Associação Patriótica terá perdido peso institucional

Igreja, una, santa, católica

Igreja, una, santa, católica

Reconhecido pela Santa Sé e pelo Colégio dos Bispos da China, o bispo de Fenyang nega a existência de duas Igrejas no País – uma oficial e outra clandestina. Em entrevista ao site Vatican Insider, D. Johannes Huo Cheng minimiza o peso da Associação Patriótica dos Católicos Chineses, dando como exemplo o trabalho pastoral desenvolvido pela sua diocese. O prelado da Província de Shanxi revela satisfação pela aproximação do Vaticano à República Popular da China, criticando aqueles que insistem em desrespeitar as instruções vindas de Roma.

O bispo de Fenyang, D. Johannes Huo Cheng, defende que a Igreja Católica na República Popular da China é una, rejeitando a tese de que existem duas Igrejas no País.

Para o prelado na Província de Shanxi, o problema está entre os sacerdotes que reconhecem e servem o Papa e aqueles que apenas seguem os ditames da Associação Patriótica dos Católicos Chineses. No seu entender, mais do que isto é especulação.

Em entrevista ao Vatican Insider, site do diário La Stampa, o bispo de Fenyang é taxativo quanto à questão da cisão da Igreja Católica na RPC, chegando mesmo a surpreender: «Só há uma Igreja na China. Mesmo a ideia de que a Igreja está subordinada ao Governo chinês não é totalmente verdadeira. O que acontece é que alguns estão subordinados ou deixam-se subordinar com o intuito de obterem benefícios e apoio material. Também é verdade que se querem construir uma qualquer infra-estrutura têm de contactar o Governo, mas há muitos poucos que são de facto dominados internamente pelo poder político. A grande maioria é fiel à Igreja Apostólica».

Neste âmbito veio à conversa, como não podia deixar de ser, a Carta do Papa Bento XVI aos católicos da República Popular da China. Questionado se realmente há quem conteste ou ignore a mensagem do Papa Emérito, respondeu: «Não tenho qualquer contacto. Mas do modo como agem parece óbvio que não aceitam a Carta. Continuam a actuar como antes, como se nada tivesse acontecido». Para ele, «a Carta é uma dádiva vinda de cima. Ela indica o caminho. Sumariza a jornada percorrida pela Igreja na China e revela a forma correcta de ultrapassarmos os problemas. Não podemos criticá-la ou colocá-la de lado. Pelo contrário, devemos lê-la e cumprir todo o seu conteúdo, não nos focando apenas em algumas frases. Quem o faz segue em frente e encara o futuro. Quem não o faz rejeita uma preciosa ajuda e permanece estagnado».

D. Johannes Cheng é menos explícito quando confrontado com a intenção já revelada pelo Papa Francisco em reatar o diálogo entre o Vaticano e o Governo chinês, podendo até vir a encontrar-se com o Presidente Xi Jinping: «A vontade foi também expressa com o objectivo de ser concedida à Igreja na China mais meios para melhor cumprir o serviço pastoral. O Papa tem dado alguns passos em direcção à China. Estamos contentes e ansiamos ver os frutos dessa aproximação».

No que respeita à ordenação de padres e nomeação de bispos sem a aprovação da Santa Sé, desaprova a escolha de bispos que tenham sido ordenados sem o consenso do Sucessor de Pedro. «Reze por eles. Espero que voltem a estar em inteira comunhão com a Igreja. Deus perdoa-nos e dá-nos a Graça de perdoar os outros», disse, acrescentando esperar que «seja encontrado um conjunto de soluções a breve prazo para a questão das nomeações episcopais, bem como para o reatar em pleno das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a República Popular da China». E para que dúvidas não haja, clarificou: «Respeitamos a Lei do Estado, mesmo que no passado tenhamos sido perseguidos pelos detentores do Poder».

Embora o panorama seja hoje mais favorável aos intentos da Igreja Católica, ainda há alguns padres que actuam à margem das dioceses, convencendo alguns católicos a permaneceram afastados das suas paróquias. No entender do bispo de Fenyang, também este procedimento está longe de satisfazer a vontade da Santa Sé, uma vez que o Papa Bento XVI na Carta aos católicos da RPC pede aos sacerdotes que exerçam a sua actividade em comunhão com as dioceses.

Para que não restem quaisquer dúvidas sobre a fidelidade de D. Johannes Cheng ao Santo Padre, o prelado afirmou que «é fácil seguir e obedecer ao magistério do Papa. Desde a sua eleição que sou conduzido pelas suas homilias e ensinamentos. É o meu pão diário. Todos os dias leio as suas palavras, que envio para os meus padres. Considero particularmente importante que [o Papa] pergunte como podemos sair de nós mesmos. Devemos segui-lo. Actualmente a “cultura do encontro” é também vital para a China. Ele é disso um exemplo, atraindo o interesse das pessoas e o carinho do mundo inteiro. É persuasivo, exortando-nos a amar os mais pobres e a fomentar a Paz».

 

Diocese dinâmica

Apesar de viver alguns constrangimentos pelo facto de D. Johannes Cheng reconhecer a autoridade do Papa, a diocese de Fenyang dá mostras de vitalidade, sendo disso exemplo os números avançados pelo bispo ao Vatican Insider. Só na última quadra pascal foram baptizados mais de 350 adultos, a rondar os 40 anos de idade.

A dinâmica verificada tem a ver com «o trabalho desenvolvido pelos padres e leigos junto dos bairros, das cidades e das vilas, na propagação do Evangelho». A cidade de Lan Xian é prova deste esforço, dado que este ano, pela primeira vez, “contribuiu” para o baptismo de dezanove novos cristãos e para mais de dez catecúmenos. «As próprias pessoas já desvendaram a mentira de que a religião é o ópio do povo», referiu o prelado.

Para além da evangelização, a diocese de Fenyang está empenhada na irradiação da pobreza, indo também assim ao encontro dos ensinamentos de Jesus Cristo.

José Miguel Encarnação

jme888@gmail.com

 

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