Bengala e o Reino do Dragão – 6

O testemunho de Manrique

O testemunho de Manrique

Sebastião Manrique, missionário agostinho e viajante português, visitou Daca em Setembro de 1640 e ali se demorou cerca de vinte e sete dias. Segundo ele, a cidade estendia-se ao longo do rio Buriganga por mais de quatro milhas e meia; de Maneswar até Narinda e Fulbaria. Várias comunidades cristãs viviam em redor desses subúrbios a oeste, a leste e a norte do coração da metrópole. Manrique menciona ainda a existência em Daca de “uma pequena, mas bela igreja com um convento”. Eis as suas palavras: “Esta é a principal cidade de Bengala e a sede do principal do Nababo ou vice-rei, nomeado pelo imperador, que conferiu este vice-reinado, em várias ocasiões, a um dos seus filhos. Situa-se numa bonita e ampla planície, nas margens do famoso, e aqui muito generoso, rio Ganges, ao lado do qual a cidade se estende por mais de uma légua e meia”.

O missionário já antes, em 1629, ali tinha estado, descrevendo então ao pormenor um templo administrado pelos agostinhos, aparentemente destruído no final do século XVIII, e que se situaria no actual local do cemitério católico de Narinda, na zona central de Daca. A todo o prezado português de passagem por esta cidade é quase obrigatória uma visita à igreja da Nossa Senhora do Rosário, no bairro de Tejgaon (Tesgão, em Português), edifício que mereceu obras de restauro financiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian. Nas suas proximidades aumenta significativamente a presença de riquexós (também eles em engarrafamento constante) e muita gente a pé, facto explicável pela existência de várias escolas nas proximidades.

Os cemitérios são, por norma – ofício de investigador assim o obriga – os locais onde primeiramente me dirijo nas cidades que desconheço, em busca de apelidos portugueses nas placas funerárias. Mas não, não há qualquer nome luso no cemitério de Tejgaon, tão-só retratos dos falecidos. Encontro aí, porém, e viva-da-silva, Jennifer Dias, enfermeira de profissão, filha do Paul Dias e de Iris Dias, e com «dois irmãos e quatro irmãs». A minha presença chama a atenção de outros paroquianos, entre eles o conversador Mark Gomes. Diz-me ele que o cemitério de Narinda, mencionado por Sebastião Manrique, já não existe. «Foi inteiramente coberto pela sedimentação do rio Buriganga. Não há qualquer sinal», garante. Antes havia aí «uma igreja chamada Harmony» e junto a ela o mencionado cemitério. Acompanham Mark Gomes os senhores Rosário, Cruz e Cunha, todos eles católicos. O terreno anexo à igreja de Nossa Senhora do Rosário congrega não só católicos romanos, mas também baptistas, testemunhas de Jeová e de outras confissões. «Neste bairro vivem mais de oitocentas famílias, maioritariamente católicas», diz Gomes. «Todos eles cristãos, mas de diferentes géneros».

Em Daca, os nossos jesuítas viveram um acontecimento histórico de proporções trágicas e que se deveu ao proverbial desentendimento entre portugueses, que tantas das vezes deixaram perplexos os povos com quem contactavam. Como resultado de um ajuste de contas, entre um velho soldado português – “um português bem velho que envelheceu em Daca”, como o descreve Cacela – e um cristão (não sabemos se era português também), e posterior tentativa de apaziguamento por parte de um reputado capitão, um tal Jorge de Sousa – “(…) de uma e outra parte tudo eram soldados cristãos e, como capitão de todos, acudiu Jorge de Souza desarmado a aparta-los (…)” – serviu de “justificação” para que a guarda pretoriana local, os resputos, como lhe chama Cacela, exercesse as suas represálias, aproveitando para matar os indesejáveis estrangeiros, pilhar e destruir as suas propriedades. Num instante o bairro português de Daca viu-se envolto em chamas e os próprios padres temeram pela vida, escondidos numa casa abandonada.

“No meio da maior fúria dos resputos, que não perdoavam a nenhum cristão que encontrassem, que não ferissem ou matassem, pondo fogo a todas as casas de soldados que estavam naquela bairro, morando nós e estando actualmente numas daquelas paragens, onde dantes morava um soldado (…) ali nos defendeu o Senhor sem nos chegar o fogo, nem saberem de nós os soldados gentios, estando nós ouvindo sua grita e as lástimas e prantos da gente nos incêndios e roubos que padeciam”.

Jorge de Sousa sobreviria miraculosamente ao incidente, e com ela a cópia da autorização para os padres que tinha em sua posse, facto providencial para o futuro sucesso da missão já que a cópia original se viria a perder no gigantesco incêndio. Nesse documento oficial constava a autorização para construir e armar uma embarcação. Os padres viram mão divina na sua sábia decisão de abandonar a casa onde residiam, pois essa foi a primeira a ser pasto de chamas e dela se salvou um português que teve a arte e engenho de disfarçar-se, “vestindo-se de cabaia e touca e pagando mui bem a um mouro vizinho que o livrou”.

Numa subtil crítica aos desentendimentos, invejas e rivalidades entre portugueses, tece Cacela o seguinte comentário: “as causas e princípios deste sucesso são assaz sabidos, o que toca à culpa dos males que aqui se executaram, deixo por escusar até os que tão publicamente são culpados”.

Joaquim Magalhães de Castro

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