Simplicidade

OUTRAS VIRTUDES – 3

Simplicidade

A parábola do Juízo Final (cf. Mt., 25, 31–46) bate frequentemente à porta do meu coração, questionando o meu modo de vida, em particular a obrigação de levar uma vida simples e de partilhar algo com os pobres e necessitados. Esta obrigação recai sobre todos os crentes em Jesus; de maneira especial sobre aqueles que professaram a pobreza voluntária.

O estilo de vida de Jesus é um estilo de vida simples. Ele pede aos seus seguidores que vivam uma vida simples (cf. Catecismo da Igreja Católica n.º 1809). Os nossos santos viveram uma vida de simplicidade e humildade.

As pessoas que levam um estilo de vida simples levam uma vida sóbria. A sobriedade é outra virtude essencialmente semelhante à simplicidade, à frugalidade e à austeridade. O Ser Humano é um ser relacional, ou “um ser-em-relação”. Intimamente ligada à temperança e à simplicidade, a sobriedade é a virtude que nos inclina a ter boas relações com Deus, connosco mesmos, com os outros e com a criação. Escreve o Papa Francisco: “se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude” (Laudato si’ n.º 11).

A simplicidade faz-nos ansiar por Deus e pelo seu amor. Assenta na rocha firme da Graça Divina, na fé esperançosa em Deus, na fé no seu amor infinito. A oração, a meditação e o silêncio ligam-nos a Deus, que nos concede a sua graça divina para que nós, seres humanos, possamos participar verdadeiramente, de forma limitada, da sua divindade. Deus é o nosso Pai e Criador, que, por meio de Jesus, no Espírito, nos criou iguais e abertos aos outros numa simplicidade amorosa, ou sobriedade.

A simplicidade ajuda-nos a estar em harmonia connosco mesmos. Esta harmonia é alcançada pela luz da razão, pela força da vontade e pelo controlo das paixões e dos apetites: “O corpo submetido ao espírito e o espírito submetido a Deus” (Santo Agostinho). Numa vida ruidosa e agitada, precisamos de cultivar a nossa vida interior, a oração e o silêncio – e a comunhão. Pecadores que somos, não podemos ter paz dentro de nós mesmos se não tivermos harmonia, ou paz com o nosso Deus misericordioso – e com os outros.

A sobriedade, além disso, é uma virtude que nos inclina a ter relações humildes e compassivas com os outros. Um dos principais problemas sociais no mundo de hoje continua a ser a pobreza – a pobreza involuntária, forçada. A pobreza forçada é um mal que clama ao céu! Num mundo de abundância, onde muitos ricos e poderosos ostentam a sua riqueza material, a simplicidade continua a ser urgentemente necessária.

Por fim, a simplicidade ou a sobriedade ajuda-nos a ter uma relação responsável com a criação de Deus. Ajuda-nos a desapegarmo-nos das coisas e a valorizá-las devidamente como bens úteis, tais como o nosso computador ou telemóvel. José Mujica, que foi Presidente do Uruguai, afirmou: «A sobriedade é um luxo que nos permite ser livres. A liberdade é o que dá sabor à vida. Temos de aprender a viver com o necessário, e não estou a fazer uma apologia da pobreza».

A simplicidade, a sobriedade, é a virtude, ou o bom hábito, que nos leva a não sermos consumidores compulsivos e irracionais. Ajuda-nos a resistir à tentação de consumir sem limites. O consumismo centra-se em ter mais e não em ser mais. Alimenta o desejo de bens materiais, ao mesmo tempo que entorpece os valores superiores do amor e da partilha. Centra-se em si mesmo e é egoísta: um pecado social. A felicidade não consiste em ter mais, mas em precisar de menos e partilhar algo com os necessitados. A simplicidade leva-nos a não deitar fora coisas boas que não podemos usar e consumir, mas que outros podem. Condena uma cultura de consumismo e de desperdício, uma cultura do descarte tão bem explicada pelo Papa Francisco na sua encíclica Laudato si’ (cf. LS n.º 84). Contra uma cultura do consumismo, o Papa argentino propõe a cultura da simplicidade e do cuidado (cf. LS n.º 231). A simplicidade, a sobriedade, dizem não ao consumismo extremo, compulsivo e obsessivo, um consumismo que é autodestrutivo (cf. LS n.os 162, 184, 203, 214 e 215).

Todo o cristão deve ser pobre de espírito como condição do discipulado. A pobreza de espírito implica o desapego das coisas materiais, um estilo de vida simples e sóbrio, e a solidariedade com os pobres. Implica a capacidade de reconhecer Jesus nos pobres, nos que sofrem e nos “caídos” nas estradas da injustiça, da violência e do ódio. O Papa Leão XIV escreve: “os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo” (Dilexi te n.º 110).

Permitam-me recordar aqui uma história bem conhecida: a história de uma pedra preciosa. Um dia, um monge itinerante encontrou uma pedra preciosa e colocou-a no seu saco simples e transparente. Noutro dia, encontrou um viajante, que viu a pedra preciosa no seu saco e pediu-lha. O monge deu-lha. O viajante ficou muito feliz. No entanto, alguns dias depois, o viajante percebeu que não estava feliz: queria cada vez mais coisas. Ele voltou ao monge e devolveu-lhe a pedra preciosa, perguntando-lhe: «– Agora peço-te que me dês algo muito mais valioso do que esta pedra. Por favor, imploro-te, dá-me aquilo que te permitiu dar-me a tua pedra preciosa». O viajante estava a pedir desapego, simplicidade, sobriedade, a virtude da temperança – impregnada de amor.

As virtudes estão interligadas entre si, e todas devem ser permeadas pelo amor ou pela caridade – a primeira, a forma e a mãe de todas as virtudes. Para o cristão, a caridade é a virtude que confere uma nova visão – a visão do coração – a todas as virtudes. O amor, pelo caminho da fraternidade e da solidariedade, aperfeiçoa a simplicidade e a generosidade. O Papa Bento XVI afirma que o programa de vida dos cristãos, que é o programa de Jesus, é o programa do Bom Samaritano, ou seja, de “um coração que vê”. E o Papa alemão acrescenta: “Este coração vê onde há necessidade de amor, e actua em consequência” (Deus caritas est n.º 31). A simplicidade, vivificada pela caridade, é um caminho de solidariedade e torna a solidariedade mais credível.

O Papa Francisco convida todos os cristãos a um estilo de vida sóbrio e essencial que conduz à partilha da riqueza e à experiência da comunhão fraterna (cf. Mensagem do Dia Mundial da Paz, de 1 de Janeiro de 2014; cf. LS n.º 225).

Palavras para reflectir: “É impressionante como até aqueles que aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e espirituais acabam, muitas vezes, por cair num estilo de vida que os leva a agarrarem-se a seguranças económicas ou a espaços de poder e de glória humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na missão. Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário!” (Papa Francisco, Evangelii gaudium n.º 80).

Ao comentar a Parábola do Juízo Final, refere o teólogo Xavier Pikaza: No fim da jornada, quando o ser da pessoa for revelado, o juiz não perguntará: Foste homem ou mulher? Foste casado ou solteiro? Tiveste filhos ou não? O que ele perguntará é mais universal, mais profundo e mais simples ao mesmo tempo: “Tive fome, deste-me de comer? Estava exilado, nu, doente, na prisão, serviste-me? Sempre que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequenos, fizeste-o a mim” (cf. Mt., 25, 31–46). Só esta fraternidade universal, que se reflecte no serviço concreto aos mais necessitados, nos manifesta como sinais de Deus na terra.

O sábio reza: «Afasta de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem pobreza nem riqueza, mas o necessário para viver» (Prov., 30, 8). A simplicidade amorosa exorta-nos (com os Bispos Canadianos) a “viver com simplicidade para que os outros possam simplesmente viver”.

Que o Senhor Crucificado e Ressuscitado nos mova a imitar, de forma mais profunda, a sua simplicidade amorosa, o seu estilo de vida simples!

Pe. Fausto Gomez, OP

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