Paciência
Gostaria de reflectir sobre a virtude da paciência e tentar convencer-nos de que é realmente bom e útil ser paciente, especialmente nestes tempos perigosos. A paciência é necessária ao longo da vida.
O SIGNIFICADO DA PACIÊNCIA
A paciência é uma virtude humana e cristã essencial na vida. É uma virtude humana, ou seja, um bom hábito, uma disposição firme da alma, uma qualidade de um ser humano pleno. A definição de Cícero sobre a virtude da paciência é clássica: é “a resistência voluntária e prolongada a coisas árduas e difíceis em nome da virtude ou do benefício”.
Francesc Torralba fala da paciência como a arte de não colher a pêra da árvore antes do tempo, e de saber esperar e suportar a passagem dos meses e a inclemência do tempo. A paciência ajuda-nos a enfrentar com sabedoria a fragilidade e a vulnerabilidade desta vida. É a virtude que nos ajuda a moderar as nossas tristezas para não nos deixarmos perturbar indevidamente por elas. A paciência dá-nos a força de que precisamos para suportar as nossas tristezas e medos de forma racional e prudente, e para os avaliar à luz dos principais valores da vida humana: amor, família, amizade, criatividade e compaixão.
Como virtude moral, a paciência situa-se no meio de dois defeitos, um por excesso e outro por defeito. A paciência opõe-se a dois vícios ou maus hábitos, nomeadamente, a insensibilidade e a impaciência.
A paciência opõe-se, por excesso, à insensibilidade ou dureza do coração, perante as nossas dores e sofrimentos, e as dores e sofrimentos dos outros, especialmente dos nossos entes queridos. A insensibilidade manifesta-se por uma passividade e indiferença irracionais.
A virtude da paciência opõe-se, por defeito, ao vício da impaciência ou à incapacidade de ouvir o ritmo da nossa natureza e de respeitar o tempo de espera necessário, sem desistir. O vício da impaciência manifesta-se na raiva, no mau humor e na tristeza. Em alguns momentos difíceis e dramáticos da nossa vida, alguns de nós podem ser incapazes de suportar essas dores ou sofrimentos. Nestes casos, palavras amorosas de encorajamento – ditas ou silenciosas – ajudarão. Em casos de depressões profundas e tristeza, é necessária assistência psicológica adequada.
Como podemos adquirir paciência? Tal como outras virtudes morais, a paciência é adquirida através de um esforço contínuo, através da repetição de actos de paciência. A prática contínua e intensiva de actos de paciência provoca em nós uma firme inclinação – um bom hábito – para realizar actos de paciência com facilidade, prontidão e até com alegria.
A virtude da paciência é verdadeiramente necessária na nossa jornada de vida. Todas as virtudes humanas estão interligadas, e a paciência também. De maneira especial, com a coragem, a perseverança e a esperança. A paciência é uma virtude moral subordinada à virtude cardeal da coragem ou fortaleza. Assim, a paciência é “indispensável, juntamente com a coragem, para a actividade criativa” (José Antonio Marina). “Paulo pretende esclarecer que a ‘paciência’, nomeada em primeiro lugar, não é uma postura totalmente passiva, mas há de ser acompanhada por uma actividade, uma reacção dinâmica e criativa perante os outros” (Papa Francisco, Amoris laetitia). As nossas esperanças humanas sustentam-nos então, ao olharmos para um amanhã melhor com paciência corajosa e perseverante – e esperança amorosa. Belíssimo: “O amanhã é o sonho de hoje” (K. Gibran).
Numa perspectiva cristã, as virtudes dividem-se em adquiridas (pelos esforços humanos pessoais, pela repetição da mesma boa acção) e infundidas (por Deus). As virtudes infundidas, teológicas e morais, acompanham a graça e os Dons do Espírito Santo. Enraizadas na graça divina e permeadas pela caridade (a forma e o motor de todas as virtudes), as virtudes infundidas elevam, enaltecem e aperfeiçoam as virtudes humanas. Assim, a paciência humana é profundamente melhorada pela paciência infundida, que faz das nossas acções pacientes passos, rumo a uma maior felicidade aqui e, em última análise, à felicidade eterna.
Na perspectiva da fé, a paciência é um grande dom de Deus, uma graça divina: «Dele vem a minha paciência» (Sl., 61, 6). É um dos doze frutos do Espírito Santo (cf. Gal., 5, 22-23; Catecismo da Igreja Católica n.º 1832). A paciência é uma virtude necessária para controlar razoavelmente a impaciência, a ira e a ansiedade – bem como a insensibilidade e a indiferença. “Se não cultivarmos a paciência, encontraremos sempre desculpas para responder com ira” (Papa Francisco).
A paciência é uma virtude moral infundida, intimamente ligada à virtude cardeal da fortaleza ou coragem, e às virtudes teologais, em particular à esperança.
A paciência está profundamente ligada às virtudes teologais da fé, da esperança e do amor. A fé pede paciência na vida (cf. Ef., 4, 31), a caridade é paciente (cf. 1 Cor., 13, 4) e a esperança é uma esperança paciente: uma paciência fiel, amorosa e esperançosa nunca desilude (cf. Rm., 5, 5). A virtude da paciência é uma qualidade da esperança cristã. A esperança paciente é a virtude do peregrino, que caminha rumo a um amanhã melhor: “A nossa esperança é a presença do futuro” (Santo Agostinho).
O Senhor e Criador “é incapaz de ira” (Carta a Diogneto). Os verdadeiros crentes suportam as dores e os sofrimentos por amor a Deus e pelo bem que está por vir – a felicidade eterna: “O que quer que te aconteça, aceita-o, e nas incertezas da tua humilde condição, sê paciente, pois o ouro é provado no fogo, e os homens escolhidos na fornalha da humilhação. Confia nele [em Deus], e ele ajudar-te-á” (cf. Sir., 2, 4–6).
Jesus foi extremamente paciente ao longo da sua vida e, de forma dramática e incrível, paciente nos últimos dias da sua paixão e morte. Quão impressionante foi o seu grito lancinante na cruz! Pai, «por que me abandonaste?». Jesus diz aos seus discípulos para serem pacientes: «Pela vossa paciência, ganhareis as vossas almas» (Lc., 21, 19).
Entre os primeiros cristãos, havia alguns que estavam impacientes porque o Senhor demorava demasiado a regressar (a sua prometida Segunda Vinda). Nos nossos dias, o problema pode ser o oposto: alguns de nós, talvez, não pareçam importar-se muito com a sua Segunda Vinda ou mesmo com a vida eterna – infelizmente!
Deus, o Semeador, é paciente com o joio nas nossas almas e nas almas dos outros. Jesus aponta: «Deixai que ambos [o trigo e o joio] cresçam juntos até à colheita» (Mt., 13, 30). Da mesma forma, devemos ser pacientes com aqueles que, na jornada desta vida, infligem feridas às nossas almas. Deus dá-nos oportunidades e graças para melhorarmos as nossas vidas, e Ele perdoa-nos sempre. E assim devemos fazer nós também. Perdoamos os outros todos os dias e, assim, praticamos a esperança paciente em nós mesmos e nos outros. De facto, o perdão é um apelo à esperança paciente. “A caridade é a árvore do amor, cuja essência é a paciência e a benevolência para com o próximo” (Santa Catarina de Sena).
Por vezes, podemos perder a paciência e tornar-nos impacientes quando somos tentados a acreditar que Deus está ausente das nossas vidas e parece surdo às nossas súplicas. Podemos até procurar e pedir sinais extraordinários ou milagres. Santa Teresa de Ávila refere: “Não é preciso pedir um milagre; Deus fá-lo-á por ti, se for conveniente para ti”. Em vez disso, rezamos para sentir a presença de Deus na nossa vida e nos acontecimentos, incluindo nos nossos dias de escuridão, presentes ou futuros. (A propósito, especialmente em tempos perigosos, algum descanso e um pouco de bom humor ajudam-nos a minimizar a tristeza e a raiva, e dão-nos a capacidade de receber com paciência os golpes habituais da vida). Por isso, «fica quieto perante o Senhor e espera pacientemente por Ele» (Sal., 37, 7). No seu famoso poema, Santa Teresa de Ávila convida-nos a ser pacientes em oração:
Que nada te perturbe. / Que nada te assuste; / todas as coisas passam. / Deus nunca muda. / A paciência tudo consegue; / quem tem Deus / descobre que nada lhe falta. / Deus só basta.
Pe. Fausto Gomez, OP

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