Justiça, igualdade, moralidade
A visita do Papa Leão XIV a Angola gerou grande comoção espiritual e deixa um legado de esperança, num país onde a pobreza e as assimetrias sociais ainda estão na ordem do dia. Para três angolanos ouvidos pel’O CLARIM – um sacerdote, um professor universitário e uma estudante – as palavras do Santo Padre devem ser entendidas como um incentivo para que o maior país africano de expressão portuguesa se “olhe ao espelho” e transforme valores como a justiça social e a dignidade humana em prioridades.
O Papa Leão XIV encerrou na terça-feira uma visita de três dias a Angola, a terceira de um Sumo Pontífice ao país das palancas-negras. Em território angolano, o Santo Padre não se absteve de abordar temas sensíveis, como as desigualdades sociais, a corrupção e a concentração desigual da riqueza, numa visita em que apelou por mais de uma ocasião à reconciliação, à paz e à justiça.
Para o padre Bantu Mendonça Sayla, director do Gabinete da Comissão Episcopal para a Comunicação Social da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), as intervenções que Leão XIV fez em Kilamba, no Santuário de Nossa Senhora da Muxima e na cidade de Saurimo, no Leste do País, reflectem problemas concretos. O sacerdote argumenta que os apelos feitos devem ser entendidos não apenas como um convite à reflexão, mas também como um impulso para que o povo angolano desenvolva acções concretas que levem à edificação de uma sociedade mais justa e mais igualitária. «Num país onde os que têm muito se vangloriam por terem o que têm e querem ter ainda mais, explorando os pobres, é necessário que todos trabalhem na paz definitiva, a paz dos corações. O Papa enfatizou fortemente a reconciliação social e a superação de feridas históricas. Do meu ponto de vista, acho que mensagem do Papa pode contribuir muito para a reconciliação em Angola», disse o também director da Rádio Ecclesia, da diocese de Benguela.
«O Santo Padre desafia-nos a buscar acções concretas, desafia-nos a aproximarmo-nos uns dos outros, a dialogar mais. Desafia-nos a excluir do nosso meio eventuais complexos de superioridade e de inferioridade. Nesse sentido, é importante que nos possamos sentar à mesma mesa e que possamos olhar nos olhos uns dos outros. Este gesto poderá permitir que o mal desapareça e o bem se aproxime», acrescenta o padre Bantu Sayla, em declarações a’O CLARIM.
Rendida às intervenções papais, Shelcia Rafaela Teixeira acredita que as palavras de Leão XIV podem servir de catalisador para mudanças concretas. A jovem estudante de Economia, com dezanove anos de idade, considera que o principal legado da visita a Angola foi o apelo à construção de uma sociedade mais justa. «O Papa falou de justiça social, de um país mais justo e da importância de dividir a riqueza, para que a riqueza deixe de ser um bolo concentrado nas mãos de um pequeno grupo, enquanto a maioria da população está a sofrer. Acho que esta visita do Papa a Angola vai servir para que todos os angolanos, tanto das classes mais altas, como das classes mais baixas, façam a sua própria reflexão social», refere, complementando: «No fundo, semeou a esperança numa Angola mais justa, onde possa haver maior igualdade».
REACENDER A LUZ DA FÉ
Durante os três dias da visita do Papa Leão XIV a Angola, milhares de pessoas acompanharam a par e passo as intervenções do Pontífice ao longo dos vários momentos da deslocação. Num país de maioria católica, o périplo angolano é também entendido como um sinal de esperança para os católicos angolanos, face à expansão do Islão e das denominações evangélicas. Shelcia Teixeira espera que as intervenções do Papa em Kilamba, na Muxima e no Saurimo possam ajudar a promover, junto dos jovens angolanos, uma maior dedicação à fé e à vida da Igreja. «Acho que um dos grandes desafios que a Igreja enfrenta em Angola é o desânimo, para além da dignidade humana e da falta de cultura. Digo o desanimo porque, às vezes, principalmente entre os jovens, não há aquela coragem, não há aquele ânimo para que possam assumir as suas responsabilidades dentro da Igreja. Eu acho que o Papa veio acender essa luz», defende a estudante universitária.
O desafio, argumenta Domingos das Neves, não é exclusivo da juventude angolana e deve ser assumido por todos os católicos do País, independentemente da idade. Para o professor universitário e especialista em Direito Canónico, a mensagem que Leão XIV deixou em Angola deve ser interiorizada, estudada e divulgada com maior insistência, para que não caia na poeira do esquecimento. «Um dos grandes desafios da Igreja Católica em Angola é, a meu ver, a urgente formação de uma consciência do laicado seriamente comprometido e com bases sólidas da Doutrina Social da Igreja. Temos ainda um laicado muito de sacristia, excessivamente apegado às ordens dos clérigos. A formação de uma consciência laical capaz de correr riscos e assumir as suas responsabilidades na esfera social, política e económica, ajudaria muito a Igreja no seu testemunho evangélico. Num país de maioria cristã, como é o nosso caso, não se justifica o escândalo da corrupção, das assimetrias sociais e económicas, das injustiças sociais», assinala o docente e investigador da Universidade Católica de Angola. «A nossa Igreja, presente em Angola, pelos anos que tem de evangelização, é uma igreja madura e, agora, também missionária. Temos vários sacerdotes, religiosos e religiosas em missão nos quatro cantos do globo. Creio que o grande desafio da Igreja no seu todo é reforçar a formação intelectual e espiritual dos futuros sacerdotes, religiosos e religiosas, porque o mundo é cada vez e sempre mais exigente, e a Igreja precisa de mulheres e homens muito bem preparados cultural, espiritual e intelectualmente. Precisamos de homens e mulheres com fortes convicções e com fé integra e coerência de vida. Só assim é que a Igreja será capaz de testemunhar Cristo neste nosso país que tem fome e sede de Deus», remata o também comentador da Emissora Católica de Angola para os assuntos políticos e sociais.
Marco Carvalho

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