O Homem Paralisado de Betesda

REFLEXÃO

O Homem Paralisado de Betesda

Já tinha deixado de contar os anos. No início, mantinha a conta – um ano, dois, cinco, dez. Mas, passado algum tempo, os números confundiram-se com a dor nos membros e com o pó que se acumulava à volta do seu colchão. Trinta e oito anos. Foi isso que disse ao estranho. Trinta e oito anos à espera, a observar, a ter esperança. E a ser ignorado.

Falava frequentemente consigo mesmo, não em voz alta, mas nos recantos silenciosos da sua mente, onde a amargura e a saudade tinham feito a sua morada. “Chegam com as sandálias engraxadas, as vestes limpas, os olhos a vasculhar a água como falcões. E quando a agitação começa, saltam. Empurram. Esquecem-se”. Já tinha visto aquilo demasiadas vezes. A água ondulava e, de repente, a multidão avançava, cada pessoa desesperada por ser a primeira. Nem uma única vez alguém se virou e disse: “Irmão, deixa-me ajudar-te”. Nem uma única vez uma mão se estendeu para o levantar. Acreditavam em milagres, sim. Mas acreditavam neles para si próprios.

Ele lembrou-se de um homem – jovem, forte, com um coxear quase imperceptível. O homem tinha chegado apenas uma semana antes e já se tinha posicionado perto da beira. Uma manhã, a água agitou-se e o jovem lançou-se para a frente, empurrando uma mulher mais velha e quase atropelando uma criança. Ele havia conseguido. Tinha sido curado. E, enquanto se afastava, olhou para trás – não com culpa, mas com triunfo. O homem na maca chamou-lhe a atenção e disse: “Viste-me. Sabias que eu não me conseguia mexer. Porque é que não me ajudaste?”. O jovem encolheu os ombros. “Eu também precisava de ser curado”. E ficou por aí.

Não era apenas a dor física. Era a invisibilidade. A forma como as pessoas passavam por cima dele, à sua volta, mas nunca na sua direcção. Vinham a Betesda em busca de intervenção divina, mas deixavam a sua humanidade à porta. Ele tinha chegado à conclusão de que a piscina não era apenas um local de cura – era um espelho. Mostrava às pessoas quem elas realmente eram. E a maioria delas estava desesperada, egocêntrica e cega ao sofrimento ao seu lado.

Ele tinha rezado, claro. Não só pela cura, mas para que alguém – qualquer pessoa – reparasse nele. “Senhor, envia-me alguém que me ajude. Apenas um”. Mas o silêncio prolongou-se mais do que os anos. E, aos poucos, as suas orações foram mudando. Deixou de pedir a cura. Começou a pedir compreensão. “Porque é que eles não me vêem? Porque é que pensam que Tu estás satisfeito com a sua piedade quando pisam os fracos para alcançar a Tua misericórdia?”.

Um dia, enquanto o Sol nascia e as sombras da colunata se alongavam sobre a pedra, um homem aproximou-se. Não se apressou. Não olhou para a água. Olhou directamente para ele. “Queres ser curado?”. A pergunta surpreendeu-o. Não porque fosse estranha, mas porque era sincera. Ninguém lhe havia perguntado isso. Presumiam que sim. Presumiam que ele era apenas mais um corpo à espera de um milagre. Mas este homem viu-o – não apenas a sua condição, mas a sua alma.

Ele hesitou. “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar na piscina quando a água é agitada. Enquanto tento entrar, outra pessoa mergulha antes de mim”. Não era apenas uma queixa. Era uma confissão. Um grito. Um resumo de trinta e oito anos de abandono.

O homem não se ofereceu para o levar até à água. Não prometeu esperar com ele. Simplesmente disse: “Levanta-te. Pega na tua maca e anda”. E algo mudou – não apenas nas suas pernas, mas no seu coração. Sentiu-se visto. Fortalecido. Amado.

Enquanto se levantava, com a esteira debaixo do braço, olhou à sua volta. A piscina ainda lá estava. A multidão continuava a empurrar-se. Mas ele já não fazia parte daquela corrida. Tinha sido curado não pela água, mas por uma palavra. Não pela competição, mas pela compaixão.

Mais tarde, seguiria aquele homem – Jesus, diziam que era esse o Seu nome. Não compreendia tudo. Não sabia onde isso o levaria. Mas sabia isto: o Deus que o tinha curado não se deixava impressionar pela corrida às bênçãos. Era movido pela misericórdia. E o homem que tinha permanecido invisível durante décadas caminhava agora com um propósito, não apenas curado, mas despertado.

Nunca mais passaria por uma alma sofredora sem parar, porque sabia o que significava ser ignorado. E sabia o que significava ser encontrado.

Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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