Memórias e Fortalezas no Leste de África – Parte 6

Muralhas de granito e zambucos desfraldados

Muralhas de granito e zambucos desfraldados

Difícil deixar a Ilha de Moçambique. Fixo pela derradeira vez o olhar no tentador areal branco da ilha de Goa. No mar, algumas pirogas manobradas por homens com um só remo parecem cavalgar em cima das minúsculas ondas que gradualmente se afastam para dar lugar à maré vaza que acontecerá ao fim da tarde. Um desses pescadores, boné com uma imagem do Super-Homem bem enterrado na cabeça, vem até à praia, puxa a embarcação até à areia seca e ali fica a verificar o resultado da pescaria. Com a ajuda de uma faca afiada retira a carne de ostra das conchas duras, altamente calcificadas. A sua piroga é ainda mais primitiva do que as restantes: não passa de um troco escavado, à boa maneira africana.

 O bastião leste da fortaleza de São Sebastião está mesmo ali, assente na barreira natural do coral. Quando a maré vazar por completo poderei certamente circundá-la e assim poder melhor apreciá-la. Uma vedação de chapa de zinco ondulada alerta para as obras de restauro na estrutura, estando para o efeito todo o conjunto arquitectónico fechado ao público. Contudo, o militar que avisto no alto da ameia – e que me confirma o encerramento – dá-me a entender que a troco de algum dinheiro me autorizará uma breve visita. Hesito, pois não me apetece nada pactuar com esse tipo de estratagema. A verdade é que, por enquanto, sinto-me satisfeito com o que vejo a partir do exterior.

A muralha, com bastantes canhões assentes nas ameias, prontos para um combate que jamais acontecerá, aparenta estar em óptimas condições. O certo é que a conclusão da primeira fase das obras de reparação e consolidação estrutural prevista para o fim desse mesmo ano – um custo total de 950 mil dólares num prazo de execução de sete meses – está com um atraso de seis meses e não há indícios que venha a ser concluída nos tempos mais próximos.

O militar percorre o parapeito interior das ameias, seguindo-me sempre com o olhar, esperando certamente que aceite a sua proposta. Chega ao ponto de me fazer continência, ao ver-me tirar fotos da fortaleza de diferentes ângulos. Obviamente presto particular atenção à entrada principal, caracterizada por um bonito brasão com as armas de Portugal e uma vistosa janela, ambos em mármore, elementos que se destacam da muralha de granito maciço.

Existe aí perto uma pequena enseada com uma árvore submergida nas águas calmas e tépidas e os restos de um barco de madeira enfiados na areia. Esta é a única praia da ilha digna desse nome. Na praceta em frente, junto a um obelisco que honra os mortos da Segunda Grande Guerra, vandalizado na sua parte inferior, deparo com mais vendedores de missangas e de moedas antigas.

Ao largo do canal de Moçambique passam graciosas embarcações – os zambucos – de panos desfraldados, repletos de pessoas vindas das ilhas vizinhas.

 

O SORRISO DAS CRIANÇAS

Regresso à praça onde um grupo de estudantes excursionistas de Nampula tira fotos de grupo junto à estátua do navegador português Vasco da Gama, demonstrando assim que assumem sem complexos a história do seu país.

Faz muito calor. Depois de beber um refresco e meter algo no estômago, retomo a minha deambulação pelas ruelas comprimidas ladeadas de casas com janelas de arcos em ogiva e paredes de saibro carcomidas pelo tempo e pelo vento, sempre amarelas de cor, onde crianças brincam à bola e ao arco e as mulheres se sentam à soleira da porta à espera, dir-se-ia, de inesperados transeuntes, como eu.

A parte leste da ilha é mais agreste e a praia quase inexistente. Para Norte, uma dessas peculiares calçadas à portuguesa liga a Casa Branca à fortaleza, havendo no intervalo um hotel gerido por indianos, um jardim e um centro de férias. Para Sul, rumo ao bairro de macuti, o panorama é bem mais animado. É para aí que me dirijo, desta vez acompanhado pela japonesa Suka, que vê em mim um excelente e improvisado guia, pois falo a língua do País.

A discoteca local conta com uma pista de dança que dá directamente para a água – ideal para quem já bebeu uns copos e precisa de refrescar as ideias… Música avulsa anuncia bailarico para essa mesma noite, embora pareça pouco provável abundante afluência de clientela.

Os bancos de jardim da marginal estão desfeitos e há muitas crianças descalças aproximando-se de nós com um sorriso de orelha a orelha. Nada pedem. Apenas pretendem brincar connosco, se bem que uma palavra seja suficiente para as deixar satisfeitas. Como boa japonesa, Suka não perde a oportunidade de as fotografar, uma a uma.

Na ponta de um pequeno promontório, no extremo sul do território macuti, avista-se uma capela com algumas palmeiras e um terreiro onde um grupo de rapazes disputa um desafio de futebol. O cruzeiro branco que assinala (em língua inglesa) os 500 anos da chegada do Cristianismo –1498-1998 Jesus Christ yesterday, today and forever – serve de poste a uma baliza improvisada. Na baía em frente balanceiam diversos barcos com os conveses totalmente ocupados com redes e âncoras. Nos calados de madeira, bem visíveis, os nomes com que foram baptizados: Sardinha e Café Del Mar, entre outros.

Uma bandeira da Renamo flutuando no telhado de uma das habitações recorda a divisão política que ainda afecta a sociedade moçambicana. Já antes, no extremo oposto da Ilha, tinha avistado um estandarte da Frelimo. Tudo indica que a parte leste é adepta das forças da oposição, enquanto a parte oeste apoia o partido no poder.

 

ALBINOS, BRUXEDOS E POÇÕES MÁGICAS

No areal conspurcado, grupos de miúdas jogam à macaca e nas soleiras das casas mulheres embalam bebés de colo enquanto os maridos se entretêm com os dados e os jogos de tabuleiro tipicamente africanos. Há, aqui e ali, algum comércio de proximidade. Em barracas improvisadas vende-se, para além de alimentos e objectos necessários ao dia-a-dia, bidões de vidro e plástico repletos de gasolina e gasóleo.

A presença de duas crianças albinas recorda-me a problemática vivida na Tanzânia e no Quénia, onde infantes com tais características são assassinados, pois algumas partes dos seus corpos – preferencialmente os pés e os órgãos genitais – são bastante requisitadas como ingredientes para as secretíssimas poções mágicas preparadas por feiticeiros sem escrúpulos. Acredita-se ali que têm um poder curativo. Na outra banda de África, na Nigéria, a barbárie é de outro teor. Certas crianças, albinas ou não, acusadas de estarem possuídas por demónios são mortas sem qualquer piedade. Lembro-me de ter visto num documentário televisivo um auto denominado “bispo” afirmar perante as câmaras, com o ar mais cândido deste mundo, que tinha matado pelas próprias mãos mais de uma centena dessas crianças.

O crepúsculo impede-me a planeada visita ao cemitério local e a uma outra fortificação existente na ponta sul da Ilha, à qual só se consegue aceder quando a maré está vaza, mas permite-me uma passagem pelo mercado e pelas ruas da cidade macuti, agora mais animadas do que nunca. Mas não por muito tempo. Daqui a pouco mais de uma hora as ruas voltarão a estar desertas.

No dia seguinte, bem cedo, dirijo-me ao velho e inutilizado embarcadouro. Enormes vigas de ferro e placas de cimento quebrado dão-lhe um ar de ruína da era industrial. Ali fico, a observar o casario sobranceiro ao mar que me faz lembrar armazéns com pilares de cimento e tectos de telhas ainda em excelente estado de conservação. Quando a maré está cheia a água atinge as entradas dessas casas, muitas delas habitadas, sinal que também na Ilha de Moçambique se começam a sentir os efeitos do aumento do nível do mar devido ao aquecimento global.

É a maré que condiciona a labuta dos pescadores locais. Ousados e imprevisíveis, fazem-se ao mar em simples pirogas ou em barcos de vela triangular, pois por aqui os motores são uma raridade. E assim se cumpre a vida, ao ritmo do vento e das marés.

Joaquim Magalhães de Castro

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