As colónias de leprosos no Vietname
A maioria das colónias de leprosos no Vietname foram estabelecidas entre o início do Século XX (como Quy Hoa, na cidade de Qui Nhon, no Centro do Vietname, em 1929) e as décadas de 1960 e 1970 (como Bien Hoa, no Sul do Vietname, no ano de 1968), em zonas remotas e isoladas devido ao receio de propagação da doença à comunidade. Por isso, carecem de serviços básicos e enfrentam condições de vida precárias, tanto físicas como mentais.
A lepra não só atormenta os doentes fisicamente, como também deixa profundas cicatrizes psicológicas. Os leprosos além de se sentirem constrangidos com a sua aparência, são também ostracizados e rejeitados onde quer que vão. Algumas pessoas idosas contraíram a doença ainda jovens e vivem em leprosários há cinquenta ou sessenta anos, porque não têm para onde voltar.
A maioria dos doentes é cuidada por freiras católicas de Ordens religiosas como as Amantes da Cruz ou as Franciscanas Missionárias, entre outras, em mais de dez instalações espalhadas pelo País, conhecidas como “colónias de leprosos”. As irmãs não só tratam os doentes com lepra, como também cuidam de idosos e crianças órfãs afectadas pela doença.
A senhora Lo Thi Coc, que já foi curada da lepra, ainda tem problemas de visão e sente muitas dores nas pernas devido às deformidades, especialmente quando o tempo muda. Jamais esquece as experiências horríveis de medo e discriminação que sofreu por parte dos vizinhos no passado. A propósito, confidenciaria a um repórter da agência FIDES: «Nessa altura, eu e a minha família passávamos por muitas dificuldades; éramos muito pobres e ninguém queria aproximar-se de nós com medo de ser infectado. Naquele momento, pensei em fugir para a floresta para viver o resto da minha vida, mas graças ao apoio e à companhia inabaláveis do meu filho, mudei de ideias».
Compreendendo o imenso sofrimento destas pessoas, as irmãs dedicaram-se a cuidar dos doentes nas leprosárias, o que ajudou muitos deles a redescobrir a alegria de viver. «Não tenho família aqui, mas as freiras católicas e várias organizações ajudam-me, por isso a vida é um pouco mais fácil», confidenciou à FIDES o já idoso Joseph That, de 78 anos de idade, paciente da leprosaria de Ben San, na aldeia de Long Binh, na província de Binh Duong, no Sul do Vietname. Era casado, mas a mulher deixou-o depois de descobrir que ele sofria de lepra e nunca mais entrou em contacto. Entretanto, viu as pernas serem-lhe amputadas; usa próteses, as mãos estão contraídas em consequência da lepra e coxeia ao caminhar.
Um paciente da colónia de leprosos de Quy Nhon referiu: «As freiras lutam pelos nossos direitos, por isso todos nós as respeitamos e as consideramos como membros da família». Outro doente, que está na aldeia de leprosos desde 1960, cujo pai era membro do Partido Comunista e os irmãos são budistas, contou que se converteu ao Catolicismo porque as freiras cuidaram dele como se fossem suas mães. Seguindo o exemplo das irmãs, permanece na colónia para cortar o cabelo aos doentes idosos, visitá-los e confortá-los.
Muitos exemplos de serviço dedicado por membros de Ordens e Congregações religiosas femininas têm sido reconhecidos pela comunidade e elogiados em jornais estatais, especialmente o da irmã-enfermeira Anna Nguyen Thi Xuan, nascida em 1957, que há quase quarenta anos cuida de doentes na colónia de leprosos de Qua Cam, na diocese de Bac Ninh, no Norte do Vietname. Foi condecorada com a Medalha do Trabalho de Terceira Classe pelo Presidente do Vietname e é uma das cinquenta pessoas que receberam uma menção honrosa do Primeiro-Ministro pela sua acção na área da Assistência Social.
O cuidado e a comunhão de toda a Igreja Católica no Vietname para com os leprosos ganha expressão nas visitas e na distribuição de presentes, realizados pelas várias comunidades católicas do País.
Mais recentemente, durante as celebrações do Ano Novo Lunar do Cavalo, no dia 5 de Fevereiro, a diocese de Thai Binh organizou um encontro e uma celebração de Ano Novo com doentes de lepra na capela Dong Tho, na paróquia de Thai Sa. Na ocasião, o bispo da Diocese, D. Dominic Dang Van Cau, pediu aos fiéis que acolhessem, amassem e acompanhassem aqueles que sofrem de lepra. «Este não é apenas um acto de misericórdia, mas também uma acção concreta de solidariedade», salientou.
Actualmente, a diocese de Thai Binh está a construir uma nova instalação. Trata-se de um lar para leprosos, que – espera-se – possa vir a contribuir para a melhoria de vida dos utentes, ou seja, «um espaço de vida estável, seguro e acolhedor, proporcionando aos doentes um refúgio a longo prazo».
O número de casos de lepra detectados em 2025 no Vietname foi de 38, marcando o número anual mais baixo alguma vez registado. De facto, o número diminuiu drasticamente nos últimos anos. Entre 2012 e 2016, foram assinaladas mais de mil situações. Nos últimos cinco anos, apenas foram contabilizadas algumas dezenas. Hoje, todas as províncias e cidades são reconhecidas como zonas livres de lepra, tendo ocorrido apenas casos esporádicos. De acordo com os especialistas de saúde vietnamitas, esta queda acentuada deve-se a protocolos de tratamento eficazes e à gestão atempada dos casos de lepra na comunidade. No entanto, ainda existem aproximadamente seis mil doentes com lepra no Vietname. A maioria das pessoas que já tive a doença acabou por recuperar da bactéria, mas ainda sofre de sequelas graves.
Joaquim Magalhães de Castro

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