Gratidão

OUTRAS VIRTUDES – 5

Gratidão

Uma palavra maravilhosa em todas as línguas: thanks, gracias, salamat, obrigado, xiexie, grazie, mercie, danke…!

A gratidão é uma virtude moral entre as virtudes e está intimamente ligada a algumas delas. De facto, as virtudes estão interligadas: ajudam-se mutuamente a crescer. A virtude da gratidão é uma parte potencial da virtude cardeal da justiça. Está intimamente ligada à religião, que ajuda a gratidão a ser grata a Deus; à piedade e à observância, que nos ajudam a ser gratos aos nossos pais e superiores; à generosidade, que nos ajuda a partilhar com os outros; à veracidade, que nos fortalece para sermos verdadeiramente gratos a todos. A gratidão confere à justiça e à caridade um certo encanto.

A gratidão, disse Cícero, “não é apenas a maior virtude, mas a mãe de todas”. B. Haring escreveu: “As pessoas que possuem a virtude da gratidão são ricas interiormente. Sabem quão ricamente foram abençoadas; além disso, recordam continuamente que todas as coisas boas vêm de Deus”.

A gratidão é uma virtude encantadora que tem as suas raízes na justiça e vai além dela para expressar amor. É a virtude que nos inclina a retribuir de alguma forma a um benfeitor pelo seu dom para connosco. Um doador deu-nos algo que não era obrigado a dar-nos e, imediatamente, do nosso coração surge a necessidade de mostrar o nosso apreço, seja afectivamente (com gestos) e/ou efectivamente (com o nosso próprio dom de resposta). A gratidão é, portanto, uma resposta benevolente a um benefício recebido e imerecido. (Filhos ingratos: Rei Lear de Shakespeare: “Quão mais afiada do que o dente de uma serpente é ter um filho ingrato” [cf. A parábola dos dez leprosos: Lc., 17, 11–19]).

A gratidão reside na vontade, tal como a justiça e a caridade. A gratidão não é meramente “uma questão de cortesia ou de boas maneiras, mas de um bom coração” (Andrés Pardo). Não é apenas a vontade que é grata, mas o coração, a pessoa inteira.

Quais são os elementos que integram um acto de gratidão? São Tomás de Aquino menciona três: o primeiro é reconhecer o dom recebido; o segundo, louvar e dar graças; e o terceiro, recompensá-lo de acordo com as nossas possibilidades e as circunstâncias de tempo e lugar (cf. Suma Teológica).

Qual deve ser a medida da recompensa a dar ao nosso doador? Esta recompensa não é uma questão de justiça – como na justiça comutativa –, mas uma questão de afecto no doador e no destinatário, que responde a “uma dívida de honestidade” (cf. idem).

Existem pecados opostos à gratidão. Pode-se cometer pecados por excesso: sendo grato pela má ajuda recebida (que nos ajudou a fazer o mal), ou sendo grato demasiado cedo – como se quiséssemos livrar-nos da “dívida”.

Também podemos cometer pecados contra a gratidão por defeito: sendo ingratos, seja de forma negativa, seja de forma positiva. Negativamente, por não demonstrarmos a nossa gratidão; positivamente, por retribuir o mal com o bem, ou por criticar o nosso benfeitor, ou por sermos negligentes na expressão da nossa gratidão (cf. ibidem).

Enquanto a virtude da gratidão é uma virtude encantadora, o vício da ingratidão é um vício detestável. O teólogo Bernard Haring diz que o ingrato é “frio, solitário e, apesar da sua auto-satisfação, basicamente infeliz”. Há três tipos de pessoas ingratas, segundo Santiago Ramón y Cajal: aquelas que se calam sobre um favor recebido, aquelas que pedem pagamento por ele e aquelas que respondem com vingança (“Hay tres clases de ingratos: los que se callan el favor, los que lo cobran y los que lo vengan”). É interessante o que afirma Cervantes – famoso por Dom Quixote: “A ingratidão é filha do orgulho”.

Deve-se continuar a dar presentes aos ingratos? Sim, pelo menos muitas vezes mais (“multiplique os benefícios”, diz São Tomás), mas a quem é continuamente e obstinadamente ingrato e indelicado devemos deixar de dar presentes, segundo Séneca e São Tomás. Uma bela citação de Séneca: “A recompensa da boa acção é tê-la praticado – El premio de la buena obra es haberla practicado”.

Como seres humanos, temos de ser gratos. De facto, “a gratidão é a memória do coração”. Duplamente, como cristãos! Ser cristão é ser grato. Temos de ser gratos a todos, em particular àqueles que partilham a sua vida e o seu amor connosco. Devemos ser gratos, em particular, aos nossos pais, aos nossos amigos, aos nossos familiares, aos nossos colegas de turma, de trabalho ou de brincadeira, aos pobres.

Acima de tudo, devemos ser gratos a Deus. Tudo é uma dádiva de Deus. Na realidade, tudo é graça: “O que tens que não tenhas recebido?”. «Sede gratos!», exorta-nos São Paulo (Col., 3, 15; cf. Col 3, 17).

Temos de dar graças (eucharistia), ser gratos (xaris – graça). A vida cristã é uma acção de graças contínua: ao Deus Único e Trino: a Deus Pai, nosso Criador, a Deus Filho, nosso Redentor, e ao Espírito Santo, nosso Advogado e Santificador. “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque o seu amor dura para sempre” (cf. Sal., 118, 1; Sal., 92, 1–3). Diz-se que “a gratidão torna os cristãos capazes da Eucaristia” (Haring).

Os inúmeros dons de Deus para connosco exigem de nós, como nos diz São Basílio, “gratidão total”. Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança. Quando o homem pecou, continua São Basílio, “Deus não o abandonou. Nosso Senhor Jesus Cristo restaurou-nos à vida novamente e de uma forma ainda mais surpreendente do que o próprio facto…”. Como, então, O recompensaremos? pergunta-se São Basílio. Eis a resposta: “Ele [Deus] é tão bom que não pede outra recompensa senão o nosso amor: esse é o único pagamento que Ele deseja”. O grande Pai ou Padre da Igreja, Basílio, sentia “pavor e paralisia” perante a mera possibilidade de deixar de amar a Deus e trazer vergonha a Cristo por causa – escreve ele – “da minha falta de recolhimento e da minha preocupação com trivialidades” (São Basílio, Regras Detalhadas).

O profeta de Nazaré falou da importância da gratidão na sua cura de dez leprosos. Os dez perceberam que estavam curados quando se dirigiam aos sacerdotes. Um voltou a Jesus para lhe dar graças. Jesus perguntou: “Não foram dez os que ficaram curados? Os outros nove, onde estão?”. Os outros nove esqueceram-se de dizer obrigado! (cf. Lc., 17, 11–19). Os nove representam alguns de nós que também podemos ser ingratos: para com os nossos pais, os nossos amigos, um professor, um companheiro ou uma pessoa pobre (por aceitar a nossa esmola).

A Virgem Maria, nossa Mãe, proclamou humildemente: «A minha alma glorifica o Senhor». O seu Magnificat é um hino de gratidão belo e poderoso (cf. Lc., 1, 46–55). De facto, os santos passaram a vida a dar graças. Ao longo da História, todos eles louvaram a Deus por tudo o que receberam, sobretudo pelo dom do amor, que retribuíram a Deus com o seu amor cooperante: “Ser grato pelo amor transforma-se em amor” (B. Bennassar).

Entre os santos destacamos São Francisco de Assis, que percorreu a vida cantando hinos de gratidão: ele dava graças por tudo, pelo Redentor, pelos pobres, pelos pássaros, pelo sol, pela relva e até pela irmã morte! O “Poverello de Assis” (Pobrezinho de Assis) cantava:

“Que tu, meu Senhor, sejas louvado por todas as criaturas! / Todas as criaturas louvem o Senhor. / Sejam gratos pelos seus dons, cantem a sua criação.

“Fomos e somos salvos! Por isso, devemos ter uma memória agradecida!” (cf. Sl., 105, 1–5; 2 Ts., 5, 14).

Respondemos ao amor de Deus com o nosso amor e serviço, tal como a sogra de Pedro depois de ter sido curada pelo Senhor (cf. Mc., 1, 29–39).

Das culturas orientais: “Ao comer frutos, lembra-te da pessoa que plantou a árvore”; “ao beber água, lembra-te da sua fonte”.

Santa Catarina de Sena rezava:

“Ó terno Pai, deste-me mais, muito mais do que alguma vez pensei pedir. Percebo que os nossos desejos humanos nunca poderão realmente igualar o que Tu anseias por nos dar. Obrigada. E mais uma vez obrigada, ó Pai, por teres concedido os meus pedidos, e aquilo de que nunca me apercebi que precisava ou pedi. Sejamos continuamente gratos ao Senhor. Sim, Senhor, por tudo o que foi, obrigada; por tudo o que será, sim!”.

Pe. Fausto Gomez, OP

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