Professor Daniel Baird Wallace, referência Mundial no Estudo e Crítica do Novo Testamento em Grego

PROFESSOR DANIEL BAIRD WALLACE

Os escribas nunca comprometeram a palavra de Deus.

O Novo Testamento contém 27 livros redigidos em Grego, que datam da segunda metade do século I d.C.: quatro Evangelhos, o livro dos Actos dos Apóstolos, treze Cartas de Paulo, a Carta aos Hebreus, sete Cartas denominadas católicas ou universais – por não terem destinatário determinado – e o livro do Apocalipse. O Novo Testamento dá cumprimento ao Antigo Testamento, superando-o, apresentando-se como testemunha de novos factos e novas palavras de Deus, com os actos e ensinamentos de Jesus na sua morte e ressurreição. Nestas circunstâncias foram surgindo diversos escritos, sendo que alguns dependeram de escritos anteriores. É certo que não se consegue confirmar a autoria de alguns dos escritos, contudo, sabemos que os textos que compõem o Novo Testamento foram produzidos na segunda metade do século I e que nenhum manuscrito original se conservou, apenas chegando até nós muitas cópias. Os documentos originais do Novo Testamento estão perdidos, mas será que a palavra do Novo Testamento, escrita pelos apóstolos, também se perdeu? O professor Daniel B. Wallace responde-nos a esta e outras questões.

Hoje, apenas na língua grega, temos mais de cinco mil e 800 manuscritos do Novo Testamento (NT). Muitos deles são fragmentos, especialmente os mais velhos, e à medida que mais manuscritos surgem aproximamo-nos cada vez mais do texto original.

Daniel Wallace alerta-nos que devemos evitar duas atitudes que normalmente as pessoas tomam: “desespero total” ou “cepticismo radical”, a primeira; e “certeza absoluta”, a segunda. Existem académicos, teólogos radicais que são tão cépticos que nenhuma evidência está segura nas suas mãos, afirmando que não conseguimos saber a verdade sobre o texto original, uma vez que pode ter havido alterações no texto original antes das cópias, que temos hoje, terem sido produzidas.

Wallace foca-se em dar resposta a perguntas que ele próprio coloca: quantas mudanças feitas por escribas existem? Que tipo de variantes textuais temos? Que crenças teológicas dependem das passagens suspeitas? O Novo Testamento está perdido?

De acordo com o professor, a razão pela qual temos muitas variantes é porque temos muitos manuscritos. A verdade é simples: nenhum texto clássico grego ou latino tem as mesmas variantes, porque eles não têm nem de perto tantos manuscritos. Se houvesse apenas uma cópia do NT este não teria qualquer variante.

Dado o desejo dos primeiros cristãos em difundirem as Boas Novas, a morte e a ressurreição de Jesus – lembra-nos Daniel Wallace – o NT foi, logo de início, traduzido para uma grande variedade de línguas como Latim, Cóptico, Siríaco, Gótico, Etiope, Arménio, antigo eslavo eclesiástico e muitas outras. Há cerca de dez mil manuscritos em Latim, apenas do NT. Ninguém sabe ao certo o total das traduções antigas, mas as melhores estimativas apontam para pelo menos vinte mil manuscritos do NT em várias línguas, incluindo o Latim e o Grego.

Aliás, os Pais da Igreja atestam o NT. «Se alguém quisesse destruir os manuscritos do NT não ficávamos sem testemunhas, porque os líderes da Igreja primitiva, conhecidos como os Pais da Igreja, citaram várias vezes o NT, e como é notório eles não tinham o “dom” da brevidade». Até aos dias de hoje, mais de um milhão de citações do NT feitas pelos Pais da Igreja foram registadas. O professor Wallace garante: «se todas as nossas fontes do Novo Testamento fossem destruídas, as citações patrísticas, voltando ao segundo século, e em alguns casos mesmo ao primeiro século, seriam suficientes para uma reconstrução practicamente de todo o Novo Testamento».

Quantos manuscritos temos após o NT ter sido completado no primeiro século? Quantos temos do segundo e terceiro séculos? Apesar dos números serem significativamente baixos, mesmo assim são impressionantes. Daniel Wallace afirma que temos doze manuscritos do século II – sendo que nos últimos anos outros fragmentos do NT foram descobertos – 64 do século III e 48 do século IV. Isto dá um total de 124 manuscritos de 300 anos de composição do NT. «A maioria são fragmentos, mas colectivamente todo o NT é encontrado nesses manuscritos, e vários livros são achados neles múltiplas vezes».

 

Novo Testamento vs literatura greco-romana – «Se os cépticos aplicarem o seu cepticismo no texto do NT ao resto da literatura greco-romana, então podemos dizer adeus a todos os nossos livros de história antiga, porque não saberíamos nada sobre César, Alexandre (o Grande), Cícero, Platão, a glória de Roma, entre outros milhões de factos que só foram preservados nas cópias dos manuscritos desses autores». As obras clássicas greco-romanas, os manuscritos existentes – ilustra-nos Daniel Wallace – se fossem empilhados teriam a altura de pouco mais de 1,2 metros, em contraste com mais de mil e 600 metros de altura dos manuscritos existentes do NT.

Wallace vai mais longe e afirma: «a nossa democracia moderna, ética médica, matemática, seriam todas irradiadas. Este tipo de cepticismo levaria-nos de volta à Idade Média, onde a ignorância não era outra coisa senão uma bênção».

Segundo ele, o NT é de longe o trabalho mais bem atestado do mundo antigo. Precisamente porque temos centenas de milhares de variantes e centenas de manuscritos antigos, estamos em excelentes condições para recordar a redacção dos textos originais.

 

Variantes encontradas nos manuscritos – Que tipos de variantes existem nestes manuscritos? Mais de 99 por cento não fazem a menor diferença, aponta Wallace. «Por exemplo, a variante mais comum envolve ortografia, mas sem alterar o sentido das frases. As variantes que possam ser mais significativas encaixam-se no grupo de menos de um por cento». Daniel Wallace dá-nos um exemplo desses, o Evangelho de Marcos (9:29) quando se relata que os discípulos de Jesus tinham tentado expelir alguns demónios e não tinham sido bem sucedidos. Jesus disse-lhes: “este tipo de demónios só pode sair por meio de oração”. Alguns manuscritos, na sua maioria posteriores, adicionam: “…e jejum”. «Então esses demónios eram do tipo que deveriam ser expelidos por oração e jejum, ou somente oração? Esta é considerada uma variante significativa».

Outro exemplo apontado por Wallace surge no livro do Apocalipse 13:18, quando se fala no número da besta, o número 666. Mas há cerca de 170 anos um académico decifrou um manuscrito antigo que nos diz que o número da besta é 616. Wallace diz-nos que esse manuscrito provou ser um dos mais confiáveis para o livro do Apocalipse. Há pouco mais de quinze anos um outro manuscrito foi descoberto – manuscrito mais antigo do Apocalipse, capítulo 13 – onde se faz referência ao número 616.

«Embora as variantes entre os manuscritos do NT cheguem às centenas de milhar, o que podemos concluir é que aquelas que possam efectivamente alterar o sentido são menos de um por cento», refere.

 

Codex Sinaiticus e Vaticanus – São ambos do século IV. Foram produzidos por escribas profissionais e há milhares de diferenças entre eles, realça Wallace. «A vasta maioria dessas diferenças não tem nenhuma consequência e, ainda assim, juntos, esses dois manuscritos atestam uma forma muito antiga e muito pura do texto». Um estudo feito por dois académicos britânicos há 130 anos conclui que o facto de haver tantas diferenças entre estes dois textos mostra que nenhum foi copiado a partir do outro, mas as notáveis similitudes entre ambos demonstram que eles possuem um ancestral comum, que provavelmente deve ter sido produzido no século II.

 

Evangelho de Mateus – Daniel Wallace sublinha um dado interessante sobre o Evangelho de Mateus. Para Wallace, a maioria dos académicos acredita que Mateus e Lucas usaram grande parte do seu texto, retirado do Evangelho de Marcos, para escrever o seu próprio Evangelho. «E de facto, se grande parte do Evangelho de Marcos (cerca de 90 por cento) é encontrado no Evangelho de Mateus, então podemos concluir que realmente temos uma cópia do primeiro século de Marcos, que Mateus utilizou. No entanto, Mateus não apenas copiou Marcos, mas também o alterou. Mateus removeu as redundâncias de Marcos, suavizou as frases redundantes, limpou a gramática e colocou Jesus numa luz diferente». Mas será que Mateus teria uma cópia perfeita do Evangelho de Marcos para trabalhar? Na opinião do professor, não, pois embora seja verdade que a cópia que Mateus usou não é idêntica ao original de Marcos, as diferenças são tão triviais que nem podem ser traduzidas. E mesmo que não tenhamos evidencias sólidas de como o Evangelho de Marcos era no primeiro século, temos evidências esmagadoras que dificilmente era diferente.

 

Fragmento mais antigo do Evangelho de João pode ser do Século I – Em 1934, Colin H. Roberts, ao analisar uns papiros encontrados no Egipto e levados em 1920 para a Universidade de Manchester, verificou que um dos manuscritos tinha texto dos dois lados, o que fazia parte de um Codex. O referido manuscrito era parte do Evangelho de João; de um lado o capítulo 18:31-33, do outro João 18:37-38. Depois de ter enviado a imagem dos manuscritos para três referências da época em papirologia – na Europa – todos concluíram que se tratava de um manuscrito provavelmente datado do ano 100 d.C., podendo ir até 150 d.C. Um académico alemão iria “discordar” e apontaria a data para 90 d.C. Este pedaço de papiro do apóstolo João – conhecido como P52 – incendiou todos os académicos alemães, principalmente os que tinham criticado a veracidade do Evangelho de São João.

Afinal, será que o Novo Testamento está perdido ou encontra-se algures entre os manuscritos existentes? O professor Daniel Wallace lembra-nos que a Fé Cristã não é apenas uma crença ou um “mito”, ela é palpável na história. «O facto de que Deus se fez homem num determinado momento da história coloca o “selo” de aprovação na investigação histórica. A fé cristã é uma fé histórica. A Bíblia é o único texto sagrado que se sujeita a si mesmo à investigação histórica».

Wallace defende que temos o texto original dos Santos Apóstolos nos manuscritos de hoje, e que não podemos caminhar cépticos face a uma montanha de evidências.

Num manuscrito do século XI a nota deixada pelo escriba no trabalho concluído mostra-nos o amor e a seriedade pela palavra de Deus, e a sua reprodução: “as mãos que escreveram isto jazem sepultadas numa sepultura, mas as letras permanecem até à plenitude dos tempos. Completado com a ajuda de Deus, 23 de Fevereiro, sexta-feira, a segunda hora, durante o décimo primeiro período, no ano de 1079, pela mão de André. E se acontecer que algum erro de omissão permaneça, isto por amor a Cristo, perdoem-me!.”

Miguel Augusto 

(*) Texto editado a partir de palestras do professor Daniel Baird Wallace nos últimos anos, em defesa da preservação dos escritos originais apostólicos do Novo Testamento que se encontram nas inúmeras cópias manuscritas existentes – de diversos séculos d.C. – feitas por escribas e calígrafos.

 

Nota: Daniel B. Wallace é membro da “Society of New Testament Studies”, do “Institute for Biblical Research”, da “Society of Biblical Literature” e da “Evangelical Theological Society”, da qual foi presidente até 2016. Escreveu, editou ou contribuiu para mais de trinta livros e publicou artigos sobre estudos do Novo Testamento. É actualmente director executivo do “Center for the Study of New Testament Manuscripts” (www.csntm.org), instituto cujo objectivo inicial é preservar a Escritura, tirando fotografias digitais de todos os manuscritos conhecidos do Novo Testamento grego.

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