A diocese de Macau celebra hoje, 23 de Janeiro, o 450.º Aniversário da sua fundação, com Missa presidida pelo bispo D. Stephen Lee, às 19:00 horas, na igreja da Sé Catedral. O colaborador d’O CLARIM, Vítor Teixeira, professor da Universidade Fernando Pessoa, localizada na cidade do Porto (Portugal), resume a história da Dioecesis Macaonensis e traça um breve perfil da mesma.
Uma história com 450 anos
Poderíamos dizer que a história da diocese de Macau é, em miniatura, a história da presença católica no Extremo Oriente: começa como uma base missionária de um império oceânico, perde território à medida que novas Igrejas locais nascem e, hoje, reencontra-se como pequena diocese urbana, situada entre a memória luso-católica e a realidade chinesa contemporânea.
Fundada como uma porta para o Oriente, a diocese de Macau foi erigida pelo Papa Gregório XIII, através da bula Super specula militantis Ecclesiae, a 23 de Janeiro de 1576, desmembrando-a da diocese de Malaca, que também se encontrava sob a jurisdição de Goa. O primeiro titular da Diocese foi o Patriarca da Etiópia, o jesuíta D. Melchior Carneiro (1576-1583), como administrador apostólico, seguido de D. Diogo Nunes Figueira (1576-1578, mas sem tomar posse) e de D. Leonardo Fernandes de Sá (1588-1597), o primeiro bispo a exercer efectivamente a sua jurisdição, chegando à cidade em 1581 e liderando a fundação do Senado de Macau em 1583.
A bula da criação da Diocese reconhecia o papel de Macau, então jovem território frequentado pelos portugueses, como entreposto decisivo entre a Europa e a Ásia e, sobretudo, como plataforma para a evangelização da região. Desde a origem, a Diocese ficou sujeita ao Patriarcado Português do Oriente, com sede em Goa, na Índia: o Estado português patrocinava e protegia a actividade missionária, enquanto conservava uma forte influência na escolha de bispos e na organização eclesiástica. A jurisdição inicial era imensa: abrangia não apenas Macau, mas também a China, o Japão, partes do Vietname e da Coreia, e uma grande área do Sudeste Asiático, com excepção das Filipinas espanholas.
Nos séculos seguintes, o território eclesiástico de Macau foi sendo progressivamente reduzido, à medida que Roma criava dioceses e vicariatos apostólicos mais próximos das realidades locais. Em 1588, parte do território foi desmembrada para a diocese de Funai (no Japão), e, em 1659-1660, a fundação dos vicariatos apostólicos da Cochinchina, do Tonquim e de Nanquim retirou à Diocese grande parte da China e da Indochina. Em 1690, a criação da diocese de Pequim representou mais um passo na autonomização da Igreja na China imperial.
Ao longo dos Séculos XVII e XVIII, Macau mantém, ainda assim, um papel central: aqui passam, estudam ou residem figuras como Matteo Ricci, Alessandro Valignano e tantos outros jesuítas, dominicanos e membros de outras ordens que, a partir da cidade, se lançam rumo à China, ao Japão e a outros pontos da Ásia. Macau funcionou como Seminário, casa de formação, oficina de línguas e lugar de refúgio em tempos de perseguição, por exemplo, quando os cristãos foram expulsos do Japão no início do Século XVII. No Século XIX, a redução territorial prossegue: em 1841 é criada a Prefeitura Apostólica de Hong Kong, separando a nova colónia britânica da jurisdição macaense; em 1848, a Prefeitura Apostólica de Kouangtong (Guangdong) retira grande parte do Sul da China. Em 1908, a Diocese passa a compreender, de forma estável, Macau, Timor português, o distrito de Chong San, a prefeitura de Shiu-Hing e ainda paróquias em Singapura (São José) e em Malaca (São Pedro), expressão da dispersão histórica do Padroado no Sudeste Asiático.
O Século XX traz novas reconfigurações. Em 1940-1941, o território de Timor português é desmembrado para formar a diocese de Díli, separando a Igreja “timorense” da administração macaense. A partir daqui a diocese de Macau concentra-se cada vez mais na própria cidade e em alguns enclaves residuais. As paróquias de São José, em Singapura, e de São Pedro, em Malaca, manter-se-ão unidas a Macau até aos anos 1970, sendo finalmente integradas na arquidiocese de Singapura e na diocese de Malaca–Johor, por volta de 1972 e 1981, respectivamente. Em 1975-1976, na sequência da descolonização portuguesa e da perda de Goa, a Diocese deixa de ter metrópole em território português: torna-se diocese “isenta”, directamente sujeita à Santa Sé, sem a cobertura institucional do antigo padroado.
Do ponto de vista sociológico, o Catolicismo em Macau mantém-se minoritário, mas significativo: as estatísticas recentes indicam cerca de 31 mil 920 católicos (4,5 por cento dos seus 713 mil 630 habitantes). A Diocese organiza-se hoje em nove paróquias e duas missões, conta com um clero misto, composto por cerca de setenta padres (dezoito diocesanos e 52 religiosos, além de numerosas congregações femininas – são cerca de 140 irmãs dedicadas à Educação, à Saúde e à Caridade). Nestas estatísticas de 2022, constavam três seminaristas maiores. Em termos relativos, é uma minoria discreta numa cidade marcada pelo turismo, pelo jogo e por fluxos transfronteiriços intensos, mas conserva um património histórico e simbólico desproporcionado à sua dimensão numérica.
Durante grande parte da sua história, a diocese de Macau foi dirigida por bispos de origem europeia, quase sempre portugueses, em continuidade com o estatuto colonial. A transição para uma liderança cada vez mais enraizada na Ásia acompanha as mudanças políticas e culturais. Um marco simbólico importante foi a nomeação do primeiro bispo de origem chinesa (D. Domingos Lam Ka-tseung, 林家駿,1988-2003), que assinala uma viragem de olhar: a Diocese deixa de se pensar apenas como “prolongamento” de uma Igreja “europeia” e assume com mais clareza a sua identidade local, numa cidade de maioria chinesa, oficialmente integrada na China, ainda que com estatuto especial. Este movimento também acompanha a necessidade de diálogo com a cultura e as autoridades chinesas, no quadro de “Um País, Dois Sistemas”.
A transferência de soberania de Macau para a República Popular da China, em 1999, não alterou formalmente a posição da Diocese na Igreja universal: Macau mantém plena comunhão com a Santa Sé e goza de liberdade de culto, no âmbito jurídico da Região Administrativa Especial. Por um lado, Macau preserva igrejas e instituições emblemáticas – como a Sé Catedral, as ruínas de São Paulo, o Seminário e a igreja de São José – que testemunham séculos de cruzamento entre o Catolicismo europeu e o mundo sino-asiático. Por outro lado, a Diocese continua a ser um lugar de formação, acolhendo Seminários, centros de estudo e comunidades religiosas que se dedicam à Educação, à Comunicação Social e à Acção Social, muitas vezes em ligação com outras dioceses asiáticas.
Em 2026, a Igreja local assinala os 450 anos da criação da diocese de Macau, com um Ano Jubilar que sublinha precisamente esta dupla identidade: primeira diocese católica do Extremo Oriente na época moderna e pequena Igreja local chamada a encontrar o seu lugar numa China em rápida transformação.
O bispo diocesano, D. Stephen Lee Bun-sang (desde 2016), convida os fiéis a olhar para o passado não como museu, mas como uma “bússola” para a missão de hoje, numa sociedade secularizada, digital e pluri-religiosa.
De grande diocese “imperial”, com jurisdição sobre vastos territórios da Ásia, Macau tornou-se uma circunscrição reduzida ao território homónimo. Cápsula do tempo, continua a condensar uma história de encontros entre a Europa e a Ásia, entre o velho padroado e a Igreja universal, entre a memória colonial portuguesa e a realidade chinesa contemporânea. Palimpsesto da história, a sua trajectória é a de uma Igreja que passou de fronteira missionária de um império a uma minoria criativa numa cidade globalizada, guardando, ainda assim, a memória de ter sido, durante séculos, a primeira porta católica do Oriente.
Vítor Teixeira

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