Nova Ordem Mundial

A Jogada Chinesa

A Jogada Chinesa.

Apesar de ser um Estado comunista, a China tem-se assumido nos últimos meses como uma grande defensora da ordem capitalista, liberal e globalizada implantada pelo Ocidente nas últimas décadas. Este aparente paradoxo resulta de outro: os Estados Unidos, que têm sido o país mais empenhado na criação e manutenção dessa ordem, parecem querer acabar com ela. Ou, pelo menos, afigura-se ser essa a vontade do seu Presidente.

No início de 2017, a pequena cidade suíça de Davos foi palco de um acontecimento inédito que parece indicar uma viragem estratégica na política e na economia mundiais.

Pela primeira vez nos 46 anos de história do Fórum Económico Mundial, o principal encontro de líderes políticos e empresariais do mundo capitalista, um Presidente chinês esteve presente.

Mais: esteve presente e discursou. E não foi um discurso de circunstância.

Xi Jinping fez uma defesa eloquente da ordem económica mundial. Reconheceu que esta necessita de reformas, mas que, no essencial, ela é para manter. O líder chinês admite que «houve um tempo em que o meu país também tinha dúvidas sobre a globalização económica […], mas chegámos à conclusão que a integração na economia global é uma tendência histórica. […] Quer queiramos, quer não, a economia global é um grande oceano de que não se pode escapar. Qualquer tentativa de cortar os fluxos de capital, tecnologias, produtos, indústrias e pessoas entre economias […] é simplesmente impossível».

Xi Jinping quer um novo modelo de governança da economia global, que seja «justo e equitativo» (o mesmo é dizer, com mais poder para a China), mas recusa totalmente as tendências proteccionistas e unilateralistas que vêm de Washington e de outras partes do mundo. «Temos de promover a liberalização do comércio e do investimento […], e dizer não ao proteccionismo», disse ele em Davos. «Ir atrás do proteccionismo é como trancarmo-nos num quarto escuro. O vento e a chuva podem ficar lá fora, mas também bloqueamos a entrada de ar e de luz. Ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial», concluiu o Presidente chinês.

A alusão não podia ser mais clara. As propostas políticas do novo Presidente dos Estados Unidos vão precisamente no sentido oposto. Donald Trump quer implementar uma política económica que ponha “a América em Primeiro” (era este o lema da sua campanha eleitoral). Isto traduz-se em beneficiar as empresas que têm a sua produção nos Estados Unidos e penalizar aquelas que trazem produtos do estrangeiro. Este proteccionismo, no curto prazo, pode beneficiar quem o pratica, mas no médio e longo prazo tende a causar problemas maiores, já que os outros países respondem à letra, com as suas próprias políticas proteccionistas. Geram-se assim guerras comerciais que, por vezes, acabam em guerras a sério.

Ora, a verdade é que a China foi o país que mais lucrou com a liberalização do comércio internacional e a globalização que se seguiram ao fim da União Soviética, em 1991. De então para cá, a sua economia tem tido um crescimento médio anual de quase dez por cento, o que lhe permite agora ser a segunda maior do mundo, só atrás da dos Estados Unidos, e com a perspectiva de ultrapassar esta em poucos anos. Não admira, por isso, que o seu líder – mesmo que comunista – cante agora loas às maravilhas do capitalismo.

No entanto, até há bem pouco tempo, o discurso vindo de Pequim não era assim tão pró-sistema quanto isso. Afinal de contas, o dito sistema foi criado em grande medida pelos Estados Unidos e segue regras americanas que beneficiam essencialmente os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais.

Orgulhosa da sua ascendência económica, a China quer traduzi-la em mais poder político, nomeadamente junto das organizações internacionais, e em mais influência global, nem que para isso tenha de reforçar o seu poderio militar de forma acelerada – que o tem feito – ou reclamar constantemente novas áreas de soberania no Mar do Sul da China – que o tem feito também.

Durante alguns anos, os governantes de Pequim exigiram repetidamente “um novo modelo de relações entre as grandes potências” – que é como quem diz, um novo modelo de relações entre a China e os Estados Unidos. O significado da expressão nunca foi devidamente explicado pelos seus criadores, mas não é difícil adivinhar: a China reclamava um estatuto de paridade com os Estados Unidos (ou o mais perto possível disso) na cena global e estava disposta a antagonizar os norte-americanos tanto quanto fosse necessário para que isso acontecesse.

Nos últimos meses, também o “novo modelo de relações entre grandes potências” parece ter sido esquecido pelos mandarins comunistas. A China parece menos o “rufia novato” que passa a vida a exigir de todos o reconhecimento da sua força e parece mais aquilo que quer ser: uma grande potência mundial que conta em tudo o que conta.

A postura mais construtiva da China já tinha sido notória no final de 2015, quando foi assinado o acordo de Paris sobre o combate às alterações climáticas. Sem a flexibilidade chinesa nessas negociações, que muitos julgavam inexistente, não teria sido possível acordar as cláusulas relativamente ambiciosas que fazem parte do texto final.

Contudo, foi preciso que Donald Trump ascendesse à Presidência dos Estados Unidos para que a mudança se tornasse mais nítida. As razões para isso são relativamente simples: com um Presidente proteccionista e unilateralista em Washington, que ameaça pôr em causa todo o quadro económico e de relações internacionais que o seu próprio país construiu nos últimos setenta anos, a China tem muito a perder; logo, é do seu interesse assumir o papel de contrapeso e tornar-se num estabilizador do sistema. Onde antes os chineses podiam “abanar o barco” porque este tinha um timoneiro seguro (os Estados Unidos), agora os papéis invertem-se e a China tenta deitar a mão ao leme do sistema internacional.

Para o conseguir, a China tem de assumir uma posição mais conciliadora e equilibrada face aos diferentes actores e interesses internacionais, porque de outra forma não conseguirá obter a sua cooperação. Como disse o seu Presidente em Davos, há que prosseguir um modelo de cooperação em que todas as partes envolvidas saiam a ganhar.

Se os chineses conseguirem isso – e até agora não tem sido essa a sua prática, bem pelo contrário – eles podem muito bem alcançar o tal “novo modelo de relações entre grandes potências” que tanto desejavam.

Mas que não restem dúvidas: se o conseguirem, é porque os Estados Unidos já não querem ou conseguem manter a liderança política que tiveram nos últimos 70 anos. A “América em Primeiro” pode rapidamente transformar-se na “América em Segundo”.

ROLANDO SANTOS 

Família Cristã

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