As trajectórias dos jovens Jihadistas franceses

AS TRAJECTÓRIAS DOS JOVENS JIHADISTAS FRANCESES

São necessárias regras

O jihadismo é um fenómeno que remonta ao último quartel do século XX. Um pouco em toda a parte, indivíduos radicalizam-se e procuram perpetrar atentados a fim de lutar contra a heresia e o sacrilégio (kufr), de denunciar actos de profanação do Islão. Muitos deles cresceram na Europa. Outros têm origens muçulmanas, mas são cada vez mais numerosos os convertidos. Desde o início da guerra civil na Síria (2013) está a difundir-se uma nova forma de jihadismo e os seus novos protagonistas têm características diversas em relação ao passado.

Na França, e em geral na Europa, o terrorismo em nome de Alá é um facto ultra-minoritário entre os muçulmanos. O seu alcance não tem relação alguma com o número efectivo das pessoas assassinadas, transtornando contudo a sociedade e gerando uma profunda crise a nível das bases simbólicas da ordem social.

Os atentados apresentam a questão do jihadismo e da sua ideologia extremista, mas também, e sobretudo, do actor jihadista, que entra em acção, e comete os seus crimes a sangue-frio. De onde nasce a sua decisão? Como compreender o seu frenesi numa carnificina que muitas vezes se conclui com a sua própria morte, que premeditou longamente como acto de cumprimento do seu destino no martírio?

Quem são estes actores? É possível distinguir diversas categorias de islamistas radicais na Europa, que têm como característica comum ser “terroristas de casa”, ou seja, jovens escolarizados e educados nos países europeus. Há antes de tudo os jovens desadaptados (dos subúrbios). A eles acrescentam-se, sobretudo desde 2013, jovens da classe média. A terceira categoria é constituída por moças.

A subjectividade dos jovens desadaptados que abraçam o Islão radical tem uma característica fundamental: o ódio a uma sociedade que considera fundamentalmente injusta em relação a eles. Vivem a exclusão como um facto iniludível, um estigma que têm no seu rosto, na sua pronúncia, na sua língua, assim como na sua postura física, considerada ameaçadora pelos outros cidadãos. Estão em ruptura com a sociedade e rejeitam qualquer uniforme (até de bombeiro) como emanação de uma ordem repressiva. A sua identidade declina-se no antagonismo em relação à sociedade dos incluídos, franceses, gaulois ou até pessoas de origem norte-africana que conseguiram ascender ao nível da classe média. Estigmatizados aos olhos dos outros, têm um sentido profundo da própria indignidade. Isto transforma-se numa agressividade visível, não só em relação aos outros, mas também, e com muita frequência, em relação aos membros da própria família, sobretudo ao irmão mais pequeno ou à irmã mais jovem que ousa sair com um rapaz.

O gueto do subúrbio torna-se uma prisão interior. Aqueles jovens transformam o desprezo em relação a si mesmos em ódio pelos outros, e o olhar negativo dos outros num olhar de desprezo. Têm por finalidade sobretudo caracterizar a sua revolta com acções negativas em vez de procurar denunciar o racismo comprometendo-se socialmente. Fechados nos seus bairros ou até só no âmbito de alguns quarteirões, os jovens excluídos encontram a saída na delinquência e na busca de dinheiro fácil para viver segundo o suspirado modelo da classe média. Por vezes superam-na, apropriando-se de quantias mais ou menos consistentes que delapidam com os seus companheiros, à custa de reiterar o acto de delinquência que se torna progressivamente criminoso. Os males dos quais mais sofrem são a vitimização e a certeza de que a única via de acesso ao nível da classe média é a delinquência, dado que a sociedade, na opinião deles, fechou todas as outras saídas.

Assim como encontra uma via de fuga na delinquência, o ódio também abranda com a subida, por breves períodos, ao bem-estar material seguido pela dissipação dos bens adquiridos ilegalmente. Mas para uma pequeníssima minoria só o desvio não é suficiente; precisam de uma forma de auto-afirmação que combine diversas características: a redescoberta da dignidade perdida e a vontade de afirmar a sua superioridade sobre os outros, pondo fim ao desprezo de si. A transformação do ódio em jihadismo sacraliza a raiva e faz com que eles superem o seu mal-estar através da adesão a uma visão que faz deles “cavaleiros da fé” e dos outros “ímpios” indignos de existir. Realiza-se deste modo a mudança existencial, o eu torna-se puro e o tu impuro. O Islamismo radical concretiza uma inversão mágica, que transforma o desprezo de si em desprezo pelo outro e a indignidade em sacralização de si, em desvantagem do próximo.

No percurso jihadista dos jovens dos subúrbios, a prisão desempenha um papel essencial, não tanto porque ali se radicalizam, quanto pelo facto fundamental de que ele oferece a possibilidade de maturar o ódio pelo outro nas relações diárias, tecidas de tensão e de rejeição face à instituição carcerária. Todas as vezes que se transgridem as regras internas da prisão, as sanções recordam a existência de um sistema do qual se contesta a legitimidade por causa deste grande sentimento de injustiça que se esconde no fundo do coração. A prisão faz com que alguns jovens se tornem sensatos, mas a maior parte encontra nela mais um motivo para odiar a sociedade.

Um último aspecto convence o aprendiz jihadista da legitimidade da causa que defende, ou seja, a viagem que iniciou num país do Médio Oriente no qual prevalece a “guerra santa”. Merah esteve no Paquistão, no Afeganistão e noutras regiões onde se alastra o Islamismo radical. Na maior parte dos casos, a viagem de iniciação confirma o jovem jihadista na sua nova identidade, fazendo-o restabelecer relações míticas com as sociedades muçulmanas, das quais contudo não conhece a língua nem partilha os costumes. Esta viagem faz com que aprenda a manejar as armas. Ao mesmo tempo permite que se afaste da própria sociedade. Aprende sobretudo a ser cruel, a justiçar de maneira profissional e sem emoções os reféns e os indivíduos por ele incriminados (polícias e militares, judeus, “maus muçulmanos”), em síntese: a tornar-se um verdadeiro combatente destemido da jihad hiperbólica, que não recua diante de obstáculo moral algum ao levar à morte os “culpados”.

A neo-umma é uma utopia perigosa como a sociedade sem classes ou o paraíso na terra e, como todas estas utopias, o perigo que representa é trazer violência à realidade. Na neo-umma é negada a evolução das sociedades muçulmanas e o regresso puro e simples aos Salafs (companheiros do Profeta) é exaltado de uma forma que reconduz a práticas abandonadas desde há muito tempo.

O jovem jihadista sente uma necessidade irrefreável de fazer parte da neo-umma contra a própria sociedade desprezada. Para se reerguer aos próprios olhos, o Islão jihadista oferece-lhe uma condição de herói absoluto revestido do prestígio do martírio que encarna como mujahid (combatente da fé, mesma raiz da jihad). Mata, incute terror, faz-se odiar e sente orgulho pela nova posição conquistada, ocupando a primeira página dos meios de comunicação. Supera o anonimato e a insignificância com o fascínio maléfico que exerce sobre a mídia, pronta a difundir a imagem do herói negativo, que aprecia muito mais porque inspira um medo absoluto nos outros. Está pronto para matar, e até para morrer, enquanto os outros temem pela própria vida. Portanto, é superior a eles.

Antes do início da guerra civil na Síria (2013) os jovens jihadistas provinham só excepcionalmente da classe média. Desde então eles formam, ao lado dos jovens das cidades, uma parte importante dos jihadistas em embrião que se encaminharam para a Síria a fim de se porem ao serviço do Estado Islâmico (Daech) ou de outros grupos jihadistas como a Frente da vitória (Jihat al Nursa), afiliado a Al-Qaëda. Com base nas estatísticas disponíveis, considera-se que entre 2000 e 4000 jovens europeus tenham partido para a Síria e numerosas tentativas de partir para aquele país (sobretudo através da Turquia) foram evitadas depois da promulgação de leis específicas para as impedir.

Estes jovens, muitas vezes adolescentes imaturos, aumentam a arma de reserva da jihad, convertendo-se ao Islão radical um pouco de todas as religiões: cristãos desiludidos que procuram sensações fortes que o Catolicismo institucional não é capaz de lhes fazer ter, judeus secularizados no seu Judaísmo privado de ancoragem religiosa, budistas provenientes de famílias francesas há pouco convertidas ao Budismo e que procuram uma identidade revigorada ao serviço da guerra santa em contraste com a versão pacifista desta religião na Europa. Ao contrário da juventude jihadista do banlieue, estes jovens da classe média não sentem ódio em relação à sociedade, nem interiorizaram o ostracismo com que a sociedade esmagou os primeiros. Nem sequer vivem o drama de uma vitimização que torna a vida difícil.

O seu problema é o da autoridade e das normas. A autoridade foi diluída pela família alargada e o direito da criança criou um pré-adulto, que ao mesmo tempo pode ser um adolescente que não cresce. A combinação entre a lógica dos direitos, a dispersão da autoridade entre as diversas instâncias genitoriais e uma sociedade na qual as normas perderam o seu vigor (incluídas as republicanas) faz com que haja um desejo de regras. Uma minoria destes jovens sofre pelo facto de ter diversos tutores vagos, mas nenhuma autoridade distinta. Ela gostaria de poder redesenhar os confins entre o que é permitido e aquilo que é proibido de modo explícito. As normas islâmicas propõem-lhes esta visão em preto e branco, segundo a qual o que é proibido se rejeita com a máxima clareza. O Islamismo radical permite que estes jovens unam o divertimento lúdico com a seriedade mortal da fé jihadista. Dá-lhes a sensação de se conformarem com normas intangíveis, mas também de serem o agente da imposição destas normas ao mundo, de inverter o papel do adolescente e do adulto. Em síntese, de ser aqueles que instauram as normas sacras e as impõem sob pena de “guerra santa”.

Esta juventude apaixonada pela jihad encarna os ideais de um anti-Maio de 1968. Os jovens de então procuravam a intensificação dos prazeres no infinito do desejo sexual reconquistado. Agora procura-se enquadrar os próprios desejos e impor-se através de um Islamismo rigorista, de restrições que enobrecem aos próprios olhos. Naquela época procurava-se libertar-se das restrições e das hierarquias impossíveis; agora elas são reclamadas com vigor, exigem-se normas sacras que escapam ao livre arbítrio humano e se fortalecem com a transcendência divina. Elas são desejadas e sacralizadas ao sabor da guerra santa.

Naquela época ou se era anárquico ou se odiava o poder patriarcal. Hoje, numa sociedade esvaziada de sentido, o Islamismo radical, arbitrando o lugar da mulher e do homem reabilita uma visão deformada do patriarcado sacralizado em relação a um Deus inflexível e intransigente. Faz o contrário de um republicanismo amolecido ou de um Cristianismo demasiado humanizado. Maio de 1968 era a festa ininterrupta que se prolongava na viagem exótica até Katmandu ou ao Afeganistão. Actualmente a viagem de iniciação é uma busca de pureza ao enfrentar a morte em nome do martírio.

Em paralelo com estes fantasmas de regras sacralizadas encontra-se também a busca de justiça para um país, a Síria, onde um regime sanguinário matou 200 mil pessoas e obrigou diversos milhões a ser errantes pelos países vizinhos. Onde o Ocidente mostra a própria impotência face às ditaduras, estes jovens, armados de uma fé ingénua, pretendem lutar contra o mal em nome de um jihadismo do qual não vêem o aspecto monstruoso e desumano. A transição pode dar-se de modo progressivo, como aconteceu com alguns membros da gang de Roubaix que, a exemplo de Christophe Case, se comprometeram em âmbito humanitário antes de se transformar em islamistas radicais.

Nas camadas médias, a sedução do jihadismo deve ser considerada quer através de um mundo irenista que o Estado Islâmico faz reluzir aos olhos dos jovens, quer através do sentimento de vazio que se apodera deles num universo do qual o sagrado está banido de forma quase inconsciente. A perda do sentido do religioso institucionalizado faz com que o imaginário vá procurar no desconhecido de novos horizontes sagrados. A desinstitucionalização do Cristianismo na França, e mais em geral na Europa, “asselvaja” o religioso e abre a busca de significado ao sectarismo sob todas as suas formas. Segundo alguns trata-se de um tipo de emancipação, mas segundo outros a ausência de referências em relação ao sagrado deriva de um sentido angustiante de abandono. A busca de um Islamismo jihadista une diversos tipos, que se atêm ao exotismo de uma fé que propõe um sentido sólido do sagrado, e cuja intransigência rompe com a diluição do sagrado na sociedade contemporânea.

Tudo acontece como se uma parte dos jovens da classe média combinasse a busca de aventura, o romanticismo revolucionário, a aspiração por fazer a experiência da alteridade (o sagrado) e a vontade de se pôr à prova, submetendo-se espontaneamente a uma forma repressiva de gestão do significado. Nas sociedades europeias, onde a hiper-secularização é sinónimo da negação de qualquer transcendência, o sagrado volta numa configuração opressiva, quer pelo desejo de se pôr à prova no contacto com o outro (a experiência da alteridade total), quer para abraçar a felicidade em ruptura com o desencanto de uma sociedade, na qual uma parte da juventude sofre do “mal do nivelamento”.

Desde o início da guerra civil na Síria assiste-se, na Europa e em particular na França, ao surgimento de um novo tipo de jihadismo feminino. Muitas destas combatentes são adolescentes ou pós-adolescentes, ao lado de outras jovens com vinte ou trinta anos. Muitas pertencem à classe média. Por fim, na maioria são convertidas: do Cristianismo, do Judaísmo (alguns casos), do Budismo, ou provêm de famílias agnósticas ou ateias.

Contrariamente aos novos jihadistas provenientes da classe média, elas não têm como motivação principal o ódio social. São diversos os motivos que as levam a partir. Antes de tudo, uma razão humanitária: os irmãos na religião (os sunitas) precisarão de ajuda diante de um poder herético. Há também a imagem idealizada do homem por parte de uma juventude feminina desencantada em relação ao feminismo das suas mães e avós. Há uma espécie de idealização da virilidade masculina daquele que se exporá à morte e que, neste confronto, se mostrará varonil, sério e sincero. Estes três adjectivos dão sentido ao marido ideal. Para começar, seria capaz de restituir a imagem da masculinidade, nivelada de modo forte precisamente devido à evolução da sociedade; em segundo lugar seria sério, porque combatendo contra o inimigo mostraria o seu compromisso definitivo, ao contrário daqueles jovens que mostram características de imaturidade e de volatilidade aos olhos das jovens que parecem ter destronado a imagem do pai. Por fim, a sinceridade seria o terceiro aspecto fundamental destes jovens: dado que aceitam até a morte pelos seus ideais, seriam sinceros com a sua companheira, que vê a sua capacidade de fiabilidade medida segundo a capacidade de mostrar a sua autenticidade no campo de batalha.

Este género de jovem, que encarna as virtudes cardeais da veracidade, seria o tipo de homem ideal com o qual casar para evitar o incómodo da instabilidade e da fragilidade crescente que caracteriza os casais modernos. Muitas vezes provenientes de famílias alargadas na França, tendo vivido a experiência da precariedade dos vínculos conjugais dos seus pais e constatando o nivelamento da condição masculina com o divórcio, eles acabam por rejeitar a imagem tanto do homem como da mulher, que prevalece na sociedade moderna. Procuram uma utopia antropológica, na qual o sentimento de confiança e a sinceridade absoluta se conjugariam com uma “boa desigualdade”.

O jihadismo concentra em si uma mistura de problemas sociais e de questões antropológicas. Mostra a dimensão cada vez mais globalizada do imaginário e da subjectividade, especialmente nas novas gerações. A busca de uma nova utopia e o sentido de profunda injustiça unem-se na busca da felicidade individual e da aventura. Nesta situação, a característica comum às três categorias de jovens (dos bairros, da classe média e as jovens) é, por mais paradoxal que possa parecer, a morte, que se torna a categoria que orienta a sua psique atormentada. Nesta perspectiva, a morte é o único ponto no qual se liga e desliga um destino fundado na rejeição por parte de outros, que por sua vez se transforma na rejeição do próximo, conjugando esta dupla dialéctica numa vontade de morrer que inverte o vector da vida, relacionando o desejo de morrer com o de matar o outro, o adversário, o mundo que circunda o jovem rebelde que agora vive unicamente para abraçar o destino do herói negativo mediante o assassínio dos outros.

FARHAD KHOSROKHAVAR 

Sociólogo iraniano

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