O abalo abençoado: uma reflexão sobre as Bem-aventuranças
Neste Domingo, somos convocados para a montanha. Somos levados para longe das planícies agitadas da sabedoria convencional, do mercado do sucesso mundano, e convidados a sentar-nos aos pés de Jesus. Aqui, com uma única e abrangente proclamação, Ele derruba os próprios fundamentos da nossa compreensão da felicidade, da bênção, de uma vida bem vivida. As Bem-aventuranças não são sugestões gentis; são um manifesto revolucionário do Reino dos Céus. Não descrevem oito grupos diferentes de pessoas, mas pintam um único e impressionante retrato do coração cristão – o coração do próprio Cristo, oferecido a nós.
Aos ouvidos do mundo, estas palavras soam como uma lista de contradições. Bem-aventurados os pobres de espírito? O mundo diz: “Bem-aventurados os auto-suficientes”. Bem-aventurados os que choram? O mundo diz: “Bem-aventurados os que nunca páram de celebrar”. Bem-aventurados os mansos? O mundo diz: “Bem-aventurados os assertivos que reivindicam os seus direitos”. Jesus apresenta-nos um paradoxo divino, uma inversão sagrada. Ele declara o favor de Deus não com base em realizações ou posses, mas com base numa abertura fundamental à Sua graça.
Vamos fazer uma pausa e perguntar-nos com coragem: reconheço-me em algum destes retratos? Este não é um exercício de culpa, mas de humilde honestidade – a própria “pobreza de espírito” que abre a porta à bênção.
Considerem-se “Bem-aventurados os pobres de espírito”. Não se trata de mera pobreza material, mas da consciência profunda e libertadora de que não sou Deus. É o fim do projecto de auto-salvação. É a pessoa que, no fim das suas forças, dos seus argumentos ou dos seus recursos, só pode dizer: “Senhor, preciso de Ti”. Numa cultura de perfeição curada e autopromoção implacável, esta pobreza é uma libertação psicológica. É a liberdade de ser um dependente amado, uma criança diante de um Pai infinitamente generoso.
“Bem-aventurados os que choram”. Esta bênção perfura a nossa cultura de evasão. Dizem-nos para entorpecer a nossa dor, para nos mantermos ocupados, para “seguir em frente”. Mas Jesus abençoa a dor sagrada que surge do amor: o luto pelo pecado pessoal, pela fragilidade do mundo, pela distância de Deus. Este luto não é desespero; é o reconhecimento claro de que nem tudo está bem, e é a capacidade do coração de sentir essa dor. É a ferida necessária que nos faz ansiar pelo Consolador. Psicologicamente, é a antítese da repressão; é o processamento saudável e santo da perda que abre espaço para o consolo divino.
Bem-aventurados os mansos? Numa era de indignação, de opiniões gritadas e vontades pisoteadas, a mansidão é vista como fraqueza. Mas a mansidão que Jesus abençoa não é passividade. É força sob controlo perfeito. É o poder do cavalo selvagem, submetido à mão do cavaleiro. É a liberdade da tirania do meu próprio ego, da minha própria necessidade de estar certo, de ser o primeiro, de ser justificado. A pessoa mansinha possui a sua alma com paciência. Psicologicamente, isso é resiliência – a capacidade de suportar insultos sem um colapso da autoestima, porque a nossa identidade está ancorada não nas opiniões dos outros, mas no amor do Pai. “Eles herdarão a terra”, não por conquista, mas por recebê-la como um presente.
Finalmente, “Bem-aventurados os puros de coração”. Os nossos corações estão muitas vezes divididos, compartimentados. Damos a Deus uma fatia no Domingo, enquanto outras fatias são dedicadas à ambição, ao vício secreto, à ansiedade, à imagem. Os puros de coração são os integrados, os determinados. A sua vida interior não é uma casa dividida. O seu “sim” é sim, e o seu “não” é não. Esta pureza é uma clareza psicológica, uma lealdade indivisível a Deus que simplifica o nosso mundo interior caótico e nos permite “ver Deus” – perceber a Sua presença e acção nos momentos comuns da vida, porque a lente do nosso coração está limpa.
Não ouçamos as Bem-aventuranças como um ideal distante, mas como um convite gentil e urgente à auto-avaliação. Em qual dessas bênçãos sinto uma estranha ressonância, uma pontada de reconhecimento? Esta mesma pontada pode ser o Espírito Santo apontando o seu caminho para a santidade. Onde sinto mais resistência, mais descrença? Esta pode ser a mesma parede que Cristo deseja derrubar para deixar entrar o Reino.
Esta semana, escolha uma Bem-aventurança. Leve-a consigo. Peça a graça para vivê-la. Pois, ao fazê-lo, não está apenas a seguir uma regra. Está a reivindicar a sua cidadania. Está a entrar na fila dos que são abençoados e está a declarar onde realmente pertence.
Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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