A necessidade absoluta da Oração

OUTRAS VIRTUDES – 1

A necessidade absoluta da Oração

A vida cristã é vida espiritual e moral. Ao longo da vida, a oração é essencial para todo cristão – sacerdote, religioso ou leigo. A oração é uma virtude essencial para a jornada da vida.

Gostaria de reflectir sobre a oração na nossa vida. Primeiro, falaremos sobre a nossa necessidade e obrigação de rezar; segundo, sobre a natureza e os tipos de oração; terceiro, sobre os métodos de oração; quarto, sobre os frutos da oração; e, quinto, a título de conclusão, reafirmaremos a necessidade de rezar sempre.

A vida cristã significa seguir Cristo, cuja vida era profundamente orante. Como vemos nos Evangelhos, Jesus rezava sempre, especialmente quando tinha de tomar uma decisão importante ou celebrar um evento importante: antes de encontrar os escribas e fariseus (cf. Lc., 5, 16); antes de escolher os doze apóstolos; antes da confissão de Pedro (cf. Lc., 9, 28); ou antes de ensinar os seus discípulos a rezar (cf. Lc., 11, 1). Muitas vezes, os Evangelhos falam-nos sobre a oração de Jesus, em silêncio (cf. Mt., 14, 22-23; Lc., 5, 15-16; 3, 21-22: «De manhã, ainda escuro, levantou-se e foi para um lugar deserto, e ali rezou» (Mc., 1, 35). Jesus ensinou-nos a rezar a Oração, o Pai Nosso, que é a norma da oração cristã.

Jesus diz-nos: «Orai sempre e não desanimeis» (Lc., 18, 1). Após a Ascensão do Senhor, os apóstolos, juntamente com algumas mulheres, incluindo Maria, Mãe do Filho de Deus e nossa Mãe, foram para o cenáculo para rezar: “Todos eles, com um só coração, perseveravam na oração” (cf. At., 1, 12–14). Na nossa vida apressada, todos precisamos de ir ao cenáculo para rezar. São Paulo alerta-nos: «Orai sem cessar» (1 Ts., 5, 17). “Pois quem tem o hábito de rezar apenas na hora em que se ajoelha reza muito pouco. Quem se distrai com qualquer tipo de divagação do coração, mesmo ajoelhado, nunca reza” (João Cassiano, “As Conferências, 10.ª, XIV.1”). (Segundo o “Padres do Deserto”, três actividades acalmam os pensamentos vagantes: vigílias, meditação e oração. Santa Teresa costumava dizer que as almas que não têm vida de oração, nenhuma “interioridade”, são “como corpos aleijados” e “vazias por dentro”.

O Senhor pede-nos que rezemos sempre, isto é, de forma real ou virtual, externa ou interna. “A frase do apóstolo ‘Orai sem cessar’ não significa outra coisa senão desejar sem cessar, daquele que só pode dar [a vida abençoada – que não é outra senão a vida eterna” (Santo Agostinho, “Carta a Proba”). Orar sem cessar é o desejo real ou virtual da caridade e, consequentemente, a intenção constante de fazer todas as coisas para a glória de Deus (I Cor., 10, 31). Bento XVI (2005): «Não há situação humana que não possa ser transformada em oração».

Somos corpo e alma. O nosso corpo precisa de alimento – alimento material – para viver e permanecer forte. A nossa alma precisa de alimento – alimento espiritual – para estar viva em Deus. Àqueles que seguiam Jesus esperando alimento físico – pão e peixe –, Ele disse: “Não trabalhem pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece e que dá a vida eterna…” (Jo., 6, 25-27).

Acreditamos em Deus, esperamos nele e amamo-lo. Daí que tenhamos de rezar: a fé, a esperança e o amor rezam. Na fé, na esperança e na caridade, o desejo constante do amor faz-nos rezar continuamente (cf. Santo Agostinho). Quem está apaixonado por Deus está a rezar constantemente.

Todos nós precisamos de rezar. Somos criaturas e filhos de Deus. Somos fracos e necessitados: “os verdadeiros mendigos do Senhor” (“Padres do Deserto”). “Mendigos de Deus” (Santo Agostinho). «Sem mim», diz Jesus, «não podeis fazer nada» (Jo., 15, 5). A oração – escreve um dos meus alunos – “é uma necessidade e é a fonte da nossa força (como estimulantes e medicamentos)”. Precisamos de rezar sempre e, de uma forma especial, hoje: há demasiada acção e ruído, e demasiadas palavras!

Precisamos de rezar diariamente. Rezamos hoje, agora, neste momento, que é a única coisa que temos nas nossas mãos. O Mestre Zen refere: “O passado é irreal; o futuro também é irreal; só o momento é real. A vida é uma série de momentos, vividos ou perdidos”. De facto, a vida é uma série de momentos vividos ou perdidos! Por isso, a nossa oração não é ontem nem amanhã, mas hoje: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (cf. Sl., 95, 7-8). Em tempos de dificuldade ou escuridão, como o salmista, «Tudo o que posso fazer é rezar!» (Sl., 109, 4).

Como aprendemos a rezar? O Mestre dos Noviços respondeu assim a um noviço: “a primeira lei é rezar; e a segunda é perseverar”. Resposta de São Padre Pio de Pietrelcina: “Rezar, sempre!”. De facto, como nos aconselha um especialista: “Se quereis uma vida de oração, a maneira de a conseguirdes é rezando” (Thomas Merton).

Como rezar, então? Quando rezamos, estamos concentrados, recolhidos, não dispersos. O tempo de reza é o tempo de Deus, tempo de qualidade com Deus. Estamos humildemente presentes diante de Deus porque a oração é a linguagem da humildade. Sem humildade, a oração verdadeira e o progresso na oração não são possíveis. Na presença real de Deus, estamos humildemente presentes diante dele. E, como o publicano (cf. Mt., 6, 5-6), estamos humildemente penitentes e pedimos o perdão de Deus (cf. Mt., 6, 14-15): «Senhor, peço perdão». E também perdoamos os outros: «Quando estiveres a orar, perdoa a quem te tiver ofendido, para que o teu Pai celestial também te perdoe as tuas ofensas» (Mc., 11, 26).

Toda a oração deve ser devotamente atenta. Se estivermos realmente atentos, alcançaremos não só um aumento da graça e uma resposta às nossas orações de súplica, mas também “o doce gozo de Deus” (Beato Afonso Orozco). “A minha maneira simples de orar (…) centra-se inteiramente na atenção à presença de Deus, à sua vontade e ao seu amor” (Thomas Merton).

A oração envolve total confiança em Deus. Ele é o nosso Pai. Ele ama-nos. Somos seus filhos e trabalhamos arduamente – como Santa Teresa do Menino Jesus – para sermos infantis, não infantis. A oração é um remédio eficaz contra o orgulho e a atitude de “mais santo e mais sábio do que tu”. Deus disse a Santa Catarina: «Eu sou Aquele que é, tu és aquela que não é».

Noutro clássico da espiritualidade, “O Caminho do Peregrino”, o autor russo anónimo refere que a oração, para ser verdadeira, “deve ser oferecida com uma mente e um coração puros, com zelo ardente, com muita atenção, com temor e reverência, e com a mais profunda humildade”. Amém

Pe. Fausto Gomez, OP

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *