N.d.R.: A Igreja em Macau celebra a Festa de São Josemaria Escrivá, no próximo dia 26 de Junho, sexta-feira. A Missa Solene em honra do fundador do Opus Dei será presidida pelo bispo D. Stephen Lee, na igreja da Sé Catedral, às 19:00 horas. Há confissões entre as 17 e 30 e as 18 e 30 horas. O CLARIM publica um artigo da autoria de MONSENHOR ROGER LANDRY, publicado em Junho de 2025 no National Catholic Register (Grupo EWTN).
O dia 26 de Junho de 2025 marcou o quinquagésimo aniversário da morte e do nascimento para a vida eterna de São Josemaria Escrivá (1902-1975), fundador do Opus Dei. São João Paulo II chamou-o de «o santo da vida quotidiana», mas poderíamos também designá-lo, com toda a justiça, como o apóstolo dos leigos e o arauto do apelo universal à santidade.
São Josemaria trouxe uma revolução à Igreja que nunca podemos dar como garantida.
Sessenta anos após a conclusão do Concílio Vaticano II, o seu ensinamento mais importante sobre o “chamamento universal à santidade” é agora tão amplamente conhecido e pregado que muitos presumem que isso tenha sido claro para os cristãos desde o início. Afinal, o chamamento à santidade é tão antigo quanto a nossa criação, à imagem e semelhança do nosso Deus – três vezes santo. Além disso, Deus chamou-nos explicitamente a «ser santos, como eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv., 20, 7) e Jesus, a santidade encarnada, exortou-nos a «ser perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito» (Mt., 5, 48), através do amor aos outros, tal como Ele nos amou primeiro (cf. Jo., 15, 12). Este padrão claro para toda a vida cristã, no entanto, foi diluído ao longo dos séculos. Muitos passaram a pensar que, para ser santo, era preciso viver num “estado de perfeição” como uma freira de clausura, um monge, um eremita, um padre ou um religioso. Estes eram os poucos privilegiados de quem se esperava que obtivessem um A+ no dom da vida. Os restantes baptizados eram cristãos de segunda classe, numa trajectória de “aprovação ou reprovação”, limitados a uma versão simplificada do Evangelho e a tentar ajudar o clero e os religiosos no seu trabalho eclesial. É claro que, ao longo dos séculos, houve vozes que clamavam no deserto, exortando os leigos à santidade, como São Francisco de Sales na sua “Introdução à Vida Devota” (vida santa), mas as suas mensagens nunca tiveram realmente grande repercussão na mentalidade e na prática da Igreja. Então surgiu São Josemaria, que, em 1928, enquanto jovem sacerdote espanhol, descobriu que Deus o chamava para ajudar a grande maioria dos membros da Igreja – leigos e, mais tarde, sacerdotes diocesanos – a buscar a santidade no meio da sua vida quotidiana. Chamou àquilo que acreditava que Deus o desafiava a fazer “Opus Dei”, com o objectivo de ajudar as pessoas a converter as suas tarefas diárias numa “obra de Deus”. O Opus Dei, disse ele certa vez numa entrevista, foi criado para “fomentar a busca da santidade e o exercício do apostolado por parte dos cristãos que vivem no mundo, independentemente do seu estado de vida ou posição na sociedade”. A Obra nasceu para ajudar esses cristãos, que através da sua família, das suas amizades, do seu trabalho quotidiano, das suas aspirações, fazem parte da própria trama da sociedade civil, a compreender que a sua vida, tal como é, pode ser uma oportunidade para encontrar Cristo: que é um caminho de santidade e de apostolado.
“Uma vez que Deus deseja que a maioria dos cristãos permaneça nas actividades seculares e santifique o mundo a partir de dentro”, continuou ele, “o objectivo do Opus Dei é ajudá-los a descobrir a sua missão divina, mostrando-lhes que a sua vocação humana – a sua vocação profissional, familiar e social – não se opõe à sua vocação sobrenatural. Pelo contrário, é parte integrante dela”.
Muitos consideraram a mensagem e a obra de São Josemaria controversas, alguns até heréticas. Embora poucos na Igreja se oponham, e a maioria aprecie, quando um leigo é genuinamente santo, é algo diferente quando um sacerdote começa a pregar que Deus chama os leigos a tornarem-se não apenas bons, mas santos, para não mencionar que os leigos podem tornar-se santos bem no meio do mundo, no meio de tarefas aparentemente mundanas. Essa mensagem foi, antes de mais nada, considerada perigosa e prejudicial à promoção das vocações ao sacerdócio e à vida religiosa: se os jovens que sentiam um chamamento à grandeza cristã reconhecessem que, com a graça de Deus, poderiam alcançá-la sem se dirigirem ao seminário ou ao convento, muitos o fariam – e, de facto, fizeram-no. Depois, foi considerada prejudicial por muitos por “pressionar” as pessoas a viver de acordo com um padrão de vida que poucos poderiam alcançar, conscientes de que, ao reconhecerem que a maioria não tem hipótese de alcançar a grandeza, poderiam simplesmente desistir da boa luta, abandonar a corrida e abandonar a fé.
Apesar da oposição e da incompreensão, dos perigos e privações da Guerra Civil Espanhola, bem como das dificuldades e provações inerentes a praticamente qualquer fundador de uma obra eclesiástica, São Josemaria perseverou fielmente, buscando a santidade no meio das suas tarefas quotidianas, enquanto procurava ser um instrumento para a santificação dos outros e da Igreja. São João Paulo II disse sobre São Josemaria no dia seguinte à sua canonização, em 2002: «São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a vocação universal à santidade e para mostrar que a vida quotidiana e as actividades comuns são um caminho para a santidade. Poderia dizer-se que ele foi o santo da vida comum. De facto, estava convencido de que, para quem vive com uma perspectiva de fé, tudo é uma oportunidade para encontrar Deus, tudo pode ser um incentivo à oração. Vista sob esta luz, a vida quotidiana revela uma grandeza inesperada. A santidade está verdadeiramente ao alcance de todos». São João Paulo II dedicou o seu Pontificado a tentar pôr em prática a mensagem que Deus tinha confiado a São Josemaria e que o Concílio Vaticano II proclamou. Canonizou 482 homens e mulheres de todas as condições sociais e beatificou outros mil e 338. E no seu plano pastoral para o terceiro milénio cristão, “Novo Millennio Ineunte”, publicado no ano anterior à canonização de São Josemaria, reforçou as expectativas que decorrem do baptismo e a forma como tudo o que a Igreja faz tem como objectivo conduzir ao cumprimento das graças e promessas baptismais de cada um. “Uma vez que o Baptismo”, escreveu João Paulo II, “é uma verdadeira entrada na santidade de Deus através da incorporação em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria uma contradição contentar-se com uma vida de mediocridade, marcada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar aos catecúmenos se ‘Desejam receber o Baptismo’ significa, ao mesmo tempo, perguntar-lhes se ‘Desejam tornar-se santos’. Significa colocar diante deles a natureza radical do Sermão da Montanha: «Sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito»” (Mt., 5, 48). E continuou: “Este ideal de perfeição não deve ser mal interpretado como se implicasse algum tipo de existência extraordinária, possível apenas para alguns ‘heróis invulgares’ da santidade. (…) Chegou o momento de propor de novo, com todo o coração, a todos este elevado padrão de vida cristã comum: toda a vida da comunidade cristã (…) deve caminhar nessa direcção. É também claro, porém, que os caminhos para a santidade são pessoais e exigem uma verdadeira ‘formação para a santidade’, adaptada às necessidades das pessoas. Esta formação deve integrar os recursos oferecidos a todos, tanto as formas tradicionais de assistência individual e em grupo, como as formas mais recentes de apoio oferecidas em associações e movimentos reconhecidos pela Igreja”. O Opus Dei é uma dessas formas de assistência e apoio, contando actualmente com 94 mil membros, dos quais sessenta por cento são mulheres e 74 por cento são casados, e pouco mais de dois mil e 100 sacerdotes seculares. É especializado na “formação para a santidade” para aqueles que vivem no meio do mundo, tornando o apelo à santidade prático através do que São Josemaria chamava de “plano de vida”, uma série de práticas diárias para manter a presença de Deus ao longo do dia. Forma os membros a santificar o trabalho quotidiano que constitui a grande maioria da sua vida – sejam tarefas intelectuais ou físicas, no escritório ou em casa –, aprendendo a fazer, como São Josemaria uma vez brincou, “versos heróicos a partir da prosa de cada dia”. Na prática, significa aprender a oferecer o próprio trabalho como o sacrifício agradável de Abel, a fazê-lo por amor a Deus e por aqueles que dele beneficiarão. Através desse trabalho, é possível, ao mesmo tempo, crescer em santidade pelas virtudes adquiridas no trabalho bem feito, bem como servir de instrumento de santificação – sal, luz e fermento – para aqueles com quem se trabalha, através da amizade e do bom exemplo.
Conheci o Opus Dei pela primeira vez quando era caloiro na faculdade. A agora famosa reflexão de São Josemaria, “Estas crises do mundo são crises de santos”, cativou-me e ajudou-me a converter as minhas ambições humanas em ambições santas. Assim que compreendi que a minha vocação fundamental na vida era tornar-me santo, tornou-se mais fácil para mim discernir definitivamente e seguir a minha vocação, não apenas para ser sacerdote, mas para me esforçar por ser um sacerdote santo. Comecei a viver segundo um plano de vida e, mais tarde, escreveria um livro sobre isso. Embora seja relativamente simples para um sacerdote santificar a sua pregação e a celebração dos Sacramentos, a espiritualidade da santificação do trabalho quotidiano ensinada pelo Opus Dei ajudou-me verdadeiramente a integrar todas as outras tarefas do trabalho quotidiano de um sacerdote diocesano – montanhas de papelada, consertar sanitas avariadas, supervisionar o pessoal, lidar pacientemente com paroquianos por vezes exigentes – numa unidade de vida em busca da santidade.
São Josemaria ensinou-me que, independentemente das crises ou dos problemas que eu enfrentasse, grandes ou pequenos, o remédio mais importante era e continua a ser Deus, e que a nossa tarefa fundamental é, tal como os santos, cooperar com Ele. A celebração, em 2025, do quinquagésimo aniversário do culminar da busca pela santidade que marcou toda a vida de São Josemaria foi uma oportunidade para que todos na Igreja agradecessem a Deus pelas graças que Lhe foram concedidas. Estas ajudaram a Igreja, através do Concílio Vaticano II, a compreender muito melhor o sentido da vida cristã, bem como a missão da Igreja como uma escola profissional que forma as pessoas para a santidade e para o céu.
Foto: Celebração da Festa de São Josemaria Escrivá, em 2024.

Follow