A Paixão de Cristo

PÁSCOA 2026

A Paixão de Cristo

Antes de falarmos sobre a Paixão de Cristo, devemos dizer algumas palavras sobre Cristo na sua totalidade – desde o seu nascimento até à ascensão ao céu.

A pergunta de Jesus aos seus discípulos – a cada um dos seus seguidores – está constantemente presente na vida de todos os cristãos: «Quem sou eu para vós?» (ver: Mateus 16, 13–17). Podemos responder à pergunta de forma objectiva e subjectiva.

A NATUREZA DE CRISTO – A resposta objectiva (ou pergunta retórica) é fácil. «– Quem és tu, querido Jesus?». «– Tu és o nosso Salvador, o nosso Redentor, o Caminho, a Verdade, a Vida e a Luz». «– Tu és o Bom Pastor, o Bom Samaritano, o Santo Niño, o Nazareno, o Pão e o Vinho Eucarísticos, o Sagrado Coração». Jesus é o Filho de Deus e o Filho de Maria, um ser humano como nós, mas sem pecado: «– E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós». A resposta objectiva à pergunta – quem é Cristo para os seus seguidores? – é necessária e fundamental, e alimenta sempre a resposta subjectiva.

Jesus, no entanto, procura a nossa resposta pessoal, que não vem nos livros, mas no encontro amoroso com o Senhor que vive em nós. O Cristianismo não significa “recitar um credo; significa conhecer uma pessoa” (cf. W. Barclay). Conhecer o Senhor implica “encontro pessoal com Ele, experiência íntima, lealdade, amor, adesão à pessoa, fazer a Sua vontade” (López Melús, “Desierto”).

Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre, e o mesmo Cristo em todas as expressões culturais.

A PAIXÃO DE CRISTO – Como discípulos de Jesus Cristo, contemplemos o Cristo sofredor, o Senhor crucificado. Qual é o significado da Paixão de Cristo para nós?

Perante o Santíssimo Sacramento, rezamos frequentemente: “Ó banquete sagrado, no qual Cristo é recebido, a memória da sua Paixão é evocada, a alma é enchida de graça e nos é dada uma garantia da glória futura. A memória da sua Paixão é evocada!”.

Recordamos o aclamado filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Para alguns, o filme é um pouco exagerado: demasiado sangue de Jesus. Para muitos outros – para nós –, o filme está muito próximo da realidade, da realidade sombria da paixão e morte de Jesus. Mel Gibson explica: «A Paixão de Cristo é muito forte. Estamos habituados a ver belos crucifixos pendurados na parede, e dizemos que Jesus foi açoitado, carregou a sua cruz nos ombros e depois foi pregado na madeira da cruz… Durante a minha infância, não compreendia como isso aconteceu. O profundo horror do que Ele sofreu pela nossa redenção não me chocava. Compreender o que Ele sofreu, também a nível humano, faz-me sentir não só compaixão, mas também a dívida que tenho para com Ele. Quero compensá-Lo pela imensidão do Seu sacrifício».

Acreditamos firmemente em Cristo: em Cristo Crucificado. Acreditar em Deus crucificado é reconhecer Deus em Cristo crucificado (J. Moltmann). Por que razão o Filho Unigénito de Deus é crucificado e morre na cruz? Deus poderia ter-nos libertado através da sua vontade divina!

Por que razão a morte de Jesus na cruz, que é a forma mais humilhante de morrer? “Não havia outra forma mais adequada de curar a nossa miséria do que pela Paixão de Cristo” (São Tomás de Aquino). Porquê? A Tradição Cristã apresenta-nos quatro razões principais:

(1) Em primeiro lugar, porque, através da sua Paixão e da sua crucificação, Jesus mostra-nos o seu amor infinito: «Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigénito» – para o salvar, para nos salvar a todos (cf. Jo., 3, 16).

(2) Em segundo lugar, porque Cristo, ao morrer na cruz, revela-nos a gravidade do pecado e a nossa necessidade de um Salvador. Jesus morre na cruz para expiar os pecados da Humanidade e para nos mostrar a maldade do pecado, ajudando-nos assim a não pecar: «Ele próprio levou os nossos pecados, para que, libertos dos pecados, pudéssemos viver para a justiça» (1 Pe., 2, 24).

(3) Em terceiro lugar, pela sua Paixão, Cristo libertou-nos não só do pecado, mas também nos fez merecer a graça santificante que nos torna filhos de Deus e nos conduz à glória da felicidade: “Cristo redimiu-nos da maldição da Lei, tornando-se maldição por nós” (cf. Gal., 3, 13); “Cristo veio para que fôssemos justificados pela fé (…). Pois em Cristo Jesus, todos vós sois filhos de Deus” (cf. Gal., 3, 24.26).

(4) Finalmente, e em quarto lugar, através da sua Paixão, Jesus dá-nos um exemplo a seguir. Sabemos que Ele é o nosso Caminho, o que inclui necessariamente o Caminho da Cruz. São Pedro diz: «Cristo também sofreu por vós, deixando-vos um exemplo para que sigais as suas pegadas» (1 Pedro 2, 21). A sua Paixão é o modelo de todas as virtudes, em particular – segundo São Tomás – a caridade, a paciência, a humildade, a obediência e o desprezo pelas coisas terrenas.

Os sofrimentos de Cristo, que é o servo sofredor do profeta Isaías, foram incríveis: a sua agonia no jardim, a traição de Judas, o abandono pelos seus discípulos. Além disso, é acusado falsamente, condenado injustamente, escarnecido, ridicularizado e açoitado junto ao pilar. E, a seguir, o caminho para o Calvário carregando uma pesada cruz, a sua crucificação e morte. No meio de tudo isto: a admirável serenidade de Jesus, o seu silêncio expressivo, o seu amor misericordioso, a sua obediência a Deus-Pai.

Os santos adoram contemplar Jesus pregado na cruz! Um crucifixo de madeira que preside o altar-mor de uma capela retira o prego da sua mão direita para abraçar São Bernardo. Cristo na cruz em São Damião pede a São Francisco de Assis que restaure a sua Igreja. São Tomás teve uma experiência mística perante o Senhor crucificado. O livro preferido de Santa Catarina de Sena era a morte de Cristo na cruz. São João da Cruz, para quem a cruz é o cajado para a jornada da vida, ouviu de um quadro de Cristo, carregando a cruz, estas palavras: “Fizeste muito por mim, o que desejas de mim?”. São João XXIII escreve no seu “Diário da Alma”: “O meu grande livro, do qual devo extrair com grande cuidado e afecto as lições divinas de elevada sabedoria, é o crucifixo”.

Como podemos responder à paixão e à cruz de Jesus? Somos autênticos seguidores de Cristo, verdadeiros discípulos, se O seguirmos carregando a nossa cruz pessoal: «Se alguém quiser ser meu seguidor, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mt., 15, 24). Esforçamo-nos por carregar a nossa própria cruz com paciência, em oração e – se possível – com alegria, com a alegria espiritual que irradia na vida dos santos. Assim, pregamos, como São Paulo, um Jesus crucificado (cf. 1 Cor., 1, 22–24), que é também o nosso Senhor Ressuscitado.

Somos discípulos de Cristo e ansiamos por estar intimamente próximos dele e daqueles que lhe são próximos, bem como da criação de Deus (cf. Gn., 1, 31; Mt., 6, 28-29). Jesus identifica-se com aqueles que são crucificados na terra. Onde estamos nós quando os nossos irmãos e irmãs são crucificados hoje? Tal como o Bom Samaritano, somos chamados a ajudar os feridos nas estradas da vida e, tal como Simão de Cirene, a oferecer o nosso ombro àqueles que hoje são crucificados e carregam a sua pesada cruz. Temos de praticar o amor pelos necessitados e pelos pobres, que são para nós Cristo a carregar a sua cruz hoje: «Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era estrangeiro e acolhestes-me» (Mt., 25, 35). Jesus é o pobre: “Este sou eu, ama-me! Quão radical e quão simples” (Henri Nouwen).

Ao meditarmos sobre a Cruz de Cristo, surge-nos outra questão: Onde estamos nós, quando crucificam o nosso Senhor, quando outros são crucificados hoje? E ouvimos também as perguntas recorrentes dos nossos irmãos e irmãs – e dos não crentes: Por que há tanto sofrimento no nosso mundo? Por que é que crianças inocentes sofrem? Onde está o Deus misericordioso? O mistério do mal está ligado ao mistério de Deus – sim, de um Deus omnipotente e misericordioso! Sabemos que Deus nos ama, Ele é o Amor, e que a única resposta que temos para essas perguntas intrigantes é Jesus na cruz: Jesus, o Filho de Deus, é o Senhor Crucificado! “No amor do Senhor crucificado, o próprio Deus identifica-se com todos os que sofrem, clama contra todas as injustiças e perdoa aos carrascos de todos os tempos” (J. A. Pagola).

É difícil carregar a nossa cruz, difícil ajudar os outros a carregar a sua pesada cruz, difícil socorrer os feridos nos caminhos da vida? Não é fácil. Deus nunca nos falha. Precisamos de rezar sempre pela ajuda de Deus. Por isso, “nunca deixes de rezar. Há sempre remédio para quem reza” (Santa Teresa de Ávila).

Precisamos de rezar, para sermos fortes. Somos fracos, somos pecadores. A melhor vitamina: a oração. A melhor arma: o amor, o amor misericordioso. Por isso, “coloca amor onde não há, e colherás amor” (São João da Cruz).

Agradecemos-Te, Senhor, pelas Tuas chagas, pela Tua cruz, pela Tua morte: pelo Teu amor. Amamos-Te, Senhor; pedimos desculpa por Te termos ofendido a Ti, aos outros e à criação. Pedimos-Te, com humildade e em oração, a Tua graça e misericórdia contínuas.

Pe. Fausto Gomez, OP

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