VICARIATOS APOSTÓLICOS DO LORETO, NO PERÚ

VICARIATOS APOSTÓLICOS DO LORETO, NO PERÚ

Um apelo urgente de combate à pobreza

Os Vicariatos Apostólicos da região peruana do Loreto estão a dar o alarme: à luz dos dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI) sobre a pobreza económica em 2025, denunciam uma situação que não está a melhorar, mas sim a agravar-se. Caracteriza-se por desigualdades gritantes e por um sentimento de abandono por parte do Estado.
Numa mensagem conjunta, os bispos de Iquitos, Yurimaguas e San José del Amazonas apontam Loreto como a segunda região mais pobre do País. Mais de quarenta por cento da população vive em situação de pobreza ou de pobreza extrema, e mais de 32 por cento encontra-se em situação precária, ou seja, corre o risco de cair na pobreza à mínima crise. A situação é ainda mais grave para as famílias cujo chefe de família tem como idioma materno uma língua indígena amazónica; neste caso, a taxa de pobreza ultrapassa os 46 por cento.
Para Paolo Francesco Diaz Sevillano, porta-voz do Vicariato Apostólico de Iquitos, esta pobreza está profundamente multifacetada e estruturalmente enraizada. Um dos sintomas mais visíveis é o acesso a água potável: segundo o Centro Nacional de Planeamento Estratégico (CEPLAN), em 2024 apenas 74,1 por cento das famílias do Loreto estavam ligadas à rede pública de água. Isto faz de Loreto a região mais mal servida do País, muito atrás de outros departamentos como Moquegua, onde a taxa de ligação é de 96,7 por cento. “Muitas famílias nos arredores de Iquitos continuam à espera da chuva para recolher água, ou compram água diariamente a fornecedores cuja qualidade não está garantida”, explicou o religioso à agência FIDES. Esta situação impõe um encargo financeiro às famílias, uma vez que, em última análise, acabam por pagar significativamente mais do que as famílias ligadas à rede pública de água. Para além dos recursos financeiros necessários para a compra de água, a falta de acesso a água potável facilita a propagação de doenças como a cólera, a diarreia e a dengue, levando à perda de dias de trabalho e a custos adicionais com a saúde para o Estado e, principalmente, para as famílias. “Quando um membro da família adoece, toda a casa mergulha numa situação económica muito difícil”, sublinhou Paolo.
O acesso à Educação é outro grande problema. Loreto possui apenas duas Universidades públicas – a Universidade Nacional da Amazónia Peruana, em Iquitos, e a Universidade Nacional Autónoma do Alto Amazonas, em Yurimaguas – e uma única Universidade privada, criada recentemente na capital regional, cujas propinas a maioria da população não consegue pagar. Para muitos jovens, frequentar o Ensino Superior significa migrar para Iquitos ou optar por cursos técnicos de curta duração. Segundo o INEI, aproximadamente 65 mil jovens, entre os quinze e os 29 anos de idade, não estão empregados nem a estudar. Esta situação alimenta a economia informal, o tráfico de pessoas e as redes criminosas. Acresce a isto os baixíssimos níveis de literacia e numeracia; Loreto figura entre as piores cidades do País em termos de indicadores de desenvolvimento.
A actual instabilidade socioeconómica é agravada por outros factores específicos da região amazónica. Grandes distâncias, a dependência de combustível para o transporte fluvial e a presença de redes criminosas infiltradas no Estado contribuem para uma inflação mais elevada do que noutras regiões. Aqueles que possuem capital especulam sobre os preços, dificultando o acesso da população mais pobre até mesmo a bens de consumo básicos. Estima-se que o custo de um cabaz alimentar em Loreto seja quinze a trinta por cento mais elevado do que em Lima, enquanto os salários são geralmente mais baixos. “Pode dizer-se que o Loreto tem uma inflação mais elevada e salários mais baixos”, resumiu o porta-voz do Vicariato.
Perante este diagnóstico, os bispos da região falam inequivocamente da “corrupção” que perpetua a pobreza e impede o desenvolvimento. “O Governo regional de Loreto e os municípios têm os recursos necessários, mas a qualidade de vida da população não está a melhorar. Isto significa que os responsáveis não têm vontade de implementar políticas que sirvam o bem comum e que décadas de exploração da Amazónia estão também a sobrecarregar os orçamentos públicos”, explicam. Denunciam existir uma situação de intenso conflito social, tensão e surtos de violência – como os que ocorreram recentemente ao longo do rio Corrientes – que farão do Loreto uma das regiões mais frágeis do País até meados do corrente ano.
Dada a urgência e gravidade da situação, os bispos apelam às autoridades nacionais e locais para que “trabalhem com empenho e responsabilidade para reduzir a pobreza entre a população e para gerir os recursos públicos com honestidade e transparência”. E sensibilizam os cidadãos para que “exerçam o seu direito de voto” e cumpram “o dever de votar, elegendo candidatos mais competentes e fiáveis, capazes de colocar o bem comum acima dos interesses particulares ou partidários”.
Neste contexto, o papel da comunidade eclesial continua a ser central. No auge da pandemia de Covid-19, a de Iquitos assumiu um papel de liderança: de acordo com um estudo citado pelo porta-voz do Vicariato, a paralisia das autoridades municipais e regionais face à emergência fez do Loreto uma das zonas mais afectadas, e a Igreja revelou-se fundamental ao organizar uma das maiores campanhas de angariação de fundos da sociedade civil em todo o País. Isto levou o Primeiro-Ministro, durante uma visita a Iquitos, a solicitar uma reunião pessoal com o administrador diocesano do Vicariato – um sinal da confiança depositada na instituição eclesial. Ainda hoje, esta confiança se reflecte nos constantes pedidos das paróquias, embora a Igreja não possa substituir nem pretenda substituir o Estado. Ainda assim, o Vicariato de Iquitos implementou uma série de iniciativas concretas.
“Contamos com o apoio de parceiros fundamentais que nos ajudam a realizar projectos importantes, permitindo-nos apoiar populações vulneráveis na sua luta pelo acesso à água potável, pela protecção de cursos de água como o Rio Marañón, declarado sujeito de direitos em 2024, pela reparação de danos ambientais, pela defesa de lideranças indígenas, pela prevenção de abusos em espaços eclesiais, pelo acolhimento de pessoas sem-abrigo e por sermos parte integrante da oferta educativa da cidade”, referiu o porta-voz do Vicariato Apostólico de Iquitos. No total, cinco escolas paroquiais deste departamento, que sofre de baixos índices de desempenho académico, oferecem um Ensino de elevada qualidade.
Muitas das iniciativas mantêm-se discretas, sendo, no entanto, cruciais para quem delas beneficia. Paolo reconhece que alguns destes projectos encontram resistência nos meios eclesiais, mas sublinha: “Ajamos à luz do Evangelho”. Inspirados pelo apelo bíblico para «ouvir o clamor dos pobres e dos fracos» (Êxodo 3, 7–9), os Vicariatos Apostólicos do Loreto convocam à responsabilidade e convidam toda a sociedade a participar nesta urgente tarefa de conversão social, política e pastoral.

Joaquim Magalhães de Castro

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