Lidar com romanos, lombardos e imperadores: João VI, João VII, Sisínio

GUARDIÕES DAS CHAVES – 49

Lidar com romanos, lombardos e imperadores: João VI, João VII, Sisínio

JOÃO VI

(30.X.701 – 11.I.705)

O 85.º Papa nasceu em Éfeso, então uma antiga cidade grega. Durante o seu Pontificado, vemos sinais do crescente poder temporal do Papado. Este poder temporal era mais um fardo do que uma honra, tendo-se manifestado, pela primeira vez, após a queda do Império Romano Ocidental, em 476. Os Papas preencheram o vácuo deixado pelo último imperador ocidental. Além dos deveres espirituais, o Pontífice tinha que organizar a defesa, administrar as finanças e lidar com os invasores bárbaros.

Durante o Pontificado de João VI, dois incidentes obrigaram o Papa a intervir em assuntos temporais. No primeiro incidente, o Santo Padre salvou o exarca bizantino Teofilacto dos romanos enfurecidos, evitando um derramamento de sangue após a tentativa de o exarca interferir com o Papa.

No segundo incidente, o Papa salvou os romanos dos lombardos liderados por Gisulfo I de Benevento. As autoridades imperiais não conseguiram deter os lombardos e João VI enviou alguns padres para implorar a Gisulfo I. Eles tiveram sucesso na missão, mas somente depois que João VI subornou Gisulfo I para que se retirasse do território romano e libertasse os cativos.

Quanto aos assuntos da Igreja, uma velha questão ressurgiu. “Mais de vinte anos antes, São Wilfrid de York tinha ido a Roma para procurar e encontrar justiça nas mãos do Papa São Agatão. Agora, mais uma vez envolvido numa rede de problemas e aborrecimentos, o grande bispo da Nortúmbria procurou João VI” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 170). João VI convocou um sínodo de bispos gregos para ouvir o caso do bispo inglês exilado. Participar num sínodo em Grego era bastante difícil para Wilfrid, que não falava a língua, mas o Sínodo restaurou-o à sua Sé e enviou-o de volta a Inglaterra com cartas papais para os reis Aldfrith da Nortúmbria e Ethelred da Mércia.

João VI também fortaleceu os laços com a Igreja em Inglaterra. Enviou, por exemplo, o pálio a Berhtwald, arcebispo de Canterbury. O pálio, uma vestimenta de lã branca que representa Cristo, o Bom Pastor, carregando a ovelha perdida, é usado pelo Papa como símbolo da sua autoridade sobre toda a Igreja e é conferido aos arcebispos metropolitanos para mostrar que a sua autoridade vem do Pontífice Romano.

Em resumo, podemos dizer que o Papa João conseguiu manter a paz e a influência papal numa Itália turbulenta com movimentos políticos cuidadosos e afirmar a autoridade de Roma sobre outras igrejas locais, como em Inglaterra.

JOÃO VII

(1.III.705 – 18.X.707)

João VII nasceu numa ilustre família grega. Era filho de Platão, curador do palácio imperial que trabalhara na restauração do palácio dos Césares no Monte Palatino, em Roma. O próprio João “tornou-se reitor das propriedades do património de Pedro na Via Ápia. Era culto, eloquente e muito devoto de Maria, a Mãe de Deus (…). Restaurou a Basílica de Latrão e mandou pintar frescos em Santa Maria Antiqua” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 172).

Apesar da sua formação, João era uma pessoa tímida, o que para ele era uma desvantagem sempre que negociava com o imperador bizantino Justiniano II. O imperador era conhecido pela violência e crueldade que exerceu nos seus dois reinados (685-695 e 705-711). Tal como fez com o Papa Sérgio (687-701), Justiniano enviou emissários ao Papa exigindo que ele confirmasse os cânones do Concílio Quinissexto ou Trulano (692).

Recordemos que este Concílio, convocado por Justiniano II, produziu cânones que desaprovavam práticas como o celibato clerical. O Papa simplesmente devolveu os decretos ao imperador sem assinatura ou comentário, o que irritou Justiniano II, a ponto deste se vingar em Itália, mas João VII morreu (707) antes que as piores repercussões fossem sentidas.

Por outro lado, João VII era um bom amigo dos lombardos. O rei dos lombardos da época, Aripert II, devolveu algumas propriedades do património confiscado anos antes.

PAPA SISÍNIO

(15.I.708 – 4.II.708)

Sírio de nascimento, o Papa Sisínio reinou por 22 dias, o quinto mais curto de todos os Papas. (O Papado mais curto foi o do Papa Urbano VII, que reinou por treze dias, de 15 a 27 de Setembro de 1590).

Apesar do seu curto tempo no cargo, Sisínio, que sofria de gota grave e era incapaz de se alimentar sozinho, era descrito como um homem de carácter forte. Conseguiu ordenar a reparação das muralhas de Roma, prevendo possíveis invasões pelos lombardos e sarracenos (“sarraceno” era um termo europeu para designar os muçulmanos, referindo-se frequentemente aos árabes, berberes e outros povos do Norte de África e do Médio Oriente). Após 711 d.C., a expansão muçulmana para Espanha e Sicília levou-os a um conflito com a Europa cristã. Roma sofreu um ataque directo durante a invasão sarracena de 846, quando saquearam São Pedro e São Paulo, causando grande medo, o que levou à construção de novas muralhas (Muralhas Leoninas).

Pe. José Mario Mandía

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