Religiões do subcontinente indiano

Os nossos orientalistas ignorados

Os nossos orientalistas ignorados

No que diz respeito à divulgação das religiões não-cristãs na Europa, os portugueses precederam, em duzentos e trezentos anos, os orientalistas franceses, belgas e ingleses, se bem que nos estudos publicados ao longo dos séculos XIX e XX muito raramente os seus nomes são mencionados.

Diogo de Couto, na sua obra “Década da Ásia”, no capítulo dedicado à História da Índia, e a propósito do Pico de Adão, no Ceilão, identifica o célebre São Josaphate, ou São Josafá, até à altura considerado cristão, com Buda Sidarta Gautama. Na realidade, a lenda de Josafá é uma versão medieval da vida de Buda. A história seria inicialmente islamizada, como “a lenda de Bilahwar e Budasaf”, e, em seguida, passará para a ficção cristã, como “a lenda de Barlaão e Josafá”.

Couto, para além de fazer referência ao fundador do Budismo, citando os venezianos Marco Polo e Nicola de Conti, narra também a sua história, seguindo as pistas da tradição budista. Essa Década, a Década V, tem data de publicação de 1612, mas fora escrita ainda no decorrer do século XVI.

Também no que se refere ao Hinduísmo, deve-se a portugueses (ou que dessa forma se assumiam) as primeiras divulgações. Missionário jesuíta ao serviço de Portugal durante quarenta anos, embora oriundo da Inglaterra, Tomás Estevão (como o próprio assinava), foi dos primeiros europeus a descobrir a semelhança existente entre as línguas da Índia e as línguas clássicas da Europa. Tomás Estevão foi o autor da “Doutrina Cristã”, escrita em Concanim, entre outras obras. Numa carta, redigida em Latim – datada de Outubro de 1538 e conservada na Biblioteca Nacional de Bruxelas – enviada de Goa para o seu irmão que se encontrava em Paris, consta o seguinte: «Muitas são as línguas destas regiões. A sua pronúncia não é desagradável e a sua estrutura é relacionada com o grego e o latim. O modo das suas construções e frases é admirável.» Curiosamente, afirmação idêntica seria feita dois séculos depois pelo filólogo William Jones, a quem se atribui, hoje em dia, a descoberta da origem comum das línguas indo-europeias.

É bom lembrar que, a propósito do poema místico Bhagavadgita, as primeiras traduções em língua europeia são em Português, feitas pelos nossos missionários da Companhia de Jesus. Existe uma dessas versões na Biblioteca Pública de Évora. Trata-se de um trabalho anónimo, sem data e sem o nome do local onde foi feito, e que viria a ser publicado por Esteves Pereira no boletim da Academia de Ciências. De facto, essa tradução sumária seria a primeira tentativa de trasladar uma obra escrita em Sânscrito para a língua de um dos povos da Europa, e precedeu mais de um século a tradução de Charles Wilkins, publicada em 1758, que é considerada a primeira tradução completa de uma obra escrita em Sânscrito. É, assim, um trabalho de indiscutível valor, tanto do ponto de vista filológico como também para a história da literatura. De acordo com o editor Esteves Pereira, por confronto com outras obras sobre o mesmo assunto, o tradutor seria muito provavelmente o padre Fernão de Queirós. A obra foi elaborada no início do século XVII.

Existe ainda uma outra tradução em Português, também ela abreviada, da autoria de um tal padre Manuel de Oliveira, alegadamente um hindu convertido ao Catolicismo. Esta tradução, que diverge bastante da anterior, está hoje na Casa da Companhia de Jesus em Roma.

A este respeito, Jacob Fenício na sua obra “Livro da Seita dos Índios Orientais” faz alusão a um brâmane convertido que tomou o nome de Emmanuel da Oliveira, que teria roubado a biblioteca a um outro brâmane e trabalhado nestes textos, nomeadamente os Puranas e o Mahabharata, do qual faz parte a Bhagavadgita. A carta, do padre Ludovico Fróis, que relata este facto tem a data de 19 de Novembro de 1599.

Não obstante, o indólogo Helmuth von Glasenapp, autor do “Religiões Não-Cristãs”, limita-se a um lacónico «a descoberta do caminho marítimo para Índia, em 1498, por Vasco da Gama, facilitou aos países ocidentais a aquisição de noções mais precisas», ignorando o papel destes personagens incontornáveis e remetendo o leitor para um pretenso pioneirismo do holandês A. Roger e do alemão Bartholomeus Zieganbalg, missionários protestantes.

Também o Maniqueísmo, religião de carácter sincretista fundada no século III d.C pelo persa Maniqueu – também chamado Mani ou Manes – foi referenciada por viajantes como Bento de Góis, que partiu em busca do mítico Cataio através das montanhas do Hindokush e os desertos do Turquestão para se inteirar que, afinal, o Cataio e a China eram uma só e mesma coisa.

Maniqueu era um intelectual culto que estudara as mais variadas religiões e que escrevia os seus pensamentos dando grande importância ao efeito directo das suas obras. Após a sua morte, o Maniqueísmo espalhou-se a Oriente e a Ocidente. No século VI sucumbiria no Ocidente mas manter-se-ia no Oriente. Prova disso é que em 694 há relatos de um maniqueu na corte imperial chinesa… Esta doutrina teve uma forte difusão na Ásia Central ao ponto de tornar-se, em 763, a religião do Estado dos uigures. No Turquestão chinês, que viria a islamizar-se, sobreviveu até ao fim do século XIII e, na China, ainda no fim do século XIV foi publicado um édito contra os “adeptos da respeitável luz”.

Manique considerava Zaratustra, Buda e Jesus os seus predecessores. Para ele, como escreve Helmuth von Glasenapp, «esses mestres só tinham tido sucesso em determinada parte do mundo porque a sua doutrina não era suficientemente universal, e por outro lado porque não tinha sido conservada convenientemente uma vez que os seus fundadores não tinham retido por escrito». Por isso se preocupou tanto Manique em escrever a doutrina que pregava.

Na transição do século XIX para o XX apareceram em Turfan, no Turquestão chinês oriental, e nas grutas perto de Tun-huang, numeroso textos maniqueístas em língua persa, pártica, sogdiana, uigúrica (antiga turca) e chinesa.

Bento de Góis interpretou os resquícios do Maniqueísmo ainda presentes em certos cultos como sinais de uma Cristandade perdida.

Joaquim Magalhães de Castro

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