A Igreja e o populismo na Europa

Velho continente sob a ameaça do nacionalismo

A Igreja e o populismo na Europa.

Sob o olhar atento de uma Igreja e de um Pontífice que têm memória (e principalmente memória histórica), assiste-se hoje à (re)emergência de correntes nacionalistas radicais por todo o espaço europeu, com maior ênfase, para já, em França, na Alemanha, no Reino Unido, na Áustria e na Hungria.

Mais a norte, a Rússia desperta da aparente letargia de um quarto de século, para reafirmar, igualmente, o primado da Nação, com os seus direitos – e com as consequências políticas internacionais que já se conhecem.

Do lado de Berlim e de Paris, mais especificamente, a geração de líderes, nascidos quase todos depois de 1945, tem ecos ainda (felizmente) das tragédias vividas em família e provenientes do apocalipse que foi o segundo conflito mundial.

Como lerá o Papa Francisco todos estes sinais, anunciadores de “novos” tempos – que mais parecem um regresso ao passado (perigoso, como se sabe) do que uma bela aventura, construtora do futuro?

Todas as enfermidades do corpo e do espírito são detectáveis, numa primeira abordagem, pelos seus sintomas, os seus sinais exteriores. Que enfermidades são hoje identificadas no corpo e no espírito da Europa? Duas, principalmente: a falta de solidariedade que é substituída pela xenofobia. E a recusa de abertura ao mundo que é trocada pelo reflexo de protecção identitária, através da adesão ao extremismo político.

O debate sobre o acolhimento de refugiados é sintoma do primeiro mal. E o regresso violento das correntes nacionalistas visa responder ao duplo receio do medo do estrangeiro e do medo de se deixar de ser quem é.

 

Europa, nacionalismo e guerra

Vou ao passado para tentar antecipar o futuro. À luz do passado, o futuro não é risonho, para utilizar um eufemismo.

Releio algo sobre as relações da Igreja com o nazismo e o fascismo, nos anos trinta/quarenta do século passado, e sobre a crítica feroz contra o seu pretenso conluio com ambos os regimes. E também leio sobre a verdade que emerge da sua persistente batalha para salvar vidas humanas, incluindo (e muitos casos principalmente) refugiados e perseguidos judeus.

Quando se quer distorcer a verdade histórica, consegue-se, pelo menos perante os crédulos e os incautos. (Sintomaticamente, não foi Jean-Marie Le Pen, o pai da líder da Frente Nacional Francesa que considerou a execução de seis milhões de judeus um mero… “detalhe” (!!!) da História?).

A Igreja tem pois memória e sabe que o passado se pode repetir. Por isso interessa saber como verá o Vaticano o sentido de voto de milhares e milhares de católicos, numa Europa muito descristianizada e céptica, mas em que, embora minoritária hoje, a matriz cristã permanece como referência.

 

A França e seus fantasmas

As recentes eleições primárias em França, para a escolha, pela direita e pelo centro-direita, de um candidato presidencial para 2017, tiveram o objectivo de unir os partidos dessa área política, a fim de evitarem, no próximo ano, dois resultados eleitorais para si negativos: um mau, a vitória socialista; e o outro catastrófico, a subida ao poder de um Presidente da extrema-direita, no caso a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen.

Se a alternância entre direita moderada e socialismo democrático é interpretada como o funcionamento normal do sistema político, o aumento exponencial das intenções de voto na Frente Nacional é visto como um perigo mortal para o próprio regime político, em vigor desde 1958.

E esta preocupação radica na própria História de França e da Europa, entre as duas guerras mundiais, onde o fundador do nazismo chegou pela via eleitoral ao lugar de Chanceler, com as consequências terríveis que se conhecem.

Repleta de episódios de fractura e desunião, em momentos cruciais da vida política da V República, desde o fim da presidência do seu fundador, o General De Gaulle (1969), e sobretudo do seu sucessor, o Presidente Pompidou (1974), o sector moderado à direita do PS sente hoje um perigo iminente de vir a ser suplantado por uma formação radical que bem poderá, repito, simbolizar o estertor da própria democracia representativa em França…

…e, por um efeito de dominó, em toda a Europa.

 

Razões actuais de um mal antigo

Dois receios principais influenciam poderosamente a percepção do seu país pelo francês comum: a perda de emprego, devido a uma economia em declínio; e a perda de identidade, numa sociedade que se dirige, a passos largos, e por força das circunstâncias, para uma forma vaga e preocupante de multiculturalismo.

Tal modelo, se modelo existe, tende a desvalorizar o núcleo de valores essenciais da Nação Francesa. E isto a favor de um código de conduta mal definido, “regulando” pela… inacção do poder político, de algum modo ultrapassado pelo fenómeno, a coexistência multiétnica e multi-religiosa entre os que sempre estiveram, os que chegaram… e os que continuam a chegar.

Se tal evolução, que se iniciou pelo menos há quatro décadas, representou apenas, até há dez ou quinze anos, não mais do que uma preocupação (crescente, embora), é agora erigida em “perigo existencial” da própria coesão nacional. Quais as razões? Complexas, certamente.

Aqui interagem os fenómenos conjugados da imigração magrebina não controlada; a recente crise dos refugiados de África e do Médio Oriente; e a rápida expansão e violência das diferentes correntes extremistas do Islão político: xiita, primeiro, com a revolução de Khomeini; e, desde a invasão do Iraque e a queda do regime de Saddam Hussein, principalmente sunita.

A França, como o Reino Unido, aliás, outro dos países europeus ex-colonizadores com forte implantação de comunidades do ex-império, não foi bem sucedida nas políticas de integração adoptados, se políticas houve, merecedoras desse nome.

Com todos os erros em que se incorre quando se generaliza, poderá dizer-se que, em França, as medidas de integração ou e de assimilação oscilaram entre uma direita que queria fabricar franceses à força; e uma esquerda demasiado protectora das identidades originárias, criando rasgões duradouros num tecido social nacional que clamava por coerência – e por vontade política para a definir e implementar.

As dificuldades de tal processo só se agravaram com a virulência do islamismo político e com a vaga de refugiados.

O Brexit e a eleição de Donald Trump, cada facto de forma diferente mas convergente, vieram reforçar a ideia de uma Europa que se desintegra, porque os povos se revoltam contra o sistema.

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François Mitterrand, o falecido Presidente francês, dizia no seu último discurso perante o Parlamento Europeu em Estrasburgo que «nacionalismo na Europa equivale a guerra».

Uma mensagem decisiva esta, aos novos líderes que se perfilam já, numa Europa pós-Brexit, Frexit, Austrexit, etc. etc.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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