IRMÃS MISSIONÁRIAS DA CARIDADE

IRMÃS MISSIONÁRIAS DA CARIDADE

Ao serviço dos mais pobres entre os pobres

A história das Missionárias da Caridade é inseparável da figura de Madre Teresa de Calcutá, o que faz desta Congregação uma espécie de prolongamento institucional da sua biografia espiritual.

Fundada no contexto de uma Índia recém-independente, marcada por pobreza extrema e por profundas fracturas sociais, a Congregação nasceu como resposta a um “chamamento dentro do chamamento” e hoje está presente em mais de 130 países. Também está activa em Macau.

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu nasceu em 1910, em Skopje (então no Império Otomano), numa família católica albanesa. Ainda jovem, entrou no Instituto da Beata Virgem Maria (Irmãs de Loreto) e foi enviada para a Índia, onde professou votos perpétuos em 1937, adoptando o nome de Teresa. Durante quase vinte anos foi professora e depois directora de uma escola para raparigas em Calcutá, vivendo a vida “normal” de religiosa docente. A viragem aconteceu em 1946, numa viagem de comboio de Calcutá a Darjeeling, quando experimentou aquilo que designou como um “chamamento dentro do chamamento”: a convicção interior de que Jesus lhe pedia que deixasse o convento e se dedicasse “aos mais pobres entre os pobres”.

Em 1948 obteve autorização para deixar as Irmãs de Loreto, trocando o hábito por um simples sari branco de bordas azuis; recebeu formação básica em enfermagem e começou a viver nos bairros de lata de Calcutá, abrindo uma pequena escola de bairro para crianças pobres. Em 1949 já contava com algumas voluntárias que a seguiam nesse caminho de radical pobreza e serviço.

A 7 de Outubro de 1950, com aprovação do Papa Pio XII, Madre Teresa fundou oficialmente a Congregação das Missionárias da Caridade em Calcutá. A nova família religiosa nasceu com características muito particulares. Assim, o seu carisma é “Saciar a sede de Jesus na cruz”, servindo “os mais pobres entre os pobres” – doentes abandonados, moribundos na rua, leprosos, crianças rejeitadas, pessoas sem família ou sem voz. Outra particularidade são os votos. Além dos três votos clássicos (pobreza, castidade, obediência), as irmãs fazem um quarto voto, o de se consagrarem “de coração inteiro e gratuitamente ao serviço dos mais pobres entre os pobres”. Como estilo de vida, esta é extremamente simples e austera, com habitações espartanas, alimentação frugal e dependência quase total de esmolas e doações. O núcleo inicial da Congregação foi pequeno: doze irmãs, muitas delas provenientes das próprias Irmãs de Loreto. A partir desse ponto, porém, a expansão foi rápida, acompanhando o impacto público da figura de Madre Teresa.

Nos anos 1950 surgiram as casas que definem o modelo apostólico das Missionárias. Uma foi Nirmal Hriday (“Casa do Coração Puro”), criada em 1952, uma pequena casa junto a um templo hindu, transformada em hospício para acolher moribundos apanhados nas ruas de Calcutá, oferecendo cuidados básicos, higiene, alimentação e, sobretudo, a possibilidade de morrerem com dignidade. A outra foi Shanti Nagar (“Cidade da Paz”), como que uma colónia para doentes de lepra, perto de Asansol, destinada a retirar do abandono doentes estigmatizados, oferecendo-lhes tratamento, trabalho e comunidade. Além destas, destacam-se ainda os lares para crianças e idosos: orfanatos, creches e casas para pessoas com deficiência física e mental, cegos, idosos abandonados e dependentes químicos, sempre com o foco nos que “não têm ninguém”.

Paralelamente, a Congregação abriu escolas, dispensários médicos, cozinhas comunitárias e centros de distribuição de alimentos, sempre com recursos modestos e, muitas vezes, com pessoal sem formação médica formal, o que mais tarde geraria críticas.

A partir da década de 1960, as Missionárias da Caridade atravessaram fronteiras. Em 1965, Paulo VI concedeu à Congregação o estatuto de instituto de direito pontifício, tornando-a directamente dependente da Santa Sé, o que facilitou a sua expansão internacional. Em poucas décadas a Congregação disseminou-se por toda a Índia e países vizinhos (Bangladesh, Sri Lanka, Nepal), a regiões da Ásia (Filipinas, Hong Kong, depois países do Médio Oriente), a África (casas em centros urbanos e zonas de guerra ou fome), na Europa (Roma, Londres, Dublin, Lisboa, etc.), para além das Américas (Nova Iorque, América Latina, incluindo trabalhos em favelas, bairros degradados e zonas de conflito).

Em 1979, Madre Teresa recebeu o Prémio Nobel da Paz, que aceitou “em nome dos pobres”. A visibilidade mundial do prémio projectou ainda mais a Congregação, tendo atraído vocações e donativos, e reforçado a imagem de “santa viva dos pobres”.

Por ocasião da morte de Madre Teresa, em 1997, as Missionárias da Caridade já tinham centenas de casas em mais de noventa países, com milhares de irmãs e inúmeros voluntários leigos associados.

Madre Teresa morreu a 5 de Setembro de 1997, em Calcutá, já com a saúde muito fragilizada e após anos de enorme desgaste físico. Foi beatificada em 2003 e canonizada em 2016. Depois de 1997, a Congregação continuou o seu crescimento, ainda que com ritmo mais moderado, e consolidou a estrutura interna, mantendo o carisma original (vida de pobreza radical, oração intensa, eucaristia, adoração, rosário) e serviço directo aos mais marginalizados. Em meados da década de 2020, contava com cerca de cinco mil irmãs em mais de 130 países, organizadas em casas locais com forte autonomia concreta, mas unidas por constituições comuns. Desenvolveu ramos masculinos (Irmãos Missionários da Caridade) e leigos associados (colaboradores, voluntários, entre outros), que partilham o espírito de serviço.

Entre as muitas geografias onde as Missionárias da Caridade se implantaram, Macau ocupa um lugar discreto, mas significativo. As Missionárias da Caridade abriram uma casa no território em 1981, como parte da expansão da Congregação na Ásia Oriental. Fontes locais lembram que Madre Teresa acompanhou pessoalmente a criação deste centro, escolhendo Macau como ponto de presença junto de populações vulneráveis numa cidade de forte cruzamento cultural. Aqui as irmãs dedicam-se sobretudo a uma creche para crianças de famílias carenciadas, na Zona Norte da cidade; prestam atenção aos sem-abrigo e a pessoas em situação de exclusão; servem sopa aos pobres aos Domingos e asseguram apoio básico a quem vive em condições precárias. Inserem-se, assim, numa constelação de obras caritativas locais (Cáritas de Macau, Santa Casa da Misericórdia, outras entidades), mas com a marca própria das Missionárias da Caridade: vida muito simples, contacto directo com os mais pobres e opção preferencial por quem, socialmente, “não conta”.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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