Cuidar de quem não se cuida
A história das Irmãs da Caridade de Santa Ana começa muito longe de Macau, numa manhã fria de 28 de Dezembro de 1804, em Saragoça (Espanha).
Doze mulheres, guiadas por uma jovem catalã, Maria Rafols, e acompanhadas pelo padre Juan Bonal, entram no Hospital Real y General de Nuestra Señora de Gracia, uma instituição gigantesca, com a ambição simples e radical de “ser casa para todos os enfermos da cidade e do mundo” – “Domus infirmorum urbis et orbis”, como reza o lema. Não se tratava apenas de administrar camas, unguentos, lençóis e medicamentos: antes sim de inventar, em plena Espanha napoleónica, uma forma de vida religiosa feminina inteiramente dedicada à hospitalidade, à cabeceira do pobre, do incurável, do abandonado.
Nas guerras napoleónicas, nos cercos de Saragoça (1808-1809), Maria Rafols e padre Juan Bonal tornaram‑se figuras quase lendárias, transportando feridos, escondendo perseguidos, repartindo o pouco pão que havia. Em 1908, seriam reconhecidos oficialmente pela Igreja como “heróis da caridade”, mas a verdadeira consagração veio antes, quando a pequena irmandade inicial resistiu à miséria, à política e às epidemias, e acabou por ser reconhecida, em 1824, como congregação religiosa de direito diocesano – uma das congregações femininas de vida apostólica pioneiras em Espanha.
Em 1865, o nome clarifica o coração: deixam de ser simplesmente “Hermanas de la Caridad” para se tornarem “Hermanas de la Caridad de Santa Ana”, colocando sob o patrocínio da mãe da Virgem a forma de maternidade despojada que é cuidar dos pobres, dos doentes e dos loucos.
A partir da segunda metade do Século XIX, o impulso de hospitalidade transborda as paredes do grande hospital de Saragoça. Em 1883, as Constituições falam explicitamente de ideal missionário. Em 1890, este desejo deixa de ser apenas linha de texto e transforma‑se em viagem: um pequeno grupo de irmãs parte para o lago de Maracaibo, na Venezuela, para tomar conta do leprosário da ilha de Providência. É uma escolha significativa: a primeira fundação fora de Espanha não é uma escola num bairro tranquilo, mas um lazareto, um lugar de exclusão extrema. A Congregação assume um quarto voto de hospitalidade, que a obriga, por vocação, a ir onde ninguém quer ir, a manter abertas as portas que o medo sanitário, social ou político gostaria de ver fechadas.
Dali em diante, a expansão torna‑se “imparável”, como nota a historiografia interna: ao longo do Século XX, as Irmãs da Caridade de Santa Ana chegam à América Latina, a África, à Ásia, e à Europa Central e Oriental. Em 1951, a fundação em Nadiad, na Índia, marca o início de uma presença asiática que as levará, por caminhos diversos, até à China e ao Extremo Oriente. Quando em 2024 a Congregação celebra 220 anos de história, está presente em 31 países dos cinco continentes, com centenas de comunidades e milhares de irmãs, sempre com o mesmo fio de identidade: hospitalidade vivida até ao heroísmo, especialmente junto dos mais pobres e vulneráveis.
É neste horizonte que, já no último quartel do Século XX, surge Macau. A cidade, antiga plataforma luso‑chinesa, vive então uma transição delicada: envelhecimento rápido da população, crescimento do turismo e do jogo, migrações internas que deixam para trás idosos, deficientes e doentes mentais. Em Janeiro de 1987, chegam discretamente cinco irmãs da Congregação da Caridade de Santa Ana; em Maio desse ano iniciam a sua obra no Asilo Betânia, integrando‑se no tecido, também ele antigo, de instituições de caridade da Igreja local. A chegada é “silenciosa”, como tantas outras na história da Congregação, mas o impacto é imediato: Betânia torna‑se lugar de presença constante junto de idosos e doentes. No trigésimo aniversário da Congregação em Macau, no ano de 2017, O CLARIM sublinha precisamente este traço: são irmãs “pouco faladoras e muito presentes”, que cuidam de deficientes e idosos em Ká‑Hó (Centro de Santa Lúcia) e acompanham, dia-após-dia, vidas que a sociedade prefere não ver.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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