SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI – Ano A – 7 de Junho

SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI – Ano A – 7 de Junho

O Corpo Frágil

A Solenidade de Corpus Christi (ou Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo) coloca diante de nós um corpo. Não uma ideia. Não uma memória. Um corpo. Carne. Sangue. Pão. Vinho. O evangelista João, no sexto capítulo (João 6, 51–58), não nos apresenta a narrativa da instituição da Última Ceia. Em vez disso, apresenta-nos um longo discurso no qual Jesus insiste: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele». A multidão fica chocada. Nós também nos habituámos ao choque. Mas deixemos de lado a familiaridade e confrontemo-nos com o facto puro: Deus dá-se a si mesmo como alimento. Alimento que deve ser comido, mastigado, engolido, digerido. Este é o escândalo desta festa.

O cenário do Evangelho de Corpus Christi – a multiplicação dos pães no relato de João – é deliberadamente organizado para ecoar o Sinai. «Este é um lugar deserto», dizem os discípulos; tal como Israel que vagueava pelo deserto. Moisés deu o maná do céu; Jesus dá o pão do céu. E tal como Moisés instruiu Aarão para guardar um jarro de maná na Arca da Aliança como sinal da providência incessante de Deus (cf. Êxodo 16, 33-34), assim Jesus ordena aos discípulos que recolham os pedaços para que nada se perca. O maná na arca era uma memória. A Eucaristia não é uma memória. É uma presença que permanece. Mais tarde, no Templo, os sacerdotes guardavam doze pães da presença, trocados a cada sábado, sendo os pães antigos consumidos pelos sacerdotes. Isto também era uma sombra. A realidade é esta: Deus não se limita a colocar pão num lugar sagrado como símbolo. Deus coloca o seu próprio corpo nas nossas mãos, na nossa boca, nos nossos corpos. A Eucaristia é o cumprimento do antigo desejo de Deus de viver para sempre com a Humanidade.

Mas há outra camada que é mais íntima. A Última Ceia foi uma refeição pascal. Toda a refeição pascal exigia um cordeiro assado. No entanto, na Última Ceia, enquanto os discípulos se recostavam à mesa, não havia cordeiro. Um leitor desavisado perguntaria: Onde está o cordeiro? A resposta está sentada à cabeceira da mesa. O próprio Jesus é o cordeiro. Quando ele toma o pão e diz: «Este é o meu corpo», ele está a ocupar o lugar do cordeiro pascal. O pão ázimo e o cordeiro fundem-se num só. O cordeiro que libertou Israel da escravidão no Egipto, cujo sangue marcou as portas para que a morte passasse por cima – esse cordeiro é agora Jesus. O seu sangue seria espalhado não nos umbrais das casas, mas no umbral do Reino de Deus – a cruz. «Quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá para sempre». Ele não está a falar de um símbolo. Está a falar de uma nova Páscoa: da escravidão do pecado para a liberdade da vida eterna.

Mas temos de ter cuidado. O cordeiro pascal não é o mesmo que o bode expiatório. O bode expiatório, utilizado no Yom Kippur, recebia os pecados do povo e era enviado para o deserto para ser sacrificado. João Baptista chama a Jesus «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo», e a Carta aos Hebreus associa Jesus a esse ritual do bode expiatório. No entanto, no Evangelho de hoje, a imagem dominante é a do cordeiro pascal. O bode expiatório leva o pecado; o cordeiro pascal salva da morte. Jesus faz ambas as coisas. Ele é a vítima que toma o pecado sobre si e é o alimento que dá vida. A Eucaristia contém ambos os mistérios: o sacrifício de expiação e o alimento da libertação.

Isto leva-nos aos quatro aspectos únicos da nossa fé católica, no que diz respeito à Eucaristia, estando cada um deles enraizado nas Escrituras:

Em primeiro lugar, a Eucaristia é um sacrifício. A própria palavra para o pão eucarístico é “hóstia”, do Latim “hostia”, que significa vítima. Jesus é a vítima. Mas, ao contrário do bode expiatório, que era escolhido pela comunidade, Jesus escolhe-se a si próprio. Ele oferece o seu próprio corpo. Ele torna-se o sacerdote e a vítima.

Em segundo, a Eucaristia é uma refeição. Partilhar uma refeição é a expressão mais profunda de amizade. Mas aqui, aquele que partilha a refeição dá a sua própria carne para ser comida. Isto não é uma amizade entre iguais. É um amor que não retém nada, nem mesmo o corpo.

Terceiro, a Eucaristia é uma aliança. No antigo ritual de sacrifício, o sangue do animal era aspergido sobre os participantes para selar a aliança. Na Última Ceia, Jesus oferece o seu sangue como a nova aliança. Mas reparem no risco. Numa aliança, ambas as partes têm obrigações. Jesus entrega o seu corpo nas mãos dos seus discípulos – mãos que irão traí-lo, negá-lo e fugir. Ele entrega o seu corpo para ser partido, para ser comido, para ser potencialmente profanado. Ele torna-se vulnerável à indiferença, à rotina, à incredulidade. Esse é o risco do amor. E ele assume-o de boa vontade.

Em quarto lugar, a Eucaristia é a presença real de Cristo. Não é um símbolo. Não é uma memória. É o seu corpo. É o seu sangue. O pão da presença no Templo era um sinal da proximidade de Deus. A Eucaristia é a proximidade de Deus tornada tangível, comestível, incorporável. Quando comemos comida comum, ela torna-se parte de nós. Quando comemos esta comida, tornamo-nos parte dela. «Permanece em mim e eu nele», diz Jesus. Esta é uma união mais íntima do que qualquer outra.

A fragilidade da Eucaristia – um pequeno pedaço de pão que pode cair, perder-se, até mesmo ser profanado – não é um acidente. É uma revelação. O corpo de Deus é frágil. E essa fragilidade estende-se a todos os corpos humanos. O corpo do pobre, o corpo do nascituro, o corpo do moribundo, o corpo do inimigo, o corpo do migrante. Receber a Eucaristia é dizer sim à protecção de cada corpo frágil, porque cada corpo é um sacramento da presença de Deus. As mesmas mãos que seguram a hóstia devem segurar os feridos. A mesma boca que consome Cristo deve falar por aqueles cujos corpos estão quebrados pela violência, pela fome ou pela negligência.

Corpus Christi não é uma festa sobre uma coisa. É uma festa sobre um corpo. Um corpo oferecido. Um corpo comido. Um corpo que permanece, frágil e invencível, no sacrário e nas ruas. Comer esse corpo é tornar-se esse corpo. E tornar-se esse corpo é ser partido pela vida do mundo. Essa é a intimidade impensável. Esse é o corpo frágil de Deus.

Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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