Celebrar o passado, perspectivando o futuro
Testemunha de fé, exemplo de perseverança e sustentáculo da humanidade. No dia em que a nossa diocese celebrou 450 anos de missão e misericórdia, os católicos ouvidos pel’O CLARIM mostraram-se convictos de que a Igreja Católica em Macau vai continuar a ser um farol na comunidade e a revelar aos leigos o caminho para Jesus Cristo e para a Salvação.
Em Macau desde 2007, o padre Jose Ángel Hernández, SVD, considera que o inquestionável valor histórico da missão evangelizadora da diocese de Macau só se concretiza plenamente se a comunidade católica assumir com alegria e entrega aquela que foi, durante séculos, a sua principal vocação. O sacerdote mexicano, que foi ao longo de mais de uma década pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima, pede aos católicos locais que se afirmem como testemunhas do amor de Cristo e exemplos de fé e de entrega a Deus e ao outro, nos meios em que estão inseridos.
«Através da fé, podemos conquistar o mundo interior. Se tivermos consciência disto e nos aproximarmos o mais que pudermos de Jesus Cristo, tornámo-nos exemplos para a comunidade. Aqui em Macau, por exemplo, quem não é católico apercebe-se que estamos unidos, que somos um único corpo e fomos todos chamados para uma mesma esperança. Quando alguém vem a Macau, mesmo que nunca tenha tido grande contacto com a Palavra de Deus, percebe que a Igreja é uma entidade inteira e viva, onde o amor é uma presença evidente», argumenta o missionário da Sociedade do Verbo Divino. «O que se espera de nós, sacerdotes e leigos, é que sejamos testemunhas do amor de Deus, para que os outros se possam admirar e questionar. Uma das formas em que nos podemos afirmar como testemunhas é exercendo a caridade de Deus. Um dos papéis da Igreja é de ir ao encontro dos mais necessitados, seja visitando os enfermos nos hospitais ou os destinados na prisão. Exercendo estas obras de misericórdia, tornámo-nos exemplos e testemunhos de Cristo», acrescenta.
Responsável pelo acompanhamento espiritual dos reclusos que se encontram detidos no Estabelecimento Prisional de Macau e capelão de vários estabelecimentos de Ensino (entre os quais a Creche Internacional de São José, no NAPE), o padre Ángel recorda o papel que a Igreja Católica desempenha na formação das novas gerações, num território onde as assimetrias sociais foram muito vincadas. No seu entender, mais do que contribuir para a formação de profissionais e de quadros laborais, as escolas católicas preparam as crianças e jovens para fazerem da fé um manancial de esperança.
«Há uma missão muito importante a ser desempenhada pelas escolas. Em Macau, ainda conseguimos ir às escolas, ainda conseguimos falar com os mais novos sobre a importância da fé. Esta é uma oportunidade que deve ser valorizada, até porque percebi nas minhas visitas às escolas que a maior parte dos jovens não têm fé», diz, revelando que «ao fim de algum tempo alguns deles começaram a perceber que nas escolas católicas Deus está no meio de nós. A sua presença faz-nos mais forte, dá um outro sentido à vida e para que isso aconteça basta acreditar n’Ele. Quando estas crianças crescerem, vão começar a compreender que há algo mais para além da vida terrena. Que há também o céu. Se as pessoas não tiverem fé, nem o céu tem sentido, nem a vida tem propósito e o mais provável é que vivam sem saber o que é a esperança».
OLHAR EM FRENTE
Pioneira na transmissão da Fé Católica no Extremo Leste da Ásia Oriental, a Diocese deve fazer da primazia histórica uma referência e continuar a assumir-se como um farol de esperança e um motor de evangelização, num continente em profunda e acelerada mudança. A posição é defendida por Paulo Rosa Rodrigues. Radicado em Macau há mais de 45 anos, o empresário considera que o Catolicismo e a Igreja Católica são parte incontornável do ADN do território.
«Há aquele velho chavão que diz que um território sem passado, não tem futuro. Macau não pode esquecer nunca, jamais – até porque isso está inscrito na História – que foi o farol de toda a expansão da Igreja Católica Apostólica Romana no Oriente», frisa Paulo Rodrigues e continua: «Olhando para o futuro, o que é necessário fazer é, antes de mais, manter a consciência de que continuamos a ser um farol de expansão e de transmissão dos ensinamentos da Igreja Católica. A diocese de Macau está a trabalhar, continua a fazer muita coisa, mas não são muitas as pessoas que têm consciência disso. E se assim é, é porque não é apanágio da Igreja Católica andar a publicitar o que anda a fazer. Limita-se a fazer!».
Director em exercício do Instituto de Ciências e do Ambiente da Universidade de São José (USJ), André Antunes sublinha a vitalidade da Fé Católica em Macau, 450 anos depois da sua constituição. Microbiologista de formação, o académico encara a Fé Católica um dos principais legados da presença de Portugal na Ásia Oriental.
«É impressionante a história que a Igreja Católica tem em Macau. A instituição necessita, obviamente, de estar em constante evolução e modernização, para acompanhar os tempos que correm, mas acho que continua a ser uma parte incontornável de Macau, da identidade de Macau e da ligação com Portugal e com a lusofonia», afirma o investigador. «O facto de ainda se rezar em Português, em Macau, atesta também a vitalidade da língua portuguesa, apesar da tendência para se pensar tem cada vez menos expressão e é cada vez menos visível. A verdade é que continua a manifestar-se com alguma força, em particular no seio da Igreja Católica. Eu costumo ir à Missa na Taipa. A Missa é celebrada em Português e a igreja está sempre cheia. Acho que é um sinal da vitalidade da língua e não só da comunidade portuguesa, mas também da comunidade macaense e das comunidades lusófonas que estão em Macau», conclui.
Marco Carvalho

Follow