Os fiéis siro-malabares do Golfo
Recentemente nomeado Visitador Apostólico para os fiéis siro-malabares na Península Arábica, o padre Jolly Vadakken foi chamado a exercer o seu ministério em estreita comunhão e colaboração com os Vigários Apostólicos da Arábia do Norte, D. Aldo Berardi, O.Ss.T., e da Arábia do Sul, Paolo Martinelli, OFM Cap., tendo em vista “um atento exame da situação pastoral” e “o desenvolvimento de soluções concretas para o bem dos fiéis”. O objectivo principal é o relato regular junto da Sé Apostólica do progresso da Missão. Tanto o bispo Berardi quanto o bispo Martinelli acolheram com alegria a nomeação do sacerdote – nativo do Estado indiano de Kerala. Durante uma reunião conjunta na co-catedral do Kuwait, a 21 de Dezembro de 2025, discutiu-se, de modo construtivo, a tarefa agora confiada ao padre Jolly Vadakken.
A história da comunidade católica siro-malabar na Península Arábica está intrinsecamente ligada à transformação económica da região. Após a descoberta de petróleo, uma segunda onda de Cristianismo começou a fluir para as areias do deserto – não por via das missões tradicionais, mas pelas mãos e corações de uma “imensa força de trabalho imigrante”.
Entre estes pioneiros estiveram católicos siro-malabares. Embora a sua presença tenha começado discretamente na década de 1970, ela acabaria por se transformar numa comunidade vibrante vinte anos depois, na década de 1990. Inicialmente, as necessidades espirituais eram atendidas pelos Vicariatos Apostólicos de Rito Latino. No entanto, enquanto comunidade profundamente enraizada nas práticas espirituais antigas centradas na paróquia e no lar, estes fiéis começaram naturalmente a encontrar formas próprias de expressão litúrgica. Subsistia, porém, uma crescente preocupação pastoral: separadas da sua “igreja-mãe”, muitas famílias e crianças siro-malabares estavam a ser formadas exclusivamente no Rito Latino, fazendo com que se afastassem de sua herança oriental. Este vácuo cultural e litúrgico também proporcionou a entrada em cena de várias seitas eclesiais, levando alguns dos fiéis a desviarem-se das suas raízes católicas e a abraçarem o protestantismo.
Quando o Kuwait foi invadido pelo Iraque em 1991, o súbito início da guerra forçou inúmeras famílias imigrantes a regressarem às suas terras natais. Este movimento levou a uma dolorosa constatação: muitos sentiram-se estranhos dentro da própria igreja-mãe. Tendo passado anos no exterior, a geração mais jovem já não estava familiarizada com os rituais e orações siro-malabares. Apesar da afirmação do Concílio Vaticano II sobre a importância de retornar às raízes espirituais, os fiéis no Golfo descobriram, na prática, que a preservação do seu património ritual era um desafio e uma tarefa assustadores, face à pressão dos diferentes movimentos migratórios e da guerra.
À medida que a região entrava num período de reconstrução pós-1993, uma nova onda de imigração se seguiu. O “boom” económico no Dubai e a reconstrução do Kuwait atraíram mais católicos siro-malabares. Determinados a salvaguardar a sua herança e a proteger a comunidade do proselitismo, os fiéis optaram por se auto-organizar. Associações leigas foram registadas nas respectivas embaixadas indianas como “movimentos culturais”, para que a protecção legal estivesse disponível para as actividades. A 1 de Dezembro de 1995, a SMCA Kuwait foi estabelecida como a primeira associação leiga formal, um modelo que logo foi replicado por movimentos semelhantes no Catar, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e em Omã.
Em todas as quatro paróquias do Kuwait, o coração da comunidade siro-malabar permanece vibrante. Duas mil 460 crianças estão matriculadas na Catequese. Contudo, esta bênção é acompanhada de sérias limitações. Devido à falta de salas de aula, as crianças precisam de ser divididas em quatro grupos separados. Um excelente sinal da identidade siro-malabar é a “Unidade Familiar”. Estas pequenas comunidades eclesiais domésticas, compostas por trinta e quarenta famílias, reúnem-se mensalmente em diferentes casas, alternadamente, para compartilhar a Palavra de Deus e desfrutar da comunhão cristã.
A igreja Siro-Malabar de São Tomás, em Doha, é a única igreja na Península Arábica com uma identidade siro-malabar distinta e independente. Mais do que um simples edifício, serve como verdadeiro lar espiritual, oferecendo orientação litúrgica, pastoral e social aos fiéis siro-malabares no Catar. A vida espiritual da Paróquia é dinâmica, com três missas celebradas diariamente e cinco missas às sextas-feiras para acomodar a grande comunidade. A formação na fé é uma missão primordial; actualmente, dois mil 544 alunos, entre o 1.º e o 12.º ano, frequentam as sessões de Catequese. Uma equipa dedicada, com mais de 180 professores, actua como formadora de fé, garantindo que a próxima geração seja criada nas tradições e ensinamentos autênticos da Igreja Siro-Malabar.
Desde a década de 1950, o Bahrein acolhe uma força de trabalho global diversificada, mas foi a descoberta de petróleo, no início da década de 1970, que realmente potenciou a imigração da comunidade católica do Estado indiano de Kerala. Em busca de novos meios de subsistência, estes fiéis trouxeram consigo uma profunda herança espiritual que continua a florescer ainda hoje. As raízes da fé católica no Bahrein são profundas. Já em 1939, a família governante concedeu permissão para a construção da primeira igreja. Sob a orientação do bispo Tirinanzi e do frade capuchinho padre Luigi, a igreja do Sagrado Coração foi estabelecida em Manama. Hoje, o cenário espiritual expandiu-se significativamente. A majestosa catedral de Nossa Senhora da Arábia, em Awali, funciona como sede do Vicariato. A presença católica no Bahrein é um segmento vital e vibrante do tecido nacional.
Joaquim Magalhães de Castro

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