fez chegar, passaram-se longos anos sem haver nada de especial para contar a respeito da capela. Em finais do século XIX, com a construção da estrada que lhe passa em frente, o pequeno templo acabou por ficar abaixo do nível da estrada. Este transtorno logo despertou na gente de Minde a vontade de “trazer ao de cima” a vetusta capela, evocadora de tão venerandas tradições. Por influências que entretanto se moveram, conseguiu-se obter do Governo a verba de 500 mil réis, por intermédio do deputado José Charters de Azevedo, que quase custeou as obras.

A partir de então apenas terá beneficiado das indispensáveis obras de conservação, até que em 1981 voltou a passar por uma intervenção de fundo que a deixou em impecável estado e dotada de todas as condições exigidas pelos novos tempos, tanto para o exercício do culto, como para as funções de casa mortuária da zona sul, incluindo instalações sanitárias.

Embora seja uma pequena vila, Minde tem bastantes atractivos e merece uma visita mais atenta e com tempo. Há edifícios históricos, um parque natural, etc. O que mais nos cativou foi o Minderico ou Piação dos Charales do Ninhou (língua dos habitantes de Minde) – uma variante linguística falada em Minde desde o século XVIII. Era uma espécie de dialecto secreto que funcionava como código, conhecido somente pelos fabricantes e comerciantes das mantas de Minde. Tem duas variantes regionais: a de Minde e a de Mira de Aire. Este falar nasceu de uma comunidade isolada, localizada numa depressão fechada entre os Planaltos de Santo António e de São Mamede, em pleno Maciço Calcário Estremenho.

O Minderico permitia aos membros da comunidade falarem entre si, sem darem a conhecer o seu significado a terceiros. Porém, o Minderico ultrapassou as barreiras do secretismo e alargou-se não só a todos os grupos sociais da comunidade minderica, como passou a ser usado em todos os contextos (e não só para o comércio). Podemos garantir que ainda hoje se fala, pois foi-nos possível ouvi-lo, especialmente da boca dos mais velhos. Ainda assim, infelizmente, à semelhança do “nosso” Patuá, está ameaçado de extinção.

João Santos Gomes

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