GUARDIÕES DAS CHAVES – 49

GUARDIÕES DAS CHAVES – 49

O monotelismo declina, a iconoclastia surge: Constantino e Gregório II

CONSTANTINO

(25.III.708 – 9.IV.715)

O Papa Sisínio foi sucedido por outro sírio. O 88.º Pontífice Romano, Constantino, era bem-humorado e gentil. Mas enfrentou o mesmo desafio que os antecessores: a complexa relação entre o Império Bizantino, o Papado e poderosas sedes regionais, como Ravena.

O Papa Constantino acabara de consagrar o arcebispo Félix, de Ravena, mas Félix logo se rebelou, afirmando a independência de Ravena em relação a Roma. Em vez de deixar o Papa lidar com o assunto, o beligerante imperador Justiniano II, que havia interferido no Pontificado anterior de João VII (705-707), depôs o arcebispo Félix, mandou arrancar-lhe os olhos e exilou-o em Constantinopla. Justiniano II também ordenou a pilhagem de Ravena porque alguns dos seus cidadãos haviam apoiado a rebelião do Arcebispo.

Depois que o imperador Justiniano II foi assassinado, em 711, o arcebispo Félix retornou, acabou por se reconciliar com Roma e morreu em comunhão com o Papa, pondo fim às reivindicações autocéfalas de Ravena.

No ano anterior ao seu assassinato, Justiniano II convocou o Papa Constantino, que estava familiarizado com o Oriente devido à sua origem síria, à Corte em Constantinopla. O imperador queria que o Papa aplicasse os decretos do Concílio de Trullo (Concílio Quinisexto) de 691, os quais favoreciam os costumes cristãos orientais e desafiavam as práticas romanas, como o celibato.

Talvez cauteloso com a experiência do arcebispo cego Félix e assustado com a crueldade de Justiniano II, o Papa Constantino acatou e levou consigo muitos clérigos orientais. Para surpresa do Pontífice, o imperador acolheu-o com a mais alta honra, e o povo de Constantinopla recebeu-o com alegria no Sétimo Marco. Receber convidados no Sétimo Marco ou no Hebdomon era um gesto grandioso e formal de honra. O Hebdomon era uma importante residência imperial e base militar, a uma distância considerável do centro da cidade. Ali receber convidados, especialmente em ocasiões grandiosas, demonstrava o vasto alcance do império e a imensa riqueza e autoridade do anfitrião, que se estendiam além das muralhas de Constantinopla.

O imperador Justiniano II pôde receber a Sagrada Comunhão do Papa. Em seguida, discutiu o problema do Concílio Quinisexto com o Santo Padre. Constantino fez algo que João VII não ousou fazer: aprovou cânones específicos deste Concílio que não se opunham à fé, à moral ou aos decretos da Igreja Romana. Justiniano aceitou. O Papa regressou a Roma em segurança, com os dois olhos intactos, em 24 de Outubro de 711.

Pouco depois, o imperador Justiniano II foi assassinado por soldados amotinados. O imperador seguinte, Filípico, era monotelita (teoria da vontade única). Quis impor a heresia da vontade única como religião oficial do império.

Fez com que muitos bispos orientais se submetessem ao seu decreto e rejeitassem o Sexto Concílio Ecuménico. O Papa rejeitou a autoridade de Filípico. Os romanos removeram a sua imagem das orações e das moedas. Tropas foram enviadas para impor o cumprimento. Confrontos eclodiram em Roma, mas o Papa Constantino acalmou o povo, usando padres com cruzes para acalmar as multidões. Os olhos de Filípico foram arrancados e foi derrubado. O seu reinado foi seguido pelo do imperador Anastácio II, que restaurou a ortodoxia e fomentou a paz com Roma.

No meio de todas estas turbulências, Constantino encontrou consolo quando os reis anglo-saxões Coenred da Mércia e Offa de Essex viajaram juntos para Roma, por volta de 709 d.C., onde renunciaram aos seus tronos e se tornaram monges sob o Papa Constantino. O Liber Pontificalis aborda a visita dos “dois reis dos saxões”. O venerável Beda também a registou na sua “História Eclesiástica”.

SÃO GREGÓRIO II

(19.V.715 – 11.II.731)

Proveniente de uma família nobre de Roma, São Gregório II foi nomeado tesoureiro e bibliotecário papal pelo Papa São Sérgio (687-701). Quando o Papa Constantino foi visitar o imperador Justiniano II em Constantinopla, levou Gregório consigo. Munido de um profundo conhecimento das Escrituras e de um estilo eloquente, Gregório defendeu diplomaticamente, mas com firmeza, a doutrina católica perante o imperador.

O Papa São Gregório II também demonstrou grande zelo missionário, especialmente em relação ao que é hoje a Alemanha. Nomeou São Corbiniano bispo missionário e enviou-o para a Baviera. Corbiniano tinha vivido como eremita durante catorze anos em França e foi para Roma para continuar a sua vida reclusa. No entanto, a reputação de santidade chamou a atenção do Papa. Gregório aconselhou-o a sacrificar o desejo de solidão e a espalhar o Evangelho na Baviera.

Em 718, o Papa Gregório recebeu Winfred, um jovem monge inglês zeloso que buscava a bênção para uma missão entre os germânicos. O Papa não só lhe deu a bênção, como também um nome glorioso nos anais do Cristianismo: Bonifácio [“aquele que faz o bem”]. “Chamou São Bonifácio de volta a Roma em 722, questionou-o sobre a sua fé e, totalmente satisfeito, consagrou-o bispo e enviou-o de volta aos seus alemães” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 178).

São Gregório II também demonstrou estima pela vida monástica. Tal como São Gregório I (Gregório Magno), converteu a sua mansão num mosteiro. Também reconstruiu Monte Cassino, a abadia-mãe dos beneditinos, que os lombardos haviam destruído em 580.

Gregório II teve que lidar com um novo problema teológico que se originou no Oriente. Naquela época, o imperador Leão III (717-741) havia conseguido estabilizar o império, mas também sofrido algumas derrotas militares. Interpretou as derrotas como um castigo de Deus pela sua adoração a imagens religiosas. Por isso, proibiu as imagens religiosas em 726. Este foi o início da iconoclastia bizantina. “Iconoclastia, palavra grega que significa ‘quebra de imagens’, é uma ideia judaico-muçulmana, bastante estranha à tradição cristã. O decreto imperial, emitido em 726, provocou motins e rebeliões no Oriente. De forma mais construtiva, deu origem aos escritos magistrais do grande doutor oriental da Igreja, São João Damasceno” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 178).

O Papa Gregório II advertiu Leão III e dissuadiu-o de aplicar o seu decreto no Ocidente. Felizmente, tanto os italianos como os lombardos estavam a favor de Gregório e impediram o imperador de agir contra o Papa. “Em resposta ao edito de Constantinopla que proibia o culto de imagens, ordenando a sua destruição, as províncias italianas se levantaram contra o exército de Leão III; a seita iconoclasta foi rejeitada por Itália” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”).

Pe. José Mario Mandía

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