Mais Violência e Crise Alimentar
Moçambique sofre não só com a violência, a insegurança, a criminalidade e a instabilidade política, mas também com uma crise alimentar de “proporções enormes”. Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) mostra que cerca de cem mil crianças, com menos de cinco anos de idade, necessitarão de tratamento para a malnutrição aguda grave ao longo de 2026. Moçambique tem uma das taxas mais elevadas de subnutrição na África Subsariana.
Entretanto, a situação dos deslocados internos em Cabo Delgado e noutras zonas é crítica. Sucedem-se ataques de movimentos terroristas que obrigam as famílias a fugir das suas casas. Dados do último relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM) apontam para, pelo menos, 776 pessoas afectadas, incluindo crianças.
Ao receber a notícia do grave ataque terrorista que a 30 de Abril destruiu a paróquia de São Luís de Monfort, em Meza (Cabo Delgado), e no qual 22 pessoas – das que se sabem – foram raptadas por terroristas, D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, administrador apostólico da arquidiocese da Beira e missionário da Consolata, contactou D. António Juliasse, bispo de Pemba, e os padres Marc, André e Florence, missionários piaristas dos Camarões que trabalham na paróquia afectada, para manifestar a sua total solidariedade.
A situação é muito grave; as pessoas estão assustadas, mas unidas em oração. “Neste momento de dor e provação, damos graças a Deus pela segurança da equipa missionária, mas lamentamos com a diocese de Pemba a destruição da Casa do Senhor, monumento de fé construído em 1946, e todos os danos causados”, declarou D. Osório na mensagem que enviou à agência FIDES. “Podem contar com as nossas orações, a solidariedade da igreja de Quelimane e a nossa comunhão fraterna. Que o Bom Pastor conforte este povo e converta os corações endurecidos pelo ódio. Estamos unidos na cruz e na esperança da Ressurreição, enquanto denunciamos esta violência terrorista e rezamos pela paz desta terra martirizada”.
Em Moçambique, a cruz não é apenas um símbolo de fé; tornou-se motivo de perseguição para quem a transporta. Desde 2021 que os “insurgentes” aterrorizam sob a bandeira do Estado Islâmico, atacando missões católicas e obrigando as pessoas a converterem-se ao Islão. No entanto, a questão religiosa não é a causa mais significativa do conflito. Para o arcebispo de Nampula, D. Inácio Saure, “uma das principais causas da guerra em Cabo Delgado parece ser o interesse de grupos centrados nos recursos minerais”.
Nas províncias de Nampula e Cabo Delgado, a Igreja Católica permanece na linha da frente, transformando as paróquias em centros de refúgio “sem muros blindados ou guardas armados”, como refere o prelado, relativamente à natureza do extremismo violento no Norte de Moçambique, sublinhando: “Acreditamos que a solução para o problema em Cabo Delgado e Moçambique reside não só na acção militar, mas no desenvolvimento integral da dignidade humana”.
Numa recente intervenção no Parlamento Europeu o arcebispo D. Inácio, que é também presidente da Conferência Episcopal Moçambicana (CEM), afirmou: «O vosso apoio, através do segundo programa “Hungria Ajuda”, pode ser uma luz, um farol de esperança ao fundo de um túnel escuro para milhares de deslocados, garantindo que o Cristianismo e a Paz continuem a florescer em solo moçambicano».
As declarações fazem parte de um apelo para pressionar as multinacionais a formarem e empregarem jovens locais, de forma a ajudar a resolver os problemas que alimentam o ressurgimento do extremismo violento na região. Segundo relatos da Imprensa local, relativamente ao que considera pressão económica, o arcebispo de Nampula invocou a «responsabilidade corporativa», para que «as multinacionais do gás e da mineração em Cabo Delgado e Nampula não sejam o problema, mas sim parte da solução, e sejam obrigadas a contratar e formar jovens locais, garantindo que a ajuda humanitária seja uma prioridade máxima». D. Inácio apelou ainda à União Europeia para que pressione o Governo moçambicano a garantir que a ajuda chega aos seus destinatários e aborde as causas profundas, como a exclusão, o subdesenvolvimento, a corrupção e a má gestão dos recursos, bem como a prestar apoio militar, «na formação, e não apenas no fornecimento de armas».
«Embora raramente seja mencionado, a violência que eclodiu em Cabo Delgado, em Outubro de 2017, não terminou. Simplesmente assumiu uma forma diferente», salientou. Apesar de as principais cidades parecerem seguras – daí a sobrelotação de pessoas deslocadas que vivem em condições terríveis –, o interior e as zonas rurais continuam a ser disputadas, sendo locais de morte desumana.
De acordo com as estatísticas públicas, a guerra já provocou milhões de deslocados internos e mais de seis mil mortes. No contexto da guerra, afirmou que «não se trata apenas do “inimigo sem rosto”», como os governantes o denominaram no início do conflito. Trata-se de jovens locais radicalizados pela pobreza e exclusão, e de combatentes estrangeiros experientes. Eles são mais móveis, operam em células menores e agora também atacam a província de Nampula. Em Chipene, por exemplo, onde a irmã italiana Maria de Copi foi morta em 2022, oitenta por cento dos deslocados internos são mulheres e crianças. Destes, Nampula acolhe centenas de milhares. Não se encontram apenas em centros formais; a maioria vive com famílias de acolhimento já empobrecidas, o que sobrecarrega os recursos da Província.
O modelo dos centros de reassentamento é um fracasso. São precisas soluções habitacionais permanentes integradas nas comunidades locais. Nampula sofre com surtos recorrentes de cólera causados pela sobrelotação e pelo saneamento deficiente, o que leva a desequilíbrios ecológicos e à escassez de recursos. O saneamento básico é uma questão de bio-segurança. Uma geração inteira está a ser perdida. Milhares de crianças deslocadas não têm documentos nem acesso à escola, tornando-se alvos fáceis para os terroristas. «E a Igreja», de acordo com o arcebispo de Nampula, «tem sido o último bastião, com a resposta que tem oferecido, centrada no apoio psico-social, na distribuição de ajuda humanitária e na promoção da coesão social».
Joaquim Magalhães de Castro

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