SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Ano A – 31 de Maio

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Ano A – 31 de Maio

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Sempre que nós, católicos, rezamos, começamos e terminamos com estas palavras, enquanto fazemos o sinal da cruz. Ao fazê-lo, professamos a nossa fé num só Deus em três Pessoas e recordamos o maior mistério da nossa fé. A liturgia de hoje traz à nossa mente e ao nosso coração esta verdade fundamental.

“MISTÉRIO”

No Catolicismo, a palavra “mistério” tem um significado peculiar. Quando dizemos que algo é um mistério, não nos referimos a um enigma que não conseguimos resolver. Vamos destacar algumas características do conceito católico de mistério.

Em primeiro lugar, a palavra “Mistério” refere-se a um facto, a uma verdade, que não pode ser descoberta apenas pela razão humana. Um mistério não pode ser descoberto pela razão humana por si só. A razão precisa de outra fonte de dados, diferente da própria razão, para conhecer um mistério. Se usássemos uma metáfora, um mistério é como a vossa data de nascimento. Por mais inteligentes que sejam, a inteligência por si só não vos ajudará a descobrir a data em que nasceram. Precisam de outra pessoa – uma testemunha – para vos dizer quando vieram ao mundo. Mas, assim que o sabem, compreendem. Além disso, um mistério sobrenatural é uma realidade que a razão humana só pode conhecer com os dados fornecidos pela fé. Um mistério sobrenatural ultrapassa a nossa compreensão humana limitada, mas permanece completamente verdadeiro e é revelado por Deus para nos convidar a uma relação mais profunda com Ele.

Em segundo lugar, apesar de estar além do alcance da razão humana, um mistério não contradiz o nosso intelecto. Na verdade, um mistério amplia o alcance do nosso intelecto. Um mistério não é irracional. Pelo contrário, é supra-racional, vai além da esfera que a razão humana consegue alcançar por si só. Como Deus é infinito, a mente humana finita nunca O poderá compreender plenamente.

Em terceiro lugar, o próprio Deus revela-nos estas verdades através de Jesus Cristo. A nossa razão precisa da ajuda de uma testemunha e Jesus Cristo é a testemunha principal, aquele que ajuda a nossa razão, aquele que nos informa sobre estas verdades. Os ensinamentos de Jesus que Ele entregou aos seus apóstolos e que os apóstolos transmitiram até aos nossos dias através da Igreja estão contidos e trazidos à luz naquilo a que chamamos “Depósito da Revelação” (Sagrada Escritura e Sagrada Tradição), para que a Humanidade possa compreender Deus e o seu plano de salvação. É por isso que dizemos que a Fé Católica é uma religião revelada, não uma mera religião descoberta por alguma pessoa inteligente e carismática.

Em quarto lugar, os mistérios são um convite a uma relação com Aquele que nos conhece melhor do que nós próprios e nos ama mais do que nós nos amamos. Deus não se limita a informar-nos. Deus apresenta-Se a nós, fala-nos de Si mesmo para que possamos tornar-nos Seus amigos. A nossa relação com Deus convida-nos, assim, em primeiro lugar, a uma meditação em oração sobre as coisas que Ele nos diz sobre Si mesmo. Os crentes são chamados a crescer constantemente na compreensão destas verdades com a ajuda da graça.

TRÊS EM UM

Agora, no que diz respeito ao mistério da Santíssima Trindade, foi o próprio Jesus Cristo quem nos revelou a vida interior de Deus. O Novo Testamento não contém a palavra “Trindade”, mas revela um único Deus existente em três Pessoas co-iguais e co-eternas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A fórmula trinitária mais clara e directa no Novo Testamento encontra-se na passagem de Mateus 28, 19: «Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Jesus ordena o baptismo num “nome” singular (indicando uma única natureza ou essência), ao mesmo tempo que distingue claramente três Pessoas distintas. Essência ou natureza aponta para o que algo é (neste caso, Deus), enquanto Pessoa aponta para quem alguém é (Pai, Filho, Espírito Santo).

Podemos perguntar: mas o que é que o número de Pessoas tem a ver comigo? Não basta rezar a um único Deus? Qual é a relevância da Trindade na minha vida?

Costumo usar uma metáfora para explicar o papel de cada uma das Pessoas na vida de cada cristão. Provavelmente recordamo-nos das palavras que Jesus proferiu na Última Ceia: «Na casa do meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, teria eu dito que vou preparar-vos lugar?» (João 14, 2). Assim, podemos dizer que ser salvo e tornar-se santo é como construir a nossa casa no céu.

Para construir uma casa, primeiro precisamos de um arquitecto, um projetista. Foi isso que o Pai fez por nós: «Porque nele nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis aos seus olhos» (Efésios 1, 4). Em tudo o que fazemos, é aconselhável voltar-nos para Aquele que planeou tudo com infinita sabedoria e amor, para ver se estamos no caminho certo e corrigir o nosso rumo, caso não estejamos.

Mas os planos não bastam. Precisamos de dinheiro para construir uma casa. É por isso que Jesus Cristo se fez Homem, sofreu, morreu, foi sepultado e ressuscitou, para que pudesse dar o sinal da nossa casa. «O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate por muitos» (Mateus 20, 28). Cabe-nos a nós pagar o resto, as prestações, através dos altos e baixos da nossa vida quotidiana que unimos ao sacrifício de Cristo. «Eu completo na minha carne o que falta às aflições de Cristo, em favor do seu corpo, que é a Igreja» (Colossenses 1, 24).

A casa está planeada, está financiada, mas ainda precisa de ser construída. O Espírito Santo desempenha esse papel. “O Espírito edifica, anima e santifica a Igreja: Espírito de Amor, Ele torna a dar aos baptizados a semelhança divina perdida por causa do pecado e fá-los viver em Cristo da própria Vida da Santíssima Trindade. Envia-os a testemunhar a Verdade de Cristo e organiza-os nas suas mútuas funções, para que todos dêem «o fruto do Espírito» (Gal., 5, 22)” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica n.º 145).

Vemos, assim, quão importantes são o Pai, o Filho e o Espírito Santo para cada um de nós. Sempre que fizermos o sinal da cruz, coloquemo-nos humildemente na presença criadora, salvífica e santificadora da Santíssima Trindade.

“Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém!”.

Pe. José Mario Mandía

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *