Rota dos 500 Anos-Quando chove na água

Quando chove na água

Dizem que água é fonte de vida. Se assim é, e nós acreditamos que sim, esta semana houve muita vida em St. Lucia. É que durante dois dias choveu ininterruptamente e torrencialmente. A chuva era tanta que até deu para tomar banho nos períodos em que foi possível sair para o exterior do veleiro. Calor, chuva e vento moderado, uma mistura que fez com que todas as infiltrações do Dee ficassem a descoberto.

É uma verdade que não existem barcos completamente estanques. Quem disser que tem um barco que não deixa entrar água, ou está a mentir, ou nunca teve chuva a sério na sua embarcação. No Dee tínhamos conhecimento de umas pequenas infiltrações em algumas janelas, mas coisa que nunca nos preocupou muito e que nunca foi alvo de reparação.

Esta chuva que nos inundou veio trazer à luz do dia mais uma dúzia de infiltrações, umas mais preocupantes que outras. Da zona da cozinha às casas-de-banho, por todo o lado há pequenas entradas de água quando no exterior cai com grande intensidade. Foi uma torrente que ferozmente tentava encontrar caminho para o mar.

Por sorte deu-se apenas durante dois dias, findos os quais veio algum Sol que rapidamente secou tudo e trouxe outro alento a todos os habitantes da cidade flutuante que vai crescendo em Rodney Bay, agora que a época alta de vela está a chegar às Caraíbas.

Aos primeiros raios de Sol foi interessante ver todos os nossos vizinhos a colocarem os mais variados “items” a secar no exterior. Pensávamos que era só o nosso barco que deixava entrar água. Ficámos pois mais descansados quando um dos vizinhos, com um barco saído da fábrica em Agosto em troca de um cheque de quase meio milhão de dólares americanos, também teve de colocar os colchões e as almofadas a secar. Fizemos o mesmo com o colchão do quarto da Maria, devido a uma infiltração na escotilha que deu para encher um balde em menos de 24 horas.

Para lá do desconforto de não ser possível sair do barco, a chuva não teve mais nenhum aspecto negativo. Aliás, a chuva é sempre bem vinda para quem vive embarcado; serve para lavar o convés com água doce e para encher os tanques com água potável. Apesar de não termos ainda um sistema para recolha de água da chuva, fomos capazes de armazenar quase 80 litros que vieram ajudar a encher um dos tanques, sendo que a restante será usada para lavar a roupa durante a semana. Temos amigos que chegaram a recolher 500 litros em apenas algumas horas.

Apesar de ser incómoda, enquanto a chuva para quem vive em barcos é sempre uma benção, em terra o cenário muda de figura. Os acidentes, deslizamentos de terras e inundações quase paralisaram a ilha nos dias seguintes, trazendo problemas acrescidos. O sistema público de água potável teve de ser interrompido, devido à contaminação dos tanques; pontes e estradas ficaram intransitáveis; postes e árvores caíram, provocando danos em propriedades; pessoas ficaram feridas e os hospitais não tiveram mãos a medir durante e depois da tempestade. Os prejuízos, apesar de nunca serem totalmente quantificados, atingiram os milhões de dólares americanos, um peso enorme para uma nação já de si economicamente debilitada.

Agora que é tempo de limpar o pouco que ficou sujo e de secar o que ainda não teve tempo de secar, vamos meter mãos a mais alguns projectos. No interior temos umas ligações eléctricas que necessitam ser melhoradas a nível estético, o que nos irá ajudar a ocupar o tempo enquanto esperamos pela resposta do consulado de Portugal em Nova Iorque e da embaixada em Bogotá, para decidirmos o que fazer relativamente ao meu passaporte e ao da Maria, que têm de ser renovados no próximo ano – estão quase a atingir os últimos seis meses de validade.

Possivelmente iremos ter de fazer uma viagem não programada para resolver este problema burocrático, visto que, infelizmente, Portugal não tem por aqui qualquer representação diplomática, nem permite que os passaportes possam ser renovados à distância. Para quem vive em regime nómada como nós é um transtorno que parece não incomodar as autoridades responsáveis pela emissão dos documentos de viagem. Ao contrário do Canadá e de outros países, que permitem aos seus cidadãos em qualquer parte do mundo renovar os passaportes via Internet ou correio, Portugal obriga-nos a estar presencialmente no local, mesmo que para isso a pessoa tenha de gastar milhares de euros em deslocações. Bom… este será tema para outra crónica quando a situação se proporcionar.

De resto, e para finalizar, tudo continua bem. A tripulação está de boa saúde e com bom espírito.

João Santos Gomes

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