Humildade

OUTRAS VIRTUDES – 2

Humildade

Todos sabemos que existe o orgulho e existe até mesmo a humildade orgulhosa daqueles que se consideram humildes. “A verdadeira humildade não se exibe e dificilmente fala de maneira humilde”. Para os cristãos – e muitos outros –, a virtude da humildade é como ar fresco para o coração.

A humildade sincera expulsa o orgulho, seu contrário. “A humildade é a coroa de todas as virtudes e é necessária para agradar a Deus; o orgulho tudo estraga” (Charles de Foucauld). O ditado clássico em Latim diz bem: Homo humus, fama fumus, finis cinis – “O homem é terra, a fama é fumo, o fim é cinza”. «O que tens que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias como se não fosse um dom?» (1 Cor., 4, 7). Assim, “o primeiro passo da humildade é reconhecer que não a temos” (Jacques Philippe, “Meditação sobre as Bem-aventuranças”).

A virtude da humildade inclina-nos a considerar os outros melhores do que nós mesmos. Por que devo considerar-me inferior aos outros? São Tomás de Aquino responde: Em nós mesmos, temos algo que nos pertence e algo que pertence a Deus; o que é nosso não é realmente nada; o que é de Deus é tudo. Como nos consideramos inferiores aos outros? Considerando neles o que eles têm de Deus e considerando em nós mesmos o que temos de nós; neles, vemos que são filhos de Deus; em nós, vemos a nossa pecaminosidade e indignidade.

Como ser humilde, não orgulhoso? Aprendemos e experimentamos a humildade seguindo e imitando Jesus, que era humilde: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt., 11, 29); «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc., 22, 27). Jesus é ontologicamente humilde (no ser): «O Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo., 1, 14). E eticamente humilde (na acção): humilde no presépio, na sua vida oculta em Nazaré, na sua vida pública; na sua paixão e morte na cruz; na Sagrada Eucaristia. Jesus pregou a humildade aos seus discípulos (cf. Lc., 14, 1.7–11).

O burro que o nosso Senhor montava no Domingo de Ramos teria ficado orgulhoso, talvez pensando – se pudesse – que as aclamações do povo eram para ele. Certa vez, um jornalista fez uma pergunta provocadora a Santa Teresa de Calcutá. «– As pessoas aplaudem-na muito, gosta disso ou fica indiferente?». Respondeu: «– Gosto muito. Lembro-me de Jesus a entrar em Jerusalém montado num burro; sou um burro feliz por levar Jesus; as hosanas são para Ele!».

Os seguidores de Jesus devem imitar a humildade de Jesus. Todos os santos são radicalmente humildes. Maria era muito humilde: Fiat, seja feita a tua vontade, «Eu sou a serva do Senhor!» (Lc., 1, 38). O seu “Magnificat” não é apenas uma oração encantadora, mas um hino revolucionário que exulta Deus nos humildes, nos modestos (cf. Lc., 1, 46-55). “Queres seguir Cristo? Sê humilde como Ele” (São Cesário de Arles).

O grande valor da humildade: “Acredita em mim, na presença da sabedoria infinita, um pouco de estudo da humildade e um acto de humildade valem mais do que todo o conhecimento do mundo” (Santa Teresa de Ávila, “Vida”). “Todas as visões, revelações e sentimentos do céu (…) não são tão valiosos quanto o menor acto de humildade” (São João da Cruz, “Subida ao Monte Carmelo”).

Palavras para reflectir: “A humildade cristã não consiste em inclinar a cabeça e curvar o pescoço, mas em saber que devemos curvar o nosso coração através do arrependimento, para que a nossa fé não seja pobre, a nossa esperança não seja coxa e o nosso amor não seja cego (…). A humildade não é masoquismo, mas o justo conhecimento de si mesmo para ocupar o lugar que nos compete” (Andrés Prado).

Como sempre, a fidelidade à oração é muito útil para alcançar a verdadeira humildade: «Porque tu, [Ó Senhor], livras o povo humilde, mas os olhos altivos tu rebaixas» (Sl., 18, 27).

A humildade é a virtude da primeira bem-aventurança (cf. Mt., 5, 3). São Leão Magno escreve: “O Senhor não disse: ‘Bem-aventurados os pobres’. Ao dizer bem-aventurados os pobres de espírito, ele deseja ajudar-nos a compreender que o Reino de Deus será daqueles que mereceram mais pela humildade das suas almas do que pela falta de bens”. Bem-aventurados os pobres de espírito ou “quão bem-aventurados são aqueles que reconhecem a sua necessidade de Deus”.

A pobreza espiritual e a pobreza em espírito significam substancialmente o mesmo, isto é, pobreza afectiva: ter um coração puro, o coração de uma criança confiante, gentil e humilde diante de Deus. A pobreza espiritual é uma condição de discipulado para todos os cristãos. A pobreza em espírito implica um desapego que nos permite estar totalmente ligados a Deus através de Jesus no Espírito. O desapego requer duas coisas: primeiro, viver com sobriedade, com um estilo de vida simples; segundo, partilhar algo do que temos com aqueles que não têm. Pobreza espiritual significa deixar tudo por Cristo, desapegar-se das coisas e partilhar. Algo com os necessitados. Santa Teresa de Calcutá escreve: “Não pode nem deve haver desperdício, esbanjamento de coisas quando há seres humanos que anseiam até pelo som gentil de uma voz humana”.

A pobreza de espírito significa infância espiritual, ou seja, ser como uma criança: «Quem se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no reino dos céus» (Mt., 18, 4). O poeta canta: “Vuélveme a la edad bendita / en que vivir es soñar” – “Devolve-me à idade abençoada em que viver é sonhar”. Os santos são sonhadores. Aqueles que verdadeiramente acreditam na esperança são sonhadores: amanhã, no nosso futuro, Deus realizará o milagre da nossa vida!

Jesus Cristo, nosso salvador e redentor, apresenta-nos o seu Pai, que também é nosso Pai: “No Antigo Testamento, Deus é chamado Pai onze vezes, enquanto no Novo, 261 vezes; destas, 167 pelo seu Filho” (José María Cabodevilla, “O Filho Pródigo”).

Um exemplo notável de infância espiritual é Santa Teresa do Menino Jesus, que escreve na sua “História da Alma”: “Deus é mais terno do que uma mãe”. Estritamente falando, Deus não é nem pai nem mãe; nem masculino nem feminino: “Ele está além da nossa linguagem; Deus é sempre ‘o Outro’, que está além da nossa miopia” (S. Fuster).

Que maravilha: “Certamente, seria o mesmo chamá-lo [a Deus] de Mãe ou Pai, dizer que Deus é Pai ou dizer que Deus é Mãe”. “Que Ele nos abençoe; que Ela nos ilumine. Que Ele nos ajude, que Ela esteja connosco”. Ele é “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”. “Não é Ele também o Deus de Sara, de Rebeca e de Raquel?”. “Que Ele nos dê compreensão! Que Ela nos dê memória” (José María Cabodevilla).

Somos filhos de Deus Pai, irmãos e irmãs de Jesus Cristo e templos do Espírito Santo. “Se não vos tornardes como crianças (…)”. As duas palavras-chave da nossa vida são filiação e fraternidade. Depois de ouvir o missionário falar sobre Deus como Pai, o chefe indígena americano disse-lhe: «– Disse que Deus é o seu Pai, não foi?». «–Sim!». «– Disse que Deus também é o meu Pai, não foi?». «–Sim!». «– Então, vós e eu somos irmãos». E o índio e o missionário abraçaram-se (W. Barclay).

Se quisermos progredir no caminho da infância espiritual, há dois vícios a evitar e a vencer: o infantilismo – a infantilidade – e a auto-suficiência. Temos de passar, segundo Cabodevilla, da primeira infância a uma idade madura e, desta, a uma segunda infância. Qual é, então, o verdadeiro significado da infância? Acima de tudo, infância significa impotência, fragilidade e vulnerabilidade, o que implica a necessidade de estar perto do forte (da fortaleza), do nosso Pai omnipotente e misericordioso. A infância espiritual inclina-nos a acreditar que Deus está no comando. Ser filho de Deus implica manifestar Deus nas nossas vidas através do amor fraterno (cf. 1 Jo., 3, 10).

Pouco antes de morrer, Santa Teresa explicou o significado da infância espiritual: «– Significa reconhecer a nossa própria insignificância, esperar tudo de Deus como uma criança espera tudo do seu pai. Ser pequeno significa não atribuir a si mesmo as virtudes que se pratica – como se fosse capaz de tudo –, mas reconhecer que Deus coloca esse tesouro nas mãos da criança pequena». Implica também, segundo Santa Teresa, «prestar pequenos serviços sem os contar». Ela fala do martírio diário dos «pequenos alfinetes».

O Reino de Deus pertence às crianças, àqueles que são como crianças: humildes, obedientes, confiantes. Confiantes: respeitosos da autoridade; confiantes nos outros; com “memória curta” (W. Barclay). A criança vive o momento em plenitude. Da mesma forma, concentramo-nos no presente, no agora, neste momento – tal como uma criança. De facto, a nossa “vida é uma série de momentos vividos ou perdidos” (provérbio budista): vividos no amor; perdidos no mal e no pecado.

A infância espiritual impele-nos a viver o presente com toda a intensidade! “A infância espiritual é viver com toda a intensidade o presente – como a criança – que é feliz porque todo o seu espírito está consagrado ao que é real” (Cabodevilla, “A impaciência de Jó”). Como já ouvimos muitas vezes, “ontem é história, amanhã é mistério e hoje é o Presente – um dom de Deus”.

Jesus diz-nos: «Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mt., 18, 3). O que isto significa? Um teólogo responde: Significa que “não conheceremos Deus como Pai e não seremos felizes” (González de Cardedal, “Raiz da Esperança”).

Pe. Fausto Gomez, OP

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