A Pessoa Virtuosa

OUTRAS VIRTUDES – CONCLUSÃO

A Pessoa Virtuosa

“Qual é o objectivo da ética? É tornar as pessoas boas, ou seja, virtuosas” (Peter Kreeft)

VIRTUDE E VIRTUDES – A virtude continua a parecer importante porque é virtude, ou seja, uma espécie de excelência da alma, um traço básico de carácter, uma atitude ética positiva – um bom hábito operativo. “Em cada virtude, o homem diz sim a tudo o que é bom” (Bernard Haring).

As virtudes põem ordem na nossa vida: integram dinamicamente as nossas potências e traços. Dão-nos conhecimento por co-naturalidade (São Tomás de Aquino), uma capacidade aguçada de julgar bem. Aperfeiçoam-nos não principalmente como pessoas individuais, mas como seres sociais em comunhão com os outros. O amor é a fonte, o fundamento e o objectivo de todas as virtudes; mediações do amor.

Quais são as virtudes humanas mais importantes? Falamos de virtudes intelectuais, virtudes morais e virtudes teologais. As virtudes teologais da fé, da esperança e do amor são as mais importantes: ligam-nos a Deus, o Deus omnipotente e misericordioso. É interessante notar aqui que Bernard Lonergan fala de conversão intelectual, moral e religiosa. Pode dizer-se que o caminho da conversão implica o aprofundamento dos bons hábitos intelectuais, morais e religiosos (teológicos)? Sim, implica o aprofundamento da vida virtuosa de uma pessoa.

Quando falamos de virtudes na ética e na bioética, referimo-nos às virtudes morais – aquelas que tornam boas as acções de uma pessoa e a própria pessoa –, que ordenam as nossas relações com o próximo e com a criação. Entre as virtudes morais, as mais importantes são as virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

Serão as virtudes da justiça e do amor as mais significativas hoje em dia? Há uma necessidade contínua de justiça no nosso mundo. A justiça, por sua vez, precisa do amor para se tornar uma justiça verdadeira!

Para os cristãos, o amor a Deus e ao próximo, ou caridade, é a “forma” de todas as virtudes: «Por cima de todas estas virtudes [misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão], revesti-vos do amor, que as une e as torna perfeitas» (Col., 3, 14).

As virtudes, em particular as sete virtudes magníficas (as três teologais e as quatro cardeais), são aperfeiçoadas pelos Dons do Espírito Santo: Os Dons do Conhecimento e do Entendimento aperfeiçoam a virtude da fé; o Dom do Temor, as virtudes da esperança, da temperança e da humildade; o Dom da Sabedoria, a virtude da caridade; o Dom do Conselho, a virtude da prudência; o Dom da Fortaleza, a virtude da fortaleza; e o Dom da Piedade aperfeiçoa a virtude da justiça.

Juntamente com a justiça e o amor, quais são as principais virtudes da pessoa humana? Podem ser dadas respostas diferentes, mas acredito que quatro virtudes são essenciais para todas as pessoas e diferentes profissionais: veracidade, compaixão, humildade e devoção.

. Veracidade num mundo de mentiras, pós-verdade e politicamente correcto;

. Compaixão num mundo de injustiça, violência e desigualdade;

. Humildade, a virtude radical que modera o nosso egoísmo e orgulho – que é o rei dos pecados capitais – e nos ajuda a perceber a nossa vulnerabilidade e a necessidade de consultar os outros;

. A vida de oração leva-nos – seres humanos imperfeitos, fracos e vulneráveis – a procurar a ajuda de Deus para sermos plenamente sinceros, compassivos e humildes.

ADQUIRIR VIRTUDES

É difícil ser virtuoso? Bem, sim e não. Sim, se quisermos adquiri-las apenas por nós próprios; não, se pedirmos com devoção a graça de Deus – uma graça que não é barata, ou seja, uma graça que é mera súplica e exclui a nossa necessária cooperação com Deus.

É realmente difícil ser virtuoso? Basta praticar, repetidamente, boas acções. Estas criam bons hábitos, ou seja, virtudes. Estas formam um bom carácter – o caminho para a felicidade autêntica e uma fonte de verdadeira felicidade.

William James apresenta quatro passos para adquirir as virtudes humanas:

Primeiro, tomar uma firme resolução;

Segundo, não fazer excepções;

Terceiro, pôr em prática a resolução com frequência;

Quarto, exercer a resolução diariamente e com generosidade.

Nós, cristãos, acreditamos que quando Deus nos concede a graça santificante, Ele também nos concede virtudes infundidas, que elevam as virtudes humanas ao nível do sobrenatural. As sete virtudes naturais/sobrenaturais correspondem aos Sete Dons do Espírito Santo.

Em resumo, a vida de um verdadeiro cristão assenta na graça divina, que se orienta para a prática das virtudes, as quais têm a sua raiz na graça de Deus e são aperfeiçoadas pelos Dons do Espírito Santo. Em termos simples: Graça (hábito entitativo sobrenatural) – virtudes adquiridas/infundidas (hábitos operativos sobrenaturais) – e Dons do Espírito Santo (hábitos sobrenaturais).

Além disso, para aqueles de nós que acreditam firmemente em Deus, a oração ajuda-nos imensamente na aquisição das virtudes.

PRATICAR AS VIRTUDES:

Lao Tzu expressou-o de forma belíssima:

“Sou bondoso para com os bondosos;

Sou também bondoso para com os não bondosos;

Pois a virtude é bondosa.

Sou fiel aos fiéis;

Sou também fiel aos infiéis;

Pois a virtude é fiel”.

Tomás de Kempis escreve: “Na verdade, não é o saber que torna o homem santo e justo, mas uma vida virtuosa que o torna agradável a Deus”.

Pode a virtude ser ensinada? De certa forma, sim! Como? Ensinando as qualidades que fazem uma “boa pessoa”. Um modo melhor é o seguinte: servirmos como exemplo das virtudes que queremos ensinar. São Tomás de Aquino diz que a melhor maneira de definir a virtude – e as virtudes – é apontar para uma pessoa virtuosa. O caminho autêntico para descrever a pessoa virtuosa é apontar para uma boa pessoa, isto é, uma pessoa sincera, compassiva, humilde e devota.

Notemos que a pessoa virtuosa, o cristão, não aponta para si mesmo, mas para Cristo, o Virtuoso! Quando falamos de virtude, estamos a falar de Cristo (Santo Ambrósio). O fim de uma vida virtuosa é a imitação perfeita de Jesus Cristo (Padre Lívio). O verdadeiro seguidor de Cristo, o santo, aponta para a Cruz, onde “encontramos o modelo de todas as virtudes” (São Tomás de Aquino).

Num poema bem conhecido, Samuel Smiles explica de forma simples e bela que ser virtuoso não é assim tão difícil:

“Semeia um pensamento e colherás um acto;

Semeia um acto e colherás um hábito;

Semeia um hábito e colherás um carácter;

Semeia um carácter e colherás um destino”.

Somos criaturas feridas, somos todos pecadores, e ser virtuoso é mais fácil com a graça e o amor de Deus. São Pedro aconselha-nos: «Lançai sobre Deus todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós» (1 Pe., 5, 7).

Pe. Fausto Gomez, OP

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