João Baptista: a Voz que se calou para a Palavra falar
O sol do deserto era como um martelo a bater na pedra, o ar um forno que transformava toda a vaidade em pó. Neste cadinho de solidão, movia-se um homem vestido com pêlo de camelo, cuja voz não era a sua, mas sim um instrumento emprestado pelo vento. «Preparai o caminho do Senhor! Endireitai as suas veredas!».
Então, vieram ter com ele. Os curiosos, os convictos, os desesperados. Um rio de humanidade a fluir para o deserto para ser recebido por uma voz. Ele permanecia de pé no Jordão lamacento, a sua própria figura tão magra e resistente como uma raiz do deserto, e mergulhava-os debaixo de água, num ritual de purificação, de antecipação. Ele era o arauto, o precursor, aquele que clamava no deserto. Ele era a Voz.
E uma Voz sabe que o seu propósito é desvanecer-se no ar, morrer sem eco, para que quem ouve se volte para a Fonte do som.
Ele lembrou-se do dia em que todo o seu propósito se cumpriu e se tornou obsoleto. Jesus de Nazaré tinha chegado ao rio. A multidão abriu-se, sentindo uma gravidade diferente neste homem. O próprio espírito de João tinha saltado dentro dele. «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!». Ele tinha baptizado o seu próprio primo e, quando Jesus saiu da água, os próprios céus abriram-se. Uma pomba. Uma proclamação. A Voz tinha proferido as suas palavras mais importantes e, agora, a sua obra estava concluída.
A partir daquele momento, as multidões em torno de João foram-se dissipando, fluindo como areia em direcção ao novo Profeta da Galileia. Os próprios discípulos de João aproximaram-se dele, com os rostos marcados por uma inveja que ele teve de repreender. «Ele deve crescer, mas eu devo diminuir», disse-lhes ele, palavras que não tinham um sabor amargo, mas sim de uma verdade conquistada com esforço. A noiva pertence ao noivo. O amigo do noivo fica ao seu lado, ouve-o e regozija-se grandemente com a voz do noivo. Por isso, a minha alegria está agora completa. A sua alegria residia na sua própria obsolescência.
Mas uma Voz que proclama a verdade de Deus não pode ser silenciada simplesmente porque a sua tarefa principal está concluída. Ela fala até ser silenciada.
Ele falou contra Herodes. As palavras não foram ditas por uma questão de segurança; eram simplesmente verdadeiras, pedras afiadas de julgamento lançadas contra o palácio do pecado. «Não te é lícito ter a mulher do teu irmão». As palavras ecoaram nos salões de mármore, chegando aos ouvidos de Herodias, onde se transformaram num ódio venenoso.
O preço foi uma cela fria e escura, escavada na rocha sob a fortaleza de Maqueronte. O céu do deserto foi substituído por um tecto de pedra. O rugido do vento foi substituído pelo pingar da água e pelas orações murmuradas dos seus poucos seguidores que ainda restavam. Aqui, a Voz estava aprisionada, o seu som absorvido pelas paredes húmidas. O grande e vasto propósito tinha-se reduzido a isto: uma tigela de mingau, um raio de luz proveniente de uma janela alta e a dor da dúvida.
Teria ele estado errado? Seria Ele o que havia de vir, ou deveriam procurar outro? Até a Voz precisava de confirmação. Enviou os seus discípulos a Jesus. A resposta chegou não em termos teológicos, mas como testemunho: «Ide e dizei a João o que vistes e ouvistes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é pregada a boa nova». As obras do Messias. A prova estava nos frutos.
A dúvida dissipou-se. O seu propósito mantinha-se. Ele iria diminuir. Mesmo ali, na escuridão.
O final foi uma paródia grotesca de um banquete real. O cheiro a carne assada e a vinho barato, o som de risos embriagados e uma rapariga a dançar para ganhar a aprovação de tolos. Um juramento tolo, feito para impressionar. Um pedido sussurrado por uma mãe vingativa. «A cabeça de João Baptista».
O soldado entrou na cela. João ergueu os olhos. Não viu a espada do carrasco, mas sim o caminho recto, agora traçado especialmente para ele. Tinha preparado o caminho para o Senhor, e agora o Senhor estava a preparar o caminho para ele. A Voz seria silenciada, para que a Palavra pudesse ressoar para sempre.
Não houve um último sermão. Nenhum grito final no deserto. Apenas o som breve e brutal do aço e, em seguida, um silêncio tão profundo que era, por si só, um testemunho.
Enterraram o seu corpo numa sepultura sem identificação, um segredo que os seus seguidores guardavam nos seus corações despedaçados. Herodes, diziam eles, estava assombrado, temendo que o fantasma do homem que decapitou fosse o Profeta que não tinha sabido reconhecer.
Mas nos anos que se seguiram, à medida que a Palavra se espalhava de Jerusalém para a Judeia e até aos confins da terra, o eco da Voz não foi encontrado num santuário, mas no vazio que ele tinha deixado para trás.
Pedro, pregando no Pentecostes, começaria assim: «Isto é o que foi proferido pelo profeta Joel…». Ele foi o início do novo som.
Paulo, traçando a linha da História da Salvação, diria: «João baptizou com o baptismo do arrependimento, dizendo ao povo para acreditar naquele que viria depois dele, ou seja, Jesus».
A Voz tinha-se extinguido sem eco no deserto, mas gravou as primeiras e cruciais palavras no coração atento do mundo. Ele não deixou qualquer vestígio de si mesmo – nem escritos, nem escola, nem monumento – para que cada sinal de arrependimento, cada caminho recto, cada alma preparada apontasse apenas para Cristo.
Chamavam a Jesus «o Cordeiro de Deus» e, ao fazê-lo, recordavam a Voz que primeiro O nomeou.
Submeteram-se ao baptismo e, ao emergirem da água, cumpriram a profecia que Ele iniciara.
Ele era o amigo do noivo, e a sua grande obra consistiu em recuar para as sombras no momento em que o casamento teve início, a sua alegria tornada perfeita no seu desaparecimento.
Pois o que é uma Voz, uma vez que a Mensagem foi transmitida?
É a memória de uma promessa, agora cumprida.
É o pioneiro, perdido na terra que descobriu.
É o homem que dedicou toda a sua vida a uma única frase, para que o mundo soubesse para sempre como tudo termina:
«Eis o Cordeiro de Deus».
Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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