O Homem Nascido Cego
A saliva atingiu-lhe as pálpebras com um choque quente e húmido. Ele estremeceu, um instinto de toda uma vida a recuar perante aquele gesto que tantas vezes tinha sido o prelúdio de um insulto ou de uma pedra atirada. Depois, dedos ásperos pela poeira da estrada transformaram a humidade numa pasta arenosa, espalhando lama pelas janelas seladas da sua alma.
Porquê? A pergunta gritava silenciosamente na escuridão da sua mente. Porquê isto? Bastava-lhe dizer uma palavra. Dizem que curou o servo do centurião à distância. Por que tem de ser assim? Mais uma pessoa a cuspir-me. Será isto poder divino, ou apenas mais uma humilhação?
Uma voz cortou a sua dúvida crescente, não suave, mas carregada de uma autoridade que vibrava nos seus próprios ossos: «– Vai, lava-te no tanque de Siloé».
A ordem não deixava margem para discussão. O hábito tomou conta dele. Levantou-se, com as mãos a encontrarem instintivamente as paredes familiares, o caminho já bem trilhado. O gozo da multidão era a sua banda sonora habitual. «– Vai lá lavar a lama do profeta, cego?», perguntavam-lhe entre risos. A dúvida revirava-lhe o estômago. Era uma missão inútil. Mais uma vez, era um espectáculo.
Ajoelhou-se à beira do tanque, sentindo a pedra fresca e familiar sob as palmas das mãos. Com um suspiro que era metade resignação, metade uma esperança final e fugaz, recolheu a água fria nas mãos. Hesitou por um último segundo, com o coração a servir de campo de batalha entre a vergonha e o anseio. Depois, mergulhou as mãos no rosto, esfregando a argila arenosa, desejando apenas livrar-se daquele sacramento estranho e sujo.
A lama soltou-se e foi levada pela água. E com ela, a Luz!
Não foi um amanhecer gradual. Foi uma explosão. Um universo de cor, forma e uma profundidade aterradora e bela despedaçou a escuridão reconfortante e previsível que ele conhecia desde o nascimento. Ele ofegou, com água e lágrimas a escorrerem-lhe pelas bochechas. Viu as suas próprias mãos, enrugadas pela água – as suas mãos! Viu os rostos atónitos e boquiabertos daqueles que diariamente passavam por ele. Viu o céu, um azul tão vasto que o deixava tonto.
Impulsionado por um novo e avassalador impulso, inclinou-se novamente sobre o tanque, não para se lavar, mas para olhar. As ondulações acalmaram-se. Um rosto olhou de volta para ele. Um homem. Tocou na própria bochecha, e o reflexo fez o mesmo. Este sou eu. Este era o rosto que as pessoas tinham compadecido, ridicularizado, chamado de “rosto do cego”. Estava manchado de água e lágrimas, mas era… belo. Era humano, sim, mas naquele momento parecia mais do que isso. Parecia… divino. Era isto que Deus viu quando moldou Adão do barro e lhe soprou vida. Isto era bom. O próprio rosto que ele pensava ser a sua maldição era, à luz da Criação, uma obra-prima.
Cambaleou para casa, chorando não de tristeza, mas do choque puro e avassalador da visão e da auto-descoberta. O seu mundo tinha sido desfeito e refeito num instante.
A alegria durou pouco. Os fariseus chegaram. As suas perguntas não eram de admiração, mas de acusação, uma armadilha à procura da sua presa. Arrastaram-no perante um conselho de rostos carrancudos e de raiva fria e racional.
«– Este homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado», declarou um deles, apontando o dedo no ar.
Outro troçou: «– Nasceste em pecado absoluto; estás a tentar ensinar-nos?».
O homem que agora podia ver olhou para eles, esses pilares da lei que ele sempre tinha ouvido apenas como vozes julgadoras. Viu a tensão à volta das suas bocas, o medo nos seus olhos disfarçado de certeza. O seu testemunho era simples, inabalável: «– Uma coisa eu sei: que, embora fosse cego, agora vejo».
Eles pressionaram-no, distorceram as suas palavras, chamaram os seus pais para que desmentissem a sua experiência. O rosto da sua mãe, quando viu os olhos assustados dela desviarem-se dos seus, foi uma dor mais aguda do que qualquer provocação da infância. Mas, a cada ataque, a sua visão parecia clarear ainda mais. Ele já não estava a discutir sobre uma cura; estava a testemunhar uma verdade que eles se recusavam a ver. Uma centelha de rebeldia, brilhante e nova, acendeu-se dentro dele.
«– Já vos disse, e não quisestes ouvir», afirmou, com a voz a tornar-se mais forte. «– Por que quereis ouvir isso outra vez? Também quereis tornar-vos seus discípulos?».
A sala explodiu. Insultaram-no: «– Tu és discípulo dele, mas nós somos discípulos de Moisés!».
E então, as palavras surgiram-lhe, não do conhecimento, mas da lógica pura e brilhante da sua nova visão: «– Ora, isto é algo espantoso! Vocês não sabem de onde ele vem e, no entanto, ele abriu-me os olhos. Se este homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada».
A bofetada que se seguiu foi a primeira dor física da sua nova vida. O sabor do sangue era metálico e real. As palavras “Nasceste em pecado absoluto, vais dar-nos lições?” foram sussurradas com raiva enquanto o empurravam para fora da sinagoga, para a rua. A pesada porta fechou-se com um estrondo, excomungando-o. Foi expulso da única comunidade que alguma vez conhecera, agora verdadeiramente sozinho num mundo que via.
Sentou-se no passeio, com o pó da rua a assentar na sua nova túnica. A euforia de poder ver tinha desaparecido, substituída por uma dor vazia. Tinha trocado uma vida inteira de cegueira aceite por um momento de visão milagrosa e um futuro de exílio. Terá valido a pena? Conseguia ver o verde vibrante de uma folha, mas também conseguia ver o ódio nos rostos dos seus líderes. O custo desta nova visão era assustadoramente elevado.
Então, uma sombra caiu sobre ele. Ele estremeceu, à espera de mais um golpe.
«– O homem que expulsaram», disse uma voz. Era a voz do tanque. A voz que deu início a tudo. «– Acreditas no Filho do Homem?».
O homem olhou para cima, a pestanejar por entre lágrimas de frustração e medo. A figura recortava-se contra o Sol. «– E quem é ele, senhor, para que eu possa acreditar nele?».
«– Tu já o viste!», exclamou Jesus, e, naquele momento, os olhos do homem abriram-se pela segunda vez. Não para a luz e a cor, mas para a identidade, para o propósito, para o amor. O rosto diante dele não era apenas o rosto de um curador, mas o rosto do Messias. Aquele que o via não como um pecador, um mendigo ou um caso de estudo teológico, mas como um homem que valia a pena restaurar.
«– Senhor, eu creio», disse ele, e aquelas palavras representavam uma rendição mais profunda do que qualquer banho numa piscina. Caiu de joelhos, não por cegueira, mas em adoração. O vazio encheu-se de uma alegria tão intensa que ofuscou o medo. Tinham-no expulsado de um edifício de pedra, mas, sem o saberem, tinham-no lançado para o Reino de Deus. Tinha testemunhado perante uma sala de homens hostis com lógica; agora adorava o autor da Luz com todo o seu coração. O custo não era demasiado elevado; era o preço de entrada.
Anos mais tarde, era uma figura habitual na cidade baixa, já não a mendigar, mas a servir, com um olhar perspicaz e bondoso. Jovens convertidos, a tremer após a sua primeira experiência de perseguição, procuravam-no.
«– Valeu a pena?», perguntavam, com as vozes tensas de ansiedade. «– Ser rejeitado pela tua própria família? Perder o teu lugar?».
O homem sorria, com uma rede de rugas de expressão a espalhar-se pelos cantos dos olhos – olhos que tinham visto tanto as profundezas das trevas como o rosto de Deus.
«– Tiraram-me o meu lugar na sinagoga», partilhou, com voz calma mas firme. «– E, ao fazê-lo, deram-me uma lição que nenhum rabino poderia ensinar: que uma prisão de pedra continua a ser uma prisão, mesmo que tenhas vivido nela toda a tua vida. Ele não me deu apenas a visão. Deu-me um testemunho. Naquele dia, perguntaram-me por uma história sobre o meu passado, sobre o meu pecado. Mas Ele já me tinha dado uma história sobre o meu futuro».
Ele apontava para a comunidade agitada à sua volta – uma mistura de judeus e gregos, escravos e homens livres, todos a trabalharem juntos. «– Chamaram-me pecador e expulsaram-me. Ele chamou-me testemunha e acolheu-me. Aprendi que ver não é apenas perceber a luz, mas reconhecer a verdade, mesmo quando isso nos custa tudo. Alguns heróis empunham espadas. O nosso? Empunhamos um testemunho simples e obstinado: “Eu era cego, e agora vejo”. E essa verdade é uma luz que nenhuma escuridão, nenhuma sinagoga, nenhum conselho de medo poderá jamais extinguir».
Ele não era chamado de “o homem que recuperou a visão”. Para os crentes, era conhecido como “a Testemunha”, o homem que, quando pressionado a retratar a sua história, pregou, em vez disso, o seu primeiro sermão com uma coragem que abalou os alicerces da própria Jerusalém. Recebeu a visão do Messias e devolveu-Lhe a sua voz, uma troca que definiu o resto dos seus dias.
Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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