A viagem transatlântica do Bolo-Rei

A VIAGEM TRANSATLÂNTICA DO BOLO-REI

Do monarca para o povo.

Para os leigos na matéria, saiba-se que o bolo-rei nasceu na Pastelaria Nacional na Praça da Figueira em Lisboa depois de uma visita a Paris do seu proprietário, Balthazar Castanheira Júnior, que ali degustou o “Gâteau des Rois”. Inspirado nessa receita, cuja origem remonta às saturnais romanas – festividades dedicadas ao deus Saturno, tendo em vista o aumento da duração dos dias logo após o Solstício de Inverno – engendra uma nova receita a que chama bolo-rei que surgiria nas prateleiras das confeitarias da capital do reino por volta de 1870. Parece que o seu sucesso imediato se deveu a opinião favorável de D. Fernando II, ao que conta grande apreciador da doçaria.

Em pouco tempo o bolo-rei transformou-se num ícone nacional da culinária, e hoje é confeccionado em todo o Portugal. «Como todas as boas receitas», como recorda Virgílio Nogueira Gomes, investigador da História da Alimentação, «o bolo-rei vai sendo ligeiramente alterado conforme o executor que lhe acrescenta, ou altera um produto ou a proporção dos seus ingredientes». Informa-nos ainda Nogueira Gomes, autor de vários livros sobre a matéria, que «nos finais do século XX apareceram novidades “concorrentes” ao bolo-rei como o bolo-rainha, sem frutas cristalizadas e apenas frutas secas, ou o bolo-rei escangalhado apenas com frutos secos e doce de gila e formato final alterado». Podemos encontrar ainda bolos-reis com doces ou trouxas-de-ovos e bolos-reis até com “marrons glacés”. Ultimamente, como é do conhecimento geral, começaram também a ser confeccionados bolos-reis miniatura que correspondem a uma dose individual.

O conhecido investigador lamenta que, «devido excesso de zelo pela saúde pública», se tenha perdido a tradição de cada bolo-rei ter uma prenda e uma fava seca. Essa prenda (habitualmente uma pequena figura associada à Igreja Católica) era sinal de bom augúrio para quem a recebesse, ao contrário da fava que obrigava a uma penalização. Por exemplo, ter de comprar um novo bolo-rei e partilhá-lo com os demais. Curiosamente, a história da fava remonta também ao período romano e não tem conotação negativa. Antes pelo contrário. Esse bolo de formato redondo – forrado com figos, tâmaras e mel e distribuído em partes iguais por senhores e escravos – continha no seu interior uma fava e quem a encontrasse era “coroado” como rei.

Lembra-nos Nogueira Gomes que no Rio de Janeiro e nalgumas zonas do nordeste do Brasil há o hábito de confeccionar «um bolo em tabuleiro rectangular, com massa idêntica à de uma “genoise” (ovos, farinha e açúcar) e que se misturavam por cada tabuleiro três brindes que se escondiam na massa: uma aliança, um dedal e uma cruz. Ao serem comidas as porções do bolo, os brindes iam surgindo e significavam respectivamente que iria casar, que ficaria solteira/o, e que se iria dedicar a vida religiosa!».

Pela lógica histórica, o bolo-rei terá arribado a terras de Vera Cruz via imigrantes portugueses que ali debandaram em massa no início do século XX. E por lá ficou, embora não se tenha difundido como seria de esperar. Antes vai resistindo, em alguns redutos. É o caso de Fortaleza, no norte do Brasil, onde pontua às mesas durante as festividades de fim e início de ano. No dia de reis há uma missa de Acção de Graças seguida de entronização dos Reis da Irmandade do Rosário de Fortaleza. Este tipo de irmandades, constituídas por negros, remonta ao século XVI. Em Lisboa há notícia, precisamente nessa centúria, de uma Confraria devota do altar de Nossa Senhora do Rosário, na igreja de São Domingos, onde, curiosamente, ocorreu um dos actos mais soezes da Inquisição.

Esta celebração está ligada às “coroações” que, antes da abolição da escravatura, «eram efectuadas em acto festivo pelas comunidades negras». Pese as dificuldades dessa época, a celebração da coroação constituía verdadeira festa com funções “teatrais” e provavelmente terá dado origem «aos conhecidos “Reizados” ou encenações teatrais que podemos encontrar em alguns países africanos de língua portuguesa». No caso particular de Fortaleza a invocação remete-nos também para os maracatus. Estes seriam um acto final da coroação, um desfile de ostentação que saía da igreja e percorria algumas ruas da cidade, havendo famosas loas com estrofes de “…a nossa rainha já se coroou”.

Segundo o investigador José Hilário Ferreira Sobrinho, «as origens do maracatu encontram-se ligadas às procissões em louvor a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos». O estudioso refere ainda que «é sabido que há uma ligação muito próxima do maracatu com as festas de coroação dos reis de Congo, muito festejadas na frente da igreja do Rosário». Finalmente, remete-nos para o facto de que «na festa da Senhora do Rosário ocorria a coroação do Rei do Congo, uma tradição que já ocorria em Portugal e foi trazida para o Brasil… Entretanto, as comunidades negras mantiveram o cortejo, a procissão do Rei do Congo, e esse cortejo foi se tornando maracatu».

Em Fortaleza as festividades do Dia dos Reis, no que refere à tradição lusitana, culminam em casa da nova “Rainha” onde familiares e amigos reúnem-se «à volta de um bolo-rei português nascido das mãos habilidosas e generosas de Berta Castro Lopes que o confeccionou no seu Restaurante Marquês da Varjota», como cita o Virgílio Gomes Nogueira que visita regularmente aquela região do Brasil.

Joaquim Magalhães de Castro

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