Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LXXXIII

A Nova Era

A Nova Era

Muito se fala na New Age, ou Nova Era. Mas afinal o que é? É um movimento, ou uma corrente, espiritual – ou espiritualista – diríamos, que se define como uma confluência, nem sempre bem misturada, de ensinamentos de carácter metafísico, de dimensões e vivências espiritualistas, animistas e para-científicas, derivando do Cristianismo, que consideram ultrapassado. Apresenta-se como uma proposta de um novo paradigma de consciência moral, psicológica e social. É uma corrente complexa, de cunho naturalista. Pretende, com efeito, uma maior integração na Natureza, no Cosmos, de forma simbiótica, na procura de uma relação com o mundo envolvente em todas a suas dimensões. É uma corrente heterogénea, um misto de crenças religiosas ou mitológicas, com práticas para-científicas. Apresenta-se contra a ortodoxia e assume-se como liberal e plural, não aceitando os conservadorismos das religiões instituídas antigas, de que se distancia e até critica.

A expressão New Age refere-se à era astrológica de Aquário e nasceu da crença de que quando o Sol “passa” de um signo zodiacal a outro, o ser ou entidade atribuídos à constelação que lhe dá o nome, servindo de fundo – touro, escorpião, carneiro, etc. – influi nos seres humanos. O seu nome deriva de um musical chamado Hair, muito popular nos anos 60 do século XX.

Acreditam na projecção da consciência como forma de intuir a existência de muitas dimensões para além da natureza e dimensão físicas do ser humano. A Era do Aquário, ou Nova Era, New Age, que sucede à Era do Peixe, é o teatro de toda esta nova mundividência. Ao Aquário atribui-se uma época de paz, bem-estar, harmonia no mundo, depois de dois mil anos de conflitos, tensões, instabilidade, que marcaram o Peixe. São múltiplas por isso as dimensões e essências de uma corrente heterodoxa como esta, criando uma mescla diversificada e incoerente, prolixa dir-se-ia, de cultos diferentes, correntes filosóficas várias, doutrinas inconsistentes e ideologias, além de terapias e formas de cura ou espiritualidades tão distintas. O exotismo e o “diferente”, a novidade oriental são referentes da New Age. Esotérica, “misticista”, ocultista, a New Age é de facto influenciada pelo orientalismo, pelas religiões contemplativas e ascético-naturalistas do Oriente, o que define esta corrente como um sincretismo religioso e onde o relativismo impera, nas crenças como nas práticas, no multidimensionalismo e na inconsistente amálgama de credos.

 

Sincretismos e panteísmos

Surgiu na década de 70 do século XX, afirmando-se sobretudo em países ocidentais, posicionando-se como apresentando-se como contraponto das espiritualidades e religiões contemporâneas, ou mesmo como sucedânea das mesmas, com destaque para o Cristianismo. Os seguidores da New Age, na fundação do movimento, consideravam, por exemplo, que o Cristianismo estava numa fase de esgotamento, pois assim seria ao fim de vinte séculos da Era do Peixe.

Daí que na sua origem tenham proclamado a opção por um caminho diferente, novo e original. Pretendiam construir um mundo mais pacífico e justo do que aquele que as religiões tradicionais sempre tinham prometido mas sem nunca terem conseguido, falhando completamente, diziam os discípulos da New Age. Este movimento apostou sempre no colmatar dos falhanços das religiões tradicionais ou das novas correntes espirituais, ou mesmo das doutrinas filosóficas. Apresentaram-se como uma reacção natural, impreterível, contra o racionalismo e o cientismo, que falharam também na promessa da verdade e da felicidade humana, como as ditas religiões antigas. Privilegiavam, por isso, a espontaneidade, o sentimento, os instintos e as emoções. Há nos seus seguidores uma aceitação do individualismo e uma adesão a um certo hedonismo: a felicidade pessoal e colectiva assenta na auto-realização de cada indivíduo, proclamam os adeptos da New Age. Que recorrem, aliás, a técnicas gnósticas e psicológicas na prossecução dos objectivos a que se entregam.

O movimento, por outro lado, surgiu nos anos 60 e 70, época de procura do Oriente, de fascínio e atracção pelas culturas orientais. Viajar era mais fácil, as fronteiras dos novos países saídos da descolonização do Pós-Guerra estavam ainda escancaradas e a vida farta e sem objectivos dos ocidentais impelia-os para esta atracção pelo exótico. O início do movimento teve assim como inspiração vários princípios teosóficos e escritos sincréticos do século XIX e inícios do século XX. Estas influências foram repescadas a partir dos anos 60, como já vimos, por figuras como John Lennon, que expressa algumas das ideias da New Age na sua música “Imagine”, referência do movimento. Este vai impor-se, na época, como a ferramenta de contestação às religiões e tradições, que não tinham novidade nem ajudavam sequer o ser humano na superação dos seus grilhões e dificuldades. Quando falamos de movimento, não falamos de uma instituição ou organização, todavia, nunca existiu um movimento Nova Era de forma centralizada ou com uma organização estruturada. Além disso, muitas vezes a denominação New Age é colada a outros movimentos sincréticos ou teosóficos, místicos, de sabor orientalista ou exótico, mas muitos nada têm a ver com a “filosofia” daquele movimento. Há identificação e simpatia muitas vezes, mas não quer dizer que sejam genuinamente New Age.

A New Age acaba então por ser uma árvore frondosa que abriga muitos movimentos que nem sempre têm algo a ver com o movimento. Este apresenta-se como um modelo civilizacional da humanidade e do mundo, em substituição do paradigma judaico-cristão, ao qual imputa responsabilidades por ter eliminado ou subjugado as civilizações e religiões pré-cristãs, que a New Age considera mais próximas da natureza, mais ligadas à (mãe) terra, como as filosofias orientais são… Desta forma, apresenta-se também como “religião universal”, de tipo sincretista e panteísta, repescando elementos das várias religiões e espiritualidades. Inclusivamente das cristãs, as quais renega do ponto de vista das instituições, pois considera como contrárias à auto-realização dos indivíduos e à ideia da existência de um Deus pessoal. O individualismo assume assim uma importância muito forte. Aliás, a New Age tem como grande objectivo a realização pessoal, através do auto-conhecimento do mais íntimo do ser humano, que identifica como uma marca da presença do divino. Daí o recurso a forças paranormais mediante uma série de técnicas mais ou menos exóticas (ocultismo, meditação transcendental, ioga, alquimia, horóscopos).

A New Age parece ter maior presença nos Estados Unidos, em alguns países da América Latina, na Suíça e noutros países europeus, embora seja difícil quantificar o número de simpatizantes, pois não é uma instituição organizada e centralizada. É porém uma corrente espiritualista distante e até oposta ao Cristianismo autêntico, uma tendência panteísta e sem direito de se intitular “religião”. Há apenas ânsia de auto-realização. E sem Cristo, efectivamente!

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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