Habacuque: Fidelidade ao Senhor da História
CONTEXTO HISTÓRICO
A referência aos caldeus em Habacuque 1, 6 situa o profeta num momento histórico preciso. Os “caldeus” são os babilónios, que ascenderam ao poder após o declínio da Assíria e se tornaram a força dominante no Crescente Fértil. A ascensão do Império Neobabilónico foi marcada pela sua vitória decisiva sobre o Faraó Neco II na Batalha de Carquemis, em 605 a.C. Apenas quatro anos antes, em 609 a.C., Neco havia derrotado e matado o rei Josias de Judá, em Megido. Judá viu-se assim presa entre duas superpotências – Babilónia e Egipto –, lutando para gerir as pressões resultantes da sua frágil posição geopolítica.
A profecia de Habacuque não é meramente uma crónica dessas mudanças; é uma meditação profunda sobre a justiça divina e a fé humana. O envolvimento de Judá entre o Egipto e a Babilónia ilustra a vulnerabilidade das nações, enquanto o diálogo de Habacuque com Deus revela a luta contínua dos crentes para conciliar a santidade divina com as realidades históricas.
UM DIÁLOGO COM DEUS: A ALIANÇA E A JUSTIÇA DE DEUS
Ao contrário de outros profetas, Habacuque não se dirige a nenhum rei ou povo – o seu único interlocutor é Deus. O seu grito inicial é um lamento: «Ó Senhor, até quando clamarei por socorro, e tu não me ouvirás? Ou clamarei a ti por violência, e tu não salvarás?» (Hab., 1, 2). Esta oração inicia um diálogo no qual Deus responde, anunciando a ascensão dos caldeus como Seu instrumento de julgamento (cf. Hab., 1, 6).
A sequência deste diálogo desenrola-se da seguinte forma:
. O lamento e a queixa de Habacuque (1, 2–4): «Até quando clamarei por socorro (…) Por que me fazes ver a injustiça?».
. A resposta do Senhor (1, 5–11): «Estou a despertar os caldeus, essa nação feroz e impetuosa, que marcha pela extensão da terra».
. Resposta de Habacuque (1, 12–2, 1): «Por que olhas para os traidores e ficas em silêncio quando os ímpios devoram os justos?».
. Resposta de Deus (2, 2–20): «O justo viverá pela sua fidelidade».
. Resposta final de Habacuque (3, 1–19): «Eu ouvi (…) Eu me alegrarei!».
Esta troca expõe a tensão entre a santidade de Deus e as Suas acções na história. Habacuque luta com o paradoxo: «Os teus olhos são puros demais para ver o mal, e tu não podes tolerar a injustiça. Por que, então, toleras os traidores?» (Hab., 1, 13). A teologia da aliança do profeta é posta à prova – como pode o Deus de Israel empregar uma nação implacável para disciplinar o Seu povo? No entanto, o diálogo não termina em desespero.
Deus afirma que «o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab., 2, 4), um princípio da aliança que transcende as circunstâncias imediatas. Habacuque acaba por se render à misteriosa vontade de Deus, concluindo com um hino de acção de graças: «Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide (…) eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação» (Hab., 3,17–18).
ESPERANDO PELA JUSTIÇA DE DEUS (Habacuque 2, 1–5)
Como um vigia, o profeta espera atenta e vigilantemente pela resposta do Senhor à sua segunda queixa: «Eu ficarei no meu posto de vigia e me colocarei na torre; ficarei de olho para ver o que ele me dirá e o que responderá à minha queixa» (Hab., 2, 1).
Deus ordena a Habacuque que escreva as Suas palavras com clareza, uma mensagem fundamental para compreender a Sua acção na história humana e a atitude que Ele espera dos Seus fiéis: «Olha para os orgulhosos! O seu espírito não está direito neles, mas os justos vivem pela sua fé» (Hab., 2, 4). Os arrogantes, que depositam a sua confiança na riqueza, na força militar ou no poder político, são insaciáveis – como a própria morte, que inevitavelmente os alcança: «Na verdade, a riqueza trai os arrogantes; os orgulhosos não duram. Eles abrem as suas gargantas como o Sheol; como a morte, nunca têm o suficiente» (Hab., 2, 5).
Neste contexto, a palavra hebraica “Emunah” expressa firmeza, fidelidade moral e estabilidade no seio da violência e a injustiça. Mesmo quando parece que o Senhor demora, os justos são chamados a «esperar contra toda a esperança» (Rm., 4, 18).
A FÉ SEGUNDO PAULO E A TRADIÇÃO CRISTÃ
Este versículo de Habacuque é citado por Paulo em vários lugares: «O justo viverá pela fé» (Rm., 1, 17); «Porque o justo viverá pela fé» (Gl., 3, 11); e repetido em Hebreus 10, 38: «O meu justo viverá pela fé. Se ele recuar, não ficarei satisfeito com ele».
Martinho Lutero baseou-se nessas citações paulinas para fundamentar a sua doutrina da salvação pela fé e não pelas obras. No entanto, a fé não é uma entidade abstracta; ela deve ser vivida por pessoas concretas em circunstâncias concretas. A palavra hebraica “Emunah”, usada em Habacuque 2, 4, significa mais do que concordar com um sistema de crenças – ela significa fidelidade, firmeza moral e estabilidade diante dos desafios. Paulo, ao citar Hab 2, 4, usa o termo grego “pistis”, que no seu contexto é contrastado com «obras da lei» (Gal., 3, 11) e aponta para a confiança total de uma pessoa em Jesus Cristo para a salvação.
Estas “obras da lei” não se referem às boas acções que os cristãos são chamados a realizar (Tg., 2, 17: «Assim, a fé por si só, se não tiver obras, está morta»), mas sim às práticas culturais judaicas, tais como a circuncisão, a observância de festivais e as regras alimentares. No seu esforço de inculturação, Paulo não queria que os gentios convertidos fossem forçados a entrar numa seita ligada ao judaísmo, mas sim a formar uma nova comunidade a que chamou “o novo Israel” (Gal., 6, 16: «A paz e a misericórdia estejam com todos os que seguem esta regra e com o Israel de Deus»). Os cristãos da Galácia foram influenciados por judaizantes que perturbavam as comunidades fundadas por Paulo. Em resposta, Paulo reafirmou que a salvação vem pela fé em Cristo, não pela adesão a certas práticas culturais.
SALVAÇÃO PARA TODOS OS POVOS
Ao proclamar que «o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab., 2, 4), o profeta Habacuque também abre o horizonte da salvação a todos os povos. A sua mensagem transcende as fronteiras de Israel e antecipa a universalidade do Evangelho: «Porque a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar» (Hab., 2, 14). Esta passagem apela à confiança total no Senhor da história, que cumprirá a Sua promessa e realizará o Seu plano.
A fidelidade dos justos não é resignação passiva, mas uma espera activa e confiante no Deus que governa a história e estende a Sua salvação a todas as nações. Esta oração final abre o horizonte da aliança para além de Judá, apontando para uma visão universal da justiça e misericórdia de Deus. O diálogo de Habacuque torna-se não apenas um testemunho da luta de Israel, mas também um convite a todos os povos para confiarem na soberania de Deus, mesmo quando os Seus caminhos desafiam as expectativas humanas.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Medite sobre o lamento de Habacuque: Leve diante de Deus os seus próprios clamores de “Até quando, Senhor?” e confie que Ele ouve.
. Abrace a fidelidade nas provações: peça a graça de viver pela Emunah – fidelidade inabalável – mesmo quando as circunstâncias parecem insuportáveis.
. Regozije-se na salvação de Deus: ore com o hino de Habacuque: «Ainda assim, eu me regozijarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação» (Hab., 3, 18), tornando-o o seu próprio acto de rendição e louvor.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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