Filosofia, uma dentada de cada vez (72)

Temos realmente que viver com os outros?

Temos realmente que viver com os outros?

Já vimos que a linguagem permite-nos não só exprimir os nossos sentimentos (tal como os animais o fazem), como também permite comunicar os nossos pensamentos aos outros. Esta capacidade para comunicar torna possível, a nós humanos, associarmo-nos, partilharmos ideias, trabalharmos em conjunto para objectivos comuns. Os seres humanos são sociáveis por natureza. É por isso que Aristóteles dizia que aquele que não vive em sociedade, ou é uma fera (selvagem) ou é um deus.

Formar uma sociedade requer a capacidade de saber e a capacidade de querer. Apenas as criaturas racionais são capazes deste tipo de acção. Apenas criaturas racionais podem partilhar o conhecimento e a visão de um objectivo comum, e trabalhar voluntariamente em conjunto para a sua realização.

E os animais? Os animais irracionais também se juntam instintivamente. No entanto, o instinto de se juntarem é simplesmente para a conservação das espécies, isto é, serve apenas para a protecção mútua, alimentação e reprodução. Nos animais o indivíduo é apenas o meio que serve os fins das espécies. Os animais não apresentam ideias para projectos que possam melhorar a vida individual de cada um. Já os seres humanos não são meras coisas para serem “usadas”, pois cada pessoa tem a sua dignidade e merece respeito (ver FILOSOFIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ, Nº 54).

O Homem é corpo e alma. Não é apenas o seu corpo que precisa de apoio da sociedade, a sua alma também precisa desse apoio. Enquanto os animais irracionais precisam do grupo para sobreviverem, os seres humanos necessitam da sociedade para a educação e crescimento. A interacção de uma pessoa com outras pessoas ajuda-a desenvolver os traços socioculturais que formam a sua personalidade. Além disso, o Homem precisa da sociedade não apenas para receber dos outros e para ser servido, mas também para dar e servir. A realização humana implica a capacidade de ir para além de si próprio, ultrapassar-se a si mesmo, a amar. E isto só é possível em sociedade.

Há também aqueles que pensam que a vida social do Homem não aparece naturalmente, mas que é estabelecida através de um “contrato social”. Thomas Hobbes (1588-1679) acreditava que o homem primitivo era como qualquer outro animal. O “Homo homini lupus” (o homem é o lobo do homem). Mas o instinto de sobrevivência levou-o a pactuar com outros homens e a entregar a sua liberdade a um governante que mantém a ordem através do terror.

Outro pensador que advogava a necessidade do contrato social foi Jean Jacques Rousseau (1712-1778). Ao contrário de Hobbes, dizia que os homens primitivos eram naturalmente bons. Eram “selvagens nobres”. No entanto, a sociedade corrompe o Homem. O contrato social consiste em entregar (adaptar) a liberdade de cada um ao desejo colectivo da comunidade (a vontade geral).

Em ambos os casos, é o Estado (e não a natureza do Homem) que concede os direitos dos homens e estipula os seus deveres. Como o contrato social requer que cada indivíduo ceda os seus direitos ao Estado, o Estado torna-se totalitário. Apenas o Estado pode definir os direitos e deveres de todos; apenas seguindo (as directivas do) o Estado é que cada um pode cumprir correctamente as suas obrigações. Daí o ditado: “O poder está certo”. No Governo de um Estado totalitário não há leis injustas e a lei natural é simplesmente ignorada. O Estado pode alterar os direitos e deveres dos cidadãos a qualquer altura que o desejar, e assim o que era um crime ontem (por exemplo: acabar com a vida de um doente ou acabar com a vida de um feto defeituoso) poder-se-á tornar hoje um dever.

Por conseguinte, podemos ver que a compreensão correcta da pessoa humana e da sua natureza é importante para se construir uma sociedade justa e caridosa (protectora).

Pe. José Mario Mandía

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